2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA
Epidemiologia
- Aproximadamente 49 milhões de casos e 13 milhões de mortes relacionadas à sepse por ano globalmente
- Sepse contribui para novos ou piores problemas físicos, cognitivos e de saúde mental em sobreviventes
- Identificação e tratamento precoces são críticos para melhorar desfechos
O que mudou em relação à versão anterior (2021)
- Adição de estratégias de melhoria da qualidade (QI) como recomendação formal
- Novo conceito de "code sepsis" / protocolo de resposta rápida multidisciplinar
- Triagem pré-hospitalar por ambulância
- Alvo de PAM 60-65 mmHg para idosos ≥65 anos (nova recomendação)
- Infusão prolongada de β-lactâmicos elevada a recomendação forte (evidência de alta certeza)
- Novas recomendações sobre cobertura empírica de MDR, anaeróbios e antifúngicos
- Descontaminação seletiva do trato digestivo (SDD) — nova recomendação condicional
- Recomendações sobre suporte respiratório não invasivo (CNAF, prona acordado)
- Novas recomendações sobre antipiréticos, probióticos, vitamina D, XueBiJing, beta-bloqueadores, azul de metileno, midodrina
- Recomendações expandidas sobre cuidados pós-hospitalização e reabilitação
3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES
Definição de Sepse (Sepsis-3, mantida)
- Sepse: Disfunção orgânica aguda ameaçadora à vida devido a infecção
- Choque séptico: Subconjunto de pacientes com disfunção circulatória que confere maior risco de mortalidade
Terminologia de Certeza Diagnóstica de Sepse (NOVA)
| Categoria | Definição |
|---|---|
| Sepse definitiva | Sepse confirmada por história, exame clínico e testes diagnósticos. Diagnóstico alternativo muito improvável |
| Sepse provável | Alta suspeita. Sepse é o diagnóstico mais provável. Diagnóstico alternativo menos provável |
| Sepse possível | Suspeita moderada. Sepse é diagnóstico possível, mas diagnóstico alternativo também é provável |
| Sepse improvável | Baixa suspeita. Avaliação clínica inconsistente com sepse, ou diagnóstico alternativo mais provável |
Tipos de Declarações
| Tipo | Descrição |
|---|---|
| Recomendação forte | "Recomendamos" — maioria dos pacientes deve receber/evitar a intervenção |
| Recomendação condicional | "Sugerimos" — balanço pode variar conforme valores do paciente, contexto clínico ou recursos |
| Declaração de boa prática | Orientação que não depende de perfil formal de evidência |
| "Em nossa prática" | Descreve a prática do painel em áreas com evidência insuficiente |
| Evidência insuficiente | Sem recomendação possível |
Implicações: Recomendação Forte vs. Condicional
| Stakeholder | Recomendação Forte | Recomendação Condicional |
|---|---|---|
| Pacientes/famílias | Todos ou maioria desejaria a intervenção | Maioria desejaria, mas proporção substancial não |
| Clínicos | Deve ser dada a todos/maioria; pouca necessidade de decisão compartilhada | Deve ser feita para maioria, mas considerar decisão compartilhada |
| Formuladores de política | Frequentemente mais apropriada para políticas/indicadores | Pode ser menos apropriada para políticas/indicadores |
| Pesquisadores | Recursos de pesquisa melhor gastos em outros tópicos | Pesquisa adicional pode ser necessária |
4. DIAGNÓSTICO
Triagem para Sepse
Em ambiente hospitalar (Recomendação #4)
- RECOMENDAÇÃO FORTE: Usar NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS em vez de qSOFA como ferramenta única de triagem (evidência de moderada certeza)
- qSOFA tem sensibilidade muito baixa (23,1%) para diagnóstico de sepse
- NEWS2 tem a melhor performance absoluta: sensibilidade 73,1%, AUC 0,77, especificidade 81,6%
- qSOFA NÃO deve ser usado como ferramenta única de triagem, mas permanece útil para detectar deterioração clínica
- O ensaio SCREEN mostrou que triagem eletrônica com qSOFA + alerta + avaliação médica/enfermagem reduziu mortalidade hospitalar em 90 dias (aRR 0,85; IC 95% 0,77-0,93)
Em ambulância/transporte pré-hospitalar (Recomendação #3)
- Recomendação condicional: Usar ferramenta padronizada de triagem (evidência de muito baixa certeza)
- NEWS2 teve melhor performance pré-hospitalar (sensibilidade 73,1%; especificidade 81,6%)
- qSOFA teve a pior sensibilidade pré-hospitalar (23,1%)
Biomarcadores e Testes Diagnósticos Rápidos
Declaração de boa prática (#5)
- Sepse é diagnóstico clínico — não deve ser confirmada ou excluída por um único biomarcador
Novos testes de resposta do hospedeiro (#6)
- Evidência insuficiente para recomendar
- Testes disponíveis: MDW (monocyte distribution width), IntelliSep, SeptiCyte Rapid, TriVerity, Sepsis ImmunoScore, pancreatic stone protein
- Nenhum fornece resultado "positivo" ou "negativo" — categorizam risco
- Em pacientes com >90% de probabilidade de sepse, os testes acrescentam pouco valor
Procalcitonina para início de antimicrobianos (#22)
- Recomendação condicional: Usar avaliação clínica isolada em vez de procalcitonina + avaliação clínica (evidência muito baixa)
Hemoculturas (Recomendação #7)
- RECOMENDAÇÃO FORTE: Coletar hemoculturas o mais cedo possível, idealmente antes do início de antimicrobianos (evidência baixa)
- Patógeno identificado em ~60-70% dos pacientes com sepse; hemoculturas positivas em ~10-20%
- Coletar de dois sítios diferentes (ou sítio único conforme diretriz alemã 2025)
- Volume de 10 mL por frasco
- Choque séptico: rendimento ≥50%
- Administração de antimicrobianos antes da coleta reduz positividade de 31,4% para 19,4% (redução absoluta de 12%, redução relativa de 38,2%)
- Hemoculturas de seguimento recomendadas para: S. aureus, S. lugdunensis e Candida spp.
- Frascos anaeróbios: ~15% dos crescimentos positivos apenas em frascos anaeróbios, mas uso de frascos aeróbios isolados pode ser justificado
Lactato Sanguíneo (Recomendação #8)
- Recomendação condicional: Medir lactato sanguíneo (evidência baixa)
- Carryover da diretriz 2021
5. TRATAMENTO
5.1. Programas de Melhoria de Performance e Implementação
Programa de melhoria de performance (#1)
- RECOMENDAÇÃO FORTE: Usar programa de melhoria incluindo:
- Triagem de sepse para pacientes agudamente doentes e de alto risco
- Protocolos operacionais padrão para tratamento
- Estratégias de melhoria de qualidade (QI)
- Iniciativas de QI associadas a: OR 0,66 para mortalidade (IC 95% 0,61-0,72)
Protocolo "Code Sepsis" (#2)
- Recomendação condicional: Usar protocolo "code sepsis" ou "huddle de sepse" (evidência baixa)
- Equipe multidisciplinar à beira do leito para discussão e agilização do diagnóstico/tratamento
5.2. Ressuscitação Inicial
Emergência médica (#9)
- Boa prática: Sepse e choque séptico são emergências; tratamento e ressuscitação devem começar imediatamente
Volume de fluidos iniciais (#10)
- Recomendação condicional: Administrar pelo menos 30 mL/kg de cristaloide IV nas primeiras 3 horas (evidência baixa)
- Hipoperfusão induzida por sepse: hipotensão (PAM <65 mmHg, PAS <90 mmHg, hipotensão relativa), ou lactato elevado
- Lactato ≥4 mmol/L: limiar histórico para ressuscitação volêmica
- Lactato >2 a <4 mmol/L (intermediário): também pode beneficiar de ressuscitação, consistente com definição Sepsis-3 de choque séptico (>2 mmol/L)
- Em obesos (IMC >30): calcular por peso corporal ajustado ou ideal
- Peso ajustado = peso ideal + 0,4 × (peso real – peso ideal)
Tabela: 30 mL/kg em litros por peso e altura
| Peso (kg) | 1,5m | 1,7m | 1,9m |
|---|---|---|---|
| 50 | 1,5 | 1,5 | 1,5 |
| 60 | 1,8 | 1,8 | 1,8 |
| 70 | 2,1 | 2,1 | 2,1 |
| 80 | 1,9 | 2,4 | 2,4 |
| 90 | 2,0 | 2,4 | 2,7 |
| 100 | 2,1 | 2,5 | 3,0 |
| 110 | 2,2 | 2,6 | 3,3 |
| 120 | 2,3 | 2,7 | 3,0 |
| 130 | 2,5 | 2,8 | 3,1 |
Itálico = peso ajustado (IMC >30)
Diferença com ESICM 2025
- SSC 2026: "pelo menos 30 mL/kg"
- ESICM 2025: "até 30 mL/kg"
- Danos por fluidos geralmente ocorrem com volumes muito maiores (>50 mL/kg)
5.3. Vasopressores
Timing de início (#11)
- Recomendação condicional: Bolus de cristaloide IV inicial seguido de vasopressor se hipotensão persistir (evidência muito baixa)
- Em choque séptico instável (PA muito reduzida, pele mosqueada, cianose, taquicardia, alteração mental): vasopressor concomitante com cristaloide pode ser necessário
- CLOVERS: sem diferença em mortalidade 90 dias entre início precoce vs. tardio
Via de administração (#12)
- Recomendação condicional: Iniciar vasopressores perifericamente em vez de atrasar até acesso central (evidência muito baixa)
- Taxa de complicações com administração periférica: 5,97% (IC 95% 1,17-14,09%)
- "Em nossa prática": 86,6% dos painelistas usam vasopressores periféricos ao menos algumas vezes; 46,6% por até 6h
- Estudo EVERDAC (publicado após finalização): estratégia não-invasiva mostrou não-inferioridade para mortalidade 28 dias (34,3% vs. 36,9%)
Alvo de PAM (#13, #14)
- RECOMENDAÇÃO FORTE (#13): PAM alvo inicial de 65 mmHg sobre alvos mais altos (evidência moderada)
- Na prática, faixa razoável (±5 mmHg)
- Carryover com novo remark
- Recomendação condicional (#14) — NOVA: Para adultos ≥65 anos com choque séptico: PAM alvo de 60-65 mmHg sobre faixas mais altas (evidência baixa)
- Meta-análise em ≥65 anos: alvo mais baixo associado a menor mortalidade (RR 0,89; IC 95% 0,81-0,98, alta certeza)
- Estudo 65 Trial: PAM média 67 mmHg vs. 73 mmHg; mortalidade 90 dias semelhante (41,0% vs. 43,8%)
- OPTPRESS: PAM mais alta (80-85) associada a MAIOR mortalidade em ≥65 anos
Escolha de vasopressores (#53-58)
| Linha | Agente | Força da Recomendação |
|---|---|---|
| 1ª linha | Norepinefrina | FORTE sobre dopamina (alta certeza), FORTE sobre epinefrina/selepressina (baixa certeza) |
| 1ª linha | Norepinefrina sobre vasopressina | Condicional (baixa certeza) |
| 1ª linha | Norepinefrina sobre angiotensina II | Condicional (muito baixa certeza) |
| 2ª linha (adjunto) | Vasopressina (adição à norepinefrina em doses crescentes) | Condicional (moderada certeza) |
| 3ª linha | Epinefrina (adição se PAM inadequada com NE + vasopressina) | Condicional (muito baixa certeza) |
| Contra | Terlipressina | Condicional contra (baixa certeza) |
- VASST: adição de vasopressina pode beneficiar pacientes com choque menos grave (NE <15 µg/min)
- "Em nossa prática": vasopressina iniciada a NE mediana de 0,3 µg/kg/min (IQR 0,2-0,5)
- Epinefrina iniciada a NE mediana de 0,8 µg/kg/min (IQR 0,5-1,0)
Choque séptico com disfunção cardíaca (#58)
- Recomendação condicional: Usar norepinefrina OU epinefrina como 1ª linha (muito baixa certeza)
- Norepinefrina preferida se taquiarritmia
- Epinefrina preferida se bradiarritmia
Azul de metileno (#59)
- Evidência insuficiente para recomendação em choque séptico refratário
- Pode reduzir duração de vasopressores (MD -1 dia; IC 95% -1,8 a -0,2, moderada certeza)
- Doses nos ECRs: infusão única de 0,5-2,0 mg/kg; 100 mg a cada 6h; 2,0 mg/kg seguido de 0,25-2,0 mg/kg/dia
- "Em nossa prática": 69% "nunca" ou "quase nunca" usam
Midodrina (#63)
- Evidência insuficiente para recomendação
- 32,8% dos painelistas usam; 86,4% após fase aguda do choque
Beta-bloqueadores (#64)
- Recomendação condicional CONTRA uso de beta-bloqueadores para tratamento do choque séptico (evidência muito baixa)
- Provavelmente reduzem taquiarritmias de novo (RR 0,37), mas aumentam duração de vasopressores (MD +1,04 dia)
5.4. Inotrópicos (#60-62)
- Recomendação condicional: Usar inotrópicos se disfunção cardíaca com hipoperfusão persistente apesar de volume e PA adequados (muito baixa certeza)
- Inotrópicos devem ser usados em adição a (não em substituição de) vasopressores
- Dobutamina + norepinefrina OU epinefrina isolada: ambos aceitáveis (condicional, muito baixa certeza)
- Contra levosimendan (condicional, baixa certeza) — carryover
- "Em nossa prática": 71,4% usam dobutamina; 14,3% epinefrina; 12,7% milrinona
5.5. Antibioticoterapia
Timing de início (#16-20)
Algoritmo de timing de antimicrobianos (Figura 2):
| Cenário | Recomendação | Prazo |
|---|---|---|
| Choque séptico (possível, provável ou definitivo) | FORTE: iniciar imediatamente | Dentro de 1 hora |
| Sepse provável ou definitiva SEM choque | FORTE: iniciar imediatamente | Dentro de 1 hora |
| Sepse possível SEM choque | Condicional: investigação rápida; se suspeita persistir, administrar antimicrobianos | Dentro de 3 horas |
| Baixa probabilidade de infecção SEM choque | Condicional: adiar antimicrobianos e monitorar | — |
- Antimicrobiano precoce é a intervenção inicial mais eficaz para reduzir mortalidade
- ~10-30% dos pacientes tratados inicialmente para sepse têm diagnóstico final de condição não-infecciosa
- Melhoria simultânea no timing de antimicrobianos e stewardship é possível
Antibióticos pré-hospitalares (#21)
- Recomendação condicional: Administrar antimicrobianos na ambulância para pacientes com sepse definitiva/provável + hipotensão E tempo previsto até avaliação hospitalar >60 minutos (muito baixa certeza)
- Hipotensão: PAS <90, PAM <65, ou PAS <100 em hipertensos conhecidos
Infusão prolongada de β-lactâmicos (#33)
- RECOMENDAÇÃO FORTE: Usar infusão prolongada (após dose de ataque) em vez de bolus (moderada certeza → evidência alta com BLING III)
- Mortalidade: RR 0,91 (IC 95% 0,85-0,97) = 25 menos mortes por 1000 pacientes
- Mais dias vivos fora do hospital: MD +1,8 dias (IC 95% 0,3 a 3,3)
- Infusão prolongada = infusão estendida (≥metade do intervalo de dose) OU infusão contínua
- Dose de ataque obrigatória antes de iniciar infusão prolongada
- Impacto maior para β-lactâmicos de meia-vida curta (piperacilina-tazobactam, carbapenêmicos)
Cobertura empírica de MDR (#25-26)
- Recomendação condicional: Usar cobertura empírica para MDR específico em pacientes de alto risco (muito baixa certeza)
- Recomendação condicional CONTRA cobertura MDR em pacientes de baixo risco (muito baixa certeza)
- Fatores de risco para MDR: colonização prévia (último ano), infecção prévia (último ano), uso prolongado de antibióticos de amplo espectro, hospitalização prolongada em unidade com alta prevalência
- MDR definidos: A. baumannii, ESBL, CRE, VRE, Pseudomonas resistente, MRSA
Cobertura antifúngica empírica (#27)
- Recomendação condicional CONTRA antifúngicos empíricos de rotina (baixa certeza)
- Considerar caso a caso em pacientes com: imunossupressão, uso prolongado de antibióticos, hospitalização prolongada, foco intra-abdominal
- Meta-análise: RR 0,93 (IC 95% 0,66-1,32)
Cobertura anaeróbia empírica (#28-29)
- SEM fatores de risco para anaeróbios: Condicional CONTRA cobertura anaeróbia (muito baixa certeza)
- COM fatores de risco: Condicional a FAVOR de cobertura anaeróbia (muito baixa certeza)
- Fatores de risco: foco intra-abdominal, ginecológico/obstétrico profundo, infecção necrotizante de partes moles, cabeça/pescoço, abscessos/empiema de SNC
- Estudos observacionais sugerem aumento de mortalidade com cobertura anaeróbia empírica desnecessária
Monitorização microbiológica (#30)
- Evidência insuficiente para vigilância microbiológica do trato respiratório superior
- 36% do painel usa; 79% dos que usam coletam semanalmente
Testes diagnósticos rápidos para patógenos (#31)
- Recomendação condicional: Usar caso a caso baseado em características clínicas, padrões locais, sazonalidade, disponibilidade (baixa certeza)
- Benefício observado quando combinados com programas de stewardship
Biomarcadores fúngicos de Candida (#32, #38)
- Condicional CONTRA uso de biomarcadores de Candida para iniciar (#32) ou descontinuar (#38) antifúngicos empíricos (baixa certeza)
- Podem ser considerados em pacientes de alto risco
Monitorização terapêutica de antimicrobianos (TDM) (#34)
- Recomendação condicional: Usar TDM caso a caso em pacientes selecionados (muito baixa certeza)
- RR 0,92 (IC 95% 0,75-1,11) para mortalidade
5.6. De-escalonamento e Duração
De-escalonamento (#35-37)
- Boa prática (#35): Reavaliar continuamente e descontinuar se causa alternativa identificada
- RECOMENDAÇÃO FORTE (#36): De-escalonar quando diagnóstico microbiológico e perfil de susceptibilidade disponíveis (muito baixa certeza)
- Recomendação condicional (#37): De-escalonar quando nenhum patógeno identificado em culturas finais (muito baixa certeza)
- Meta-análise: de-escalonamento associado a possível redução de mortalidade (RR 0,77; IC 95% 0,64-0,92) e resistência antimicrobiana (RR 0,71; IC 95% 0,55-0,91)
Duração da antibioticoterapia (#39)
- Recomendação condicional: Duração mais curta sobre mais longa (com controle de foco adequado) (muito baixa certeza)
- Estudo BALANCE: 7 vs. 14 dias para infecção de corrente sanguínea — não-inferioridade de 7 dias
Procalcitonina para descontinuação (#40)
- Recomendação condicional: Usar procalcitonina E avaliação clínica para decidir descontinuação (baixa certeza)
- Estudo ADAPT-Sepsis: evidência adicional de que PCT pode reduzir duração seguramente
5.7. Controle de Foco (#23-24)
- Boa prática: Avaliar rapidamente diagnósticos anatômicos que requerem controle de foco
- Recomendação condicional: Controle de foco precoce (idealmente dentro de 6 horas) (muito baixa certeza)
- Meta-análise: RR 0,70 (IC 95% 0,51-0,95) para mortalidade a curto prazo
- Focos comuns: abscessos intra-abdominais, peritonite por perfuração GI, colangite, colecistite, abscessos pélvicos, pielonefrite obstrutiva, infecção necrotizante de partes moles, empiema, artrite séptica, infecções de dispositivos
5.8. Descontaminação Seletiva do Trato Digestivo (SDD) (#41) — NOVA
- Recomendação condicional: Usar SDD em ventilados mecanicamente em unidades com baixa prevalência de resistência antimicrobiana (moderada certeza)
- Consiste em: antimicrobianos tópicos não-absorvíveis (polimixina, tobramicina, anfotericina B) na orofaringe e TGI + antibiótico IV de amplo espectro de curta duração
- Meta-análise (32 ECRs, 24.389 pacientes): RR mortalidade 0,91 (IC 95% 0,82-0,99)
- Pode REDUZIR resistência antimicrobiana (RR 0,64; IC 95% 0,50-0,81)
- SuDDICU Trial: mortalidade semelhante (27,9% vs. 29,5%), menos infecções sanguíneas (4,9% vs. 6,9%), menos organismos resistentes (16,8% vs. 26,8%)
5.9. Monitorização e Ressuscitação Hemodinâmica
Monitorização de PA (#42)
- Recomendação condicional: Monitorização invasiva OU não-invasiva (muito baixa certeza)
- PA invasiva aconselhada se: vasopressores em doses intermediárias-altas, doses crescentes, múltiplos vasopressores, amostras arteriais frequentes, medidas não-invasivas inconsistentes
- Concordância PAM não-invasiva vs. invasiva: 73% (<10 mmHg diferença)
- EVERDAC (publicado após): não-inferioridade da estratégia não-invasiva
Tipo de fluido (#43-47)
| Fluido | Recomendação | Força | Certeza |
|---|---|---|---|
| Cristaloides (1ª linha) | A favor | FORTE | Moderada |
| Cristaloides balanceados vs. SF 0,9% | A favor de balanceados | Condicional | Moderada |
| Albumina vs. cristaloides | Cristaloides isolados | Condicional | Moderada |
| Amidos (starches) | CONTRA | FORTE | Alta |
| Gelatinas | Contra | Condicional | Moderada |
- Cristaloides balanceados provavelmente reduzem mortalidade (OR 0,94; IC 95% 0,85-1,04) e necessidade de TRS (OR 0,86; IC 95% 0,74-0,99, alta certeza)
- TCE: usar SF 0,9% (evidência de dano com soluções balanceadas e albumina)
- Cirrose: albumina + cristaloides pode ser preferida
- Albumina: sem efeito na mortalidade 28 dias (RR 1,01; IC 95% 0,90-1,14)
Estratégia liberal vs. restritiva (#48)
- Recomendação condicional: Qualquer estratégia, baseada em fatores individuais (baixa certeza)
- Após 30 mL/kg com hipoperfusão persistente: sem diferença em mortalidade (RR 1,00; IC 95% 0,91-1,10)
- Em cenários com recursos limitados: abordagem restritiva pode ser mais segura
Medidas dinâmicas (#49)
- Recomendação condicional: Usar medidas dinâmicas sobre exame físico ou medidas estáticas isoladas (baixa certeza)
- Medidas dinâmicas: resposta à elevação passiva de pernas ou bolus de fluido medida por SV, SVV, PP, PPV
- Aumento de 10-15% no parâmetro indica responsividade a fluidos
- Provável redução de mortalidade (RR 0,91; IC 95% 0,79-1,06), redução de TRS (RR 0,75; IC 95% 0,58-0,98)
- POCUS provavelmente reduz mortalidade 28 dias (RR 0,88; IC 95% 0,78-0,99)
Lactato seriado (#51)
- Recomendação condicional: Usar lactato seriado para guiar ressuscitação (baixa certeza)
- Clearance de lactato ≥10% a cada 2h associado a melhores desfechos
- Não continuar fluidos até normalização do lactato — individualizar
Tempo de enchimento capilar (TEC) (#52)
- Recomendação condicional: Usar TEC como adjunto (baixa certeza)
- Alvo: TEC ≤3 segundos
- ANDROMEDA-SHOCK: RR mortalidade 28 dias 0,82 (IC 95% 0,65-1,04)
- ANDROMEDA-SHOCK-2 (publicado após): protocolo guiado por TEC associado a melhores desfechos (win ratio 1,16; IC 95% 1,02-1,33)
5.10. Suporte Respiratório
Monitorização de hipoxemia (#65)
- Recomendação condicional: SpO2 ou gasometria arterial em conjunto com exame físico (muito baixa certeza)
- SpO2/FiO2 pode substituir PaO2/FiO2, mas menos precisa em: choque, pele mais escura, SpO2 <90% ou >97%
- Pacientes negros: quase 3x mais frequência de hipoxemia oculta não detectada por oximetria
- Nova definição global de ARDS permite SpO2/FiO2 <315 (se SpO2 <97%) para diagnóstico
Alvos de oxigênio (#66)
- Recomendação condicional: Titular FiO2 para alvos liberais mais altos ou conservadores mais baixos dependendo de fatores do paciente (baixa certeza)
- Maioria dos estudos: alvo conservador ~SpO2 90-93%; alvo liberal SpO2 ≥96%
- Meta-análise: RR 1,02 (IC 95% 0,99-1,05) com alvos conservadores — pouca ou nenhuma diferença
- "Em nossa prática": alvos entre SpO2 90% (IQR 90-92%) e 96% (IQR 94-98%)
- Razoável usar alvo na faixa inferior do liberal (SpO2 96-97%) ou intermediário (SpO2 94-95%)
Suporte respiratório não-invasivo (#67-69)
| Comparação | Recomendação | Certeza |
|---|---|---|
| CNAF vs. O2 convencional (P/F <200 ou S/F <235) | A favor de CNAF | Muito baixa |
| CNAF vs. VNI | A favor de CNAF | Baixa |
| CNAF vs. CNAF alternando com VNI | A favor de CNAF isolada | Muito baixa |
- CNAF: possível redução de mortalidade, intubação, duração de VM
- Maior conforto que VNI
Prona acordado (#70)
- Recomendação condicional: Oferecer tentativa de prona acordado em não-intubados (muito baixa certeza)
- Redução de intubação: RR 0,82 (IC 95% 0,73-0,93)
- Duração/frequência dependem da tolerância; não usar sedação para prona
- Estudados apenas em COVID-19
Ventilação mecânica invasiva (#71-77)
| Parâmetro | Recomendação | Força | Certeza |
|---|---|---|---|
| Volume corrente com ARDS | 6 mL/kg peso ideal | FORTE | Alta |
| VC sem ARDS | 6-8 mL/kg IBW | Condicional | Baixa |
| Pressão de platô | Limite superior 30 cmH2O | FORTE | Alta |
| PEEP (ARDS moderada-grave) | PEEP mais alta sobre mais baixa | Condicional | Moderada |
| Titulação incremental de PEEP | CONTRA | FORTE | Moderada |
| Prona (ARDS mod-grave) | >12h/dia | Condicional | Moderada |
| BNM (ARDS mod-grave) | Bolus intermitentes sobre infusão contínua | Condicional | Moderada |
- ARDS é subdiagnosticada em 48,7-52,4% dos pacientes
- Para pacientes sem ARDS: VC 6-8 mL/kg IBW (não usar VC baixo <6 mL/kg que pode causar mais delirium)
ECMO veno-venosa (#78)
- Recomendação condicional: Usar VV-ECMO quando VM convencional falha, em centros experientes (baixa certeza)
5.11. Terapias Adjuntivas para Sepse
Corticosteroides IV (#79)
- Recomendação condicional: Usar corticosteroides IV em choque séptico (baixa certeza)
- Meta-análise (45 ECRs, 9543 pacientes): RR mortalidade 28d 0,92 (IC 95% 0,83-1,01)
- Reversão de choque em 7 dias: RR 1,29 (IC 95% 1,13-1,46, alta certeza)
- Efeitos adversos: hiperglicemia (RR 1,19), hipernatremia (RR 1,64)
- Sem benefício em sepse SEM choque (RR 1,09; IC 95% 0,91-1,31)
- Dose: 200 mg de hidrocortisona/dia (sem benefício adicional acima de 260 mg/dia equivalente)
- "Em nossa prática": 88,4% usam; 90% prescrevem 200 mg hidrocortisona/24h; 86% em doses intermitentes
- Timing: 34% com NE <0,2 µg/kg/min; 38% com 0,2-0,3; 28% com >0,3
- Fludrocortisona: 63% nunca administram
- Descontinuação: 61% param sem desmame
Antipiréticos (#80) — NOVA
- Recomendação condicional CONTRA uso de antipirético para melhorar desfechos clínicos (muito baixa certeza)
- Meta-análise: RR mortalidade 1,02 (IC 95% 0,86-1,21)
- Não se aplica ao uso para controle de dor, conforto, ou indicações neuro/pós-PCR
Vitamina C IV (#81)
- Recomendação condicional CONTRA (baixa certeza)
- 55 ECRs avaliados; em estudos de baixo risco de viés: sem efeito na mortalidade 90 dias (RR 1,06; IC 95% 0,95-1,18)
- Pode causar hiperglicemia factícia
Imunoglobulina IV (#82)
- Recomendação condicional CONTRA (baixa certeza)
Purificação sanguínea (#83-84)
- Condicional CONTRA hemoperfusão, hemofiltração de alta dose, plasmaférese (muito baixa certeza)
- Condicional CONTRA hemoperfusão com polimixina B (baixa certeza)
- Sinal de benefício em mortalidade a curto prazo, mas sem benefício a longo prazo
Vitamina D (#85) — NOVA
- Recomendação condicional CONTRA para tratamento de sepse (muito baixa certeza)
- VIOLET: subgrupo sepse com aumento de risco de mortalidade com dose alta (540.000 UI) de vitamina D (aumento absoluto 12,4%)
XueBiJing IV (#86) — NOVA
- Recomendação condicional CONTRA uso fora de jurisdições com aprovação regulatória (muito baixa certeza)
- Produto herbal chinês licenciado na China em 2004
- Possível redução de mortalidade (RR 0,68), mas preocupações significativas com viés e aplicabilidade
5.12. Terapias de Suporte Adicional
Profilaxia de úlcera de estresse (#87)
- Recomendação condicional: Usar IBP em pacientes com fatores de risco para sangramento GI (moderada certeza)
- IBP reduz sangramento GI clinicamente importante (RR 0,48; IC 95% 0,30-0,78)
- Fatores de risco principais: LRA, sexo masculino, coagulopatia, choque, insuficiência hepática crônica
- Na ausência de IBP: antagonistas H2 são alternativa razoável
Probióticos (#88) — NOVA
- Recomendação condicional CONTRA (muito baixa certeza)
- Sem impacto em mortalidade em estudos de baixo risco de viés (incluindo PROSPECT)
Remoção ativa de fluidos (#89) — NOVA
- Recomendação condicional: Usar remoção ativa de fluidos após fase aguda de ressuscitação (muito baixa certeza)
- Diuréticos e, se insuficientes, ultrafiltração
- Meta-análise: RR mortalidade 0,92 (IC 95% 0,81-1,04)
- Diuréticos isolados podem ter efeito mais favorável que diuréticos + TRS
Transfusão (#90)
- RECOMENDAÇÃO FORTE: Estratégia transfusional restritiva sobre liberal (moderada certeza)
Nutrição enteral (#91)
- Recomendação condicional: Início precoce (dentro de 72h) (muito baixa certeza)
Insulinoterapia (#92)
- RECOMENDAÇÃO FORTE: Iniciar insulina com glicemia ≥180 mg/dL (10 mmol/L) (moderada certeza)
Terapia renal substitutiva (#93-94)
- Sem indicação definitiva de TRS: condicional CONTRA uso de TRS (moderada certeza)
- Quando TRS necessária: condicional para TRS contínua OU intermitente (baixa certeza)
Bicarbonato de sódio (#95-96)
- Condicional CONTRA para melhorar hemodinâmica ou reduzir vasopressores em acidose láctica (baixa certeza)
- Condicional A FAVOR se acidose metabólica grave (pH ≤7,2) E LRA (AKIN escore 2 ou 3) (muito baixa certeza)
Profilaxia de TEV (#97-99)
- RECOMENDAÇÃO FORTE: Usar profilaxia farmacológica de TEV (moderada certeza)
- RECOMENDAÇÃO FORTE: HBPM sobre heparina não-fracionada (moderada certeza)
- Recomendação condicional: Profilaxia farmacológica ISOLADA sobre farmacológica + mecânica (moderada certeza)
5.13. Admissão na UTI (#15)
- Recomendação condicional: Admitir na UTI dentro de 6 horas (baixa certeza)
6. POPULAÇÕES ESPECIAIS
Idosos (≥65 anos)
- PAM alvo: 60-65 mmHg (vs. 65 mmHg para adultos em geral)
- Maior mortalidade com alvos mais altos de PAM
- Estudo 65 Trial: menos exposição a vasopressores com alvo permissivo
Obesos (IMC >30)
- Ressuscitação volêmica: calcular 30 mL/kg por peso ajustado ou ideal
- Peso ajustado = peso ideal + 0,4 × (peso real – peso ideal)
Traumatismo cranioencefálico (TCE)
- Usar SF 0,9% (evidência de dano com cristaloides balanceados e albumina)
Cirrose
- Considerar albumina em adição a cristaloides
Cenários de recursos limitados (LMIC)
- Riscos de sobrecarga hídrica mais pronunciados (acesso limitado a suporte respiratório)
- Em ausência de norepinefrina: epinefrina como alternativa aceitável
- Em ausência de medida de lactato: TEC e débito urinário como guias
- Em ausência de CNAF: VNI como alternativa razoável
- SDD: implementar baseado em cada UTI, considerando prevalência de resistência
- Administração periférica de vasopressores: usar com cautela se monitorização limitada
Pacientes sem ARDS em ventilação mecânica
- VC 6-8 mL/kg IBW (não usar VC muito baixo <6 mL/kg)
- Triagem regular para ARDS (subdiagnosticada em ~50% dos casos)
Imunossuprimidos
- Considerar antifúngicos empíricos caso a caso
- Considerar biomarcadores fúngicos (1,3-β-d-glucano)




