2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA
Epidemiologia
- Incidência anual nos EUA: 180/100.000 pessoas
- Hospitalizações anuais: ~200.000
- Custo anual em saúde: > US$ 6,3 bilhões
- Prevalência de diverticulose em adultos: ~2,3%
- Aumento com idade: <20% aos 40 anos → 60% aos 60 anos → >63% entre 70-79 anos
- 1% a 4% dos pacientes com diverticulose desenvolverão diverticulite aguda na vida
- 85% dos episódios são não complicados
- 15-30% dos pacientes apresentam recorrência
Por que esta revisão é relevante
- Mudança de paradigma: antibioticoterapia NÃO é mais obrigatória na diverticulite aguda não complicada em pacientes imunocompetentes
- Aumento desproporcional de diverticulite em pacientes <50 anos (18,5% em 2005 → 28,2% em 2020)
- Suporte de novos ensaios randomizados (DINAMO 2021, AVOD 2013, DIABOLO 2018, Cochrane 2022)
3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES
Definições básicas
- Diverticulose: presença de múltiplas evaginações (divertículos) saindo do lúmen intestinal
- Diverticulite: inflamação desses divertículos
- Divertículo falso (cólon): envolve apenas mucosa e muscular da mucosa
- Divertículo verdadeiro: envolve todas as 4 camadas (mucosa, submucosa, muscular, serosa)
- Cólon sigmoide: local mais frequente (menor diâmetro → maior pressão pela Lei de Laplace)
Distribuição anatômica
- 65% — divertículos restritos ao cólon sigmoide
- 25% — sigmoide + outras localizações
- 4% — exclusivamente proximais ao sigmoide
- Ásia: predominantemente do lado direito (22,3% em adultos >60 anos)
Diverticulite NÃO COMPLICADA vs COMPLICADA
| Característica | Não Complicada | Complicada |
|---|---|---|
| Frequência | 85% | 15% |
| Definição | Inflamação localizada sem manifestações extracolônicas | Presença de abscesso, perfuração, fístula ou obstrução intestinal |
Classificação de Hinchey Modificada (5 estágios)
| Estágio | Achado |
|---|---|
| 0 | Inflamação localizada no cólon (não complicada) |
| I | Abscesso pericólico localizado |
| II | Abscessos maiores ou distantes (contidos intraperitoneais) |
| III | Peritonite purulenta |
| IV | Peritonite fecal |
Tipos de perfuração
- Perfuração contida: bloqueada por omento e intestinos, sequestrada do restante da cavidade
- Perfuração livre: fluxo livre de conteúdo colônico (fezes) para a cavidade peritoneal
Tipos de fístulas (em ordem de frequência)
- Colovesical: 65%
- Colovaginal: 25%
- Colocutânea/multiórgão complexa: 10%
- Coloentérica: 7%
- Colouterina: 3%
4. DIAGNÓSTICO
Apresentação clínica
- 70% apresentam dor de início gradual em quadrante inferior esquerdo (QIE)
- Náuseas e vômitos em ~30%
- Febre (>38°C / 100,4°F) em ~33%
- Taquicardia em ~27%
- Leucocitose em ~55% dos pacientes febris
- Massa palpável no QIE em ~20% dos casos complicados
- Sinais de choque (taquicardia, hipotensão, extremidades frias) → emergência cirúrgica
Atenção: dor em quadrante inferior direito pode ocorrer em diverticulite do cólon direito ou sigmoide redundante.
Exames laboratoriais
- Hemograma completo com diferencial
- Hemoculturas (se febre/sepse)
Exames de imagem
TC de abdome e pelve com contraste IV (ouro)
- Sensibilidade: 98-99%
- Especificidade: 99-100%
- Achados não complicada: inflamação da gordura pericólica, múltiplos divertículos, espessamento da parede colônica
- Achados complicada: abscesso peridiverticular, obstrução colônica, perfuração, fístula, líquido extraluminal, ar livre
Ultrassonografia abdominal
- Sensibilidade: 77-98%
- Especificidade: 80-99% (88-92% conforme tabela)
- POCUS (point-of-care): sensibilidade 92,7% / especificidade 90,9%
- Útil para excluir causas alternativas (cistos ovarianos, torção, abscessos tubo-ovarianos)
Ressonância magnética
- Sensibilidade: 86-94%
- Especificidade: 88-92%
- Indicada na gestação (evita radiação)
- Útil para caracterizar fístulas
Exames CONTRAINDICADOS no diagnóstico agudo
- Enema baritado/contrastado: risco de perfuração colônica
- Colonoscopia na fase aguda: aumenta risco de perfuração
Colonoscopia pós-diverticulite
- Indicação: 6 a 8 semanas após resolução dos sintomas
- Recomendada após: diverticulite complicada tratada não cirurgicamente (excluir câncer de cólon perfurado)
- Não rotineira após diverticulite não complicada — apenas se devido ao rastreamento de CCR
Diagnóstico diferencial
- Constipação não complicada
- Síndrome do intestino irritável
- Doença inflamatória intestinal (RCU, Crohn)
- Apendicite
- Câncer colorretal
- Cálculos renais
- ITU
- Obstrução intestinal
- DIP, torção tubo-ovariana, abscesso
5. TRATAMENTO
5.1. DIVERTICULITE NÃO COMPLICADA
Tratamento padrão: OBSERVAÇÃO + CONTROLE DA DOR (sem antibióticos) em imunocompetentes estáveis
Evidência principal (Cochrane 2022 + 3 ECRs principais):
- AVOD (Suécia, 2013), DIABOLO (Holanda, 2018) e DINAMO (Espanha, 2021): antibióticos NÃO são superiores ao manejo conservador
- DIABOLO: tempo até recuperação 12 vs 14 dias (p=0,30); recorrência em 2 anos 15,4% vs 14,6% (p=0,81); complicações 6,5% vs 5,8%
- DINAMO: hospitalização 5,8% (antibiótico) vs 3,3% (sintomático) — não inferioridade
INDICAÇÕES DE ANTIBIÓTICO mesmo na não complicada:
- Pacientes com sintomas sistêmicos persistentes (febre, calafrios)
- Leucocitose crescente
- Sinais de sepse/choque séptico
- >80 anos
- Gestantes
- Imunossuprimidos (quimioterapia, corticosteroides em alta dose, transplantados)
- Comorbidades crônicas:
- Cirrose hepática
- Doença renal crônica
- Insuficiência cardíaca
- Diabetes mal controlado
- Dor abdominal piorando, defesa, rebote
- Febre persistente >38,5°C (101,3°F)
Antibióticos ORAIS (4-7 dias)
| Esquema | Dose | Eficácia |
|---|---|---|
| Amoxicilina-clavulanato | 875mg/125mg 2x/dia | 86-89% |
| Cefalexina + metronidazol | 1g 3x/dia + 500mg 3x/dia | 75-100% |
| Ciprofloxacino + metronidazol | 500mg 2x/dia + 500mg 3x/dia | 74-94% |
| Sulfametoxazol-trimetoprima + metronidazol | 160/800mg 2x/dia + 500mg 3x/dia | Dados limitados |
Antibióticos INTRAVENOSOS (para hospitalizados; 7-14 dias)
| Esquema | Dose | Indicação | Eficácia |
|---|---|---|---|
| Ceftriaxona + metronidazol | 1-2g/dia + 500mg 8/8h | Complicada (estável) | 75-100% |
| Imipenem-cilastatina | 500mg 6/6h | Complicada (instável) | 81% |
| Meropenem | 1g 8/8h | Complicada (instável) | 70-96% |
| Piperacilina-tazobactam | 3,375-4,5g 6/6h | Complicada (instável) | 86-89% |
| Ampicilina-sulbactam | — | Alternativa hospitalar | — |
Dieta
- Líquidos claros nos primeiros 1-2 dias
- Avançar conforme melhora sintomática
- Sem alta evidência para restrições dietéticas específicas
Controle da DOR
- 1ª linha: acetaminofeno (paracetamol) — dor leve a moderada
- EVITAR AINEs (risco de sangramento diverticular)
- Opioides orais (3-5 dias) para dor moderada-grave
- Hospitalizados: opioides VO ou IV (morfina, hidromorfona)
- Associar amolecedores de fezes (docusato) ou agentes de volume (psyllium, metilcelulose) se uso de opioide
Acompanhamento
- Reavaliação em 7 dias
- TC repetida: se piora, nova febre, persistência após 3-5 dias de tratamento
- Sintomas melhoram em 48-72h, resolução completa em 1-2 semanas
- Tratamento ambulatorial eficaz em 95% dos casos não complicados
5.2. DIVERTICULITE RECORRENTE
- Recorrência: 13-23% (não complicada); até 40% (complicada)
- Ensaio DIRECT (2017): ressecção sigmoidea laparoscópica eletiva → melhor qualidade de vida (GIQLI 114,4 vs 100,4 com manejo conservador; p<0,001)
- Indicações de colectomia eletiva:
- Diverticulite recorrente dentro de 6-12 meses
- Fístula, estenose ou abscesso peridiverticular após resolução
-
3 episódios em 2 anos ou dor persistente >3 meses
5.3. DIVERTICULITE COMPLICADA
Abscesso (15-20% das complicadas)
- Drenagem percutânea + antibióticos IV = padrão (cura ~80%)
- Antibióticos IV isolados: opção se drenagem inviável
- Falha terapêutica com antibiótico isolado em abscessos >4 cm: 25-28%
- Esquemas: piperacilina-tazobactam OU ciprofloxacino + metronidazol
- Falha = ausência de melhora em 48h → cirurgia urgente
- Colectomia eletiva considerada 4-6 semanas após sucesso do manejo conservador
- ~4% precisam de estoma após ressecção eletiva
Perfuração / Peritonite
- Peritonite purulenta ou fecal (Hinchey III/IV) → laparotomia de emergência
- Ensaio LADIES/DIVA (2019): anastomose primária ± ileostomia desviante superior ao procedimento de Hartmann
- Sobrevida livre de estoma em 12 meses: 94,6% vs 71,7% (HR 2,79; p<0,001)
Procedimentos cirúrgicos
- Hartmann: ressecção + colostomia terminal + fechamento do reto
- Anastomose primária: reconexão do cólon ao reto
- Ileostomia desviante: desvia fezes da anastomose para reduzir complicações sépticas
Estenose / Obstrução
- Stent colônico NÃO recomendado rotineiramente em estenose benigna (risco de dor, sangramento, perfuração, migração)
- Indicação: ressecção cirúrgica
Fístula
- Indicação de ressecção colônica eletiva
5.4. MORTALIDADE PÓS-OPERATÓRIA
| Tipo | Mortalidade |
|---|---|
| Colectomia eletiva | 0,5% (IC 0,46-0,54%) |
| Colectomia de emergência | 10,6% (IC 7,95-14,11%) |
5.5. ALGORITMO RESUMIDO
- Suspeita clínica (dor QIE, náusea, vômito, febre, leucocitose)
- TC com contraste IV → confirma diagnóstico e classifica complicada vs não complicada
- Não complicada:
- Sintomas leves + tolerância oral → ambulatório, dieta líquida, ± antibiótico oral
- Sintomas moderados-graves / não tolera VO / sinais de alarme → hospitalização, antibiótico IV, dieta líquida
- Complicada:
- Abscesso → antibiótico IV + drenagem percutânea + colonoscopia 6-8 semanas após
- Perfuração livre / peritonite → cirurgia emergente
- Fístula / estenose → cirurgia eletiva
- Pós-tratamento:
- Recorrência <6-12 meses → considerar ressecção eletiva
- Colonoscopia se devido a rastreio CCR ou após complicada não operada
6. POPULAÇÕES ESPECIAIS
6.1. Pacientes JOVENS (<50 anos)
- Mais frequentemente homens (59,7% vs 40,7%)
- Maior prevalência de obesidade (20,8% vs 11,7%)
- Maior taxa de diverticulite complicada (24,9% vs 14,3%)
- Maior recorrência e necessidade cirúrgica
- Cirurgia precoce deve ser considerada em complicada ou recorrente
6.2. Pacientes IDOSOS (>80 anos)
- Apresentação atípica: menos febre (21,4% vs 35,2%), menos dor abdominal (47,8% vs 65,6%), menos leucocitose
- Antibióticos sempre indicados (não há ECRs incluindo >80 anos sem antibiótico)
- Manejo médico inicial → menor recorrência (HR 0,47) e menos cirurgia (HR 0,64)
- Mortalidade pós-operatória:
- <65 anos: 1,6%
- 65-79 anos: 9,7%
- ≥80 anos: 17,8%
6.3. Gestantes
- RM é exame preferencial (evita radiação)
- Antibióticos sempre indicados
- Hospitalização recomendada
6.4. Imunocomprometidos
(quimioterapia, corticoides em alta dose, transplantados, leucemia/linfoma)
- Sepse grave: 24,3% vs 10% em imunocompetentes
- Não complicada com antibiótico: sucesso ~95% (semelhante a imunocompetentes)
- Complicada: maior necessidade cirúrgica, complicações pós-operatórias (30% vs 7%), mortalidade (10-19% vs 1%)
- Antibióticos SEMPRE indicados
6.5. Comorbidades crônicas (cirrose, DRC, IC, DM mal controlado)
- Antibióticos sempre indicados, mesmo na não complicada




