Gastroenterologia2026

Diverticulite: Revisão JAMA 2025 — Documento de Referência Completo 2026: o que mudou na diretriz

Publicado em JAMA · 10.1001/jama.2025.10234

Cai na prova 2026
  • Incidência anual nos EUA: 180/100.000 pessoas

  • Hospitalizações anuais: ~200.000

  • Custo anual em saúde: > US$ 6,3 bilhões

  • Prevalência de diverticulose em adultos: ~2,3%

  • Aumento com idade: <20% aos 40 anos → 60% aos 60 anos → >63% entre 70-79 anos

  • 1% a 4% dos pacientes com diverticulose desenvolverão diverticulite aguda na vida

  • 85% dos episódios são não complicados

  • 15-30% dos pacientes apresentam recorrência

  • Mudança de paradigma: antibioticoterapia NÃO é mais obrigatória na diverticulite aguda não complicada em pacientes imunocompetentes

  • Aumento desproporcional de diverticulite em pacientes <50 anos (18,5% em 2005 → 28,2% em 2020)

  • Suporte de novos ensaios randomizados (DINAMO 2021, AVOD 2013, DIABOLO 2018, Cochrane 2022)

O que mudou

12 mudanças que você precisa saber

  • Antes

    Sempre obrigatórios

    Agora

    NÃO obrigatórios em imunocompetentes estáveis; observação + controle da dor é 1ª linha

  • Antes

    Variável

    Agora

    Acetaminofeno preferencial; EVITAR AINEs (risco de sangramento)

  • Antes

    Procedimento de Hartmann padrão

    Agora

    Anastomose primária ± ileostomia desviante superior ao Hartmann (LADIES/DIVA)

  • Antes

    Após 2-3 episódios obrigatoriamente

    Agora

    Individualizada; considerar QV (DIRECT trial)

  • Antes

    Proibidos

    Agora

    Sem evidência de associação com diverticulite

  • Antes

    Recomendada fortemente

    Agora

    Evidência incerta

  • Antes

    Sem evidência

    Agora

    Reduz risco de diverticulite (HR 0,75)

  • Antes

    Variável

    Agora

    Padrão para abscessos quando viável; reduz recorrência

  • Antes

    Sempre recomendada

    Agora

    Não obrigatória; apenas se devido a rastreio CCR

  • Antes

    Variável

    Agora

    Recomendada 6-8 semanas após (excluir CCR perfurado)

  • Antes

    Considerado

    Agora

    NÃO recomendado rotineiramente

  • Antes

    Conduta agressiva

    Agora

    Cirurgia precoce em complicada/recorrente

Resumo técnico

A diretriz na íntegra

2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA

Epidemiologia

  • Incidência anual nos EUA: 180/100.000 pessoas
  • Hospitalizações anuais: ~200.000
  • Custo anual em saúde: > US$ 6,3 bilhões
  • Prevalência de diverticulose em adultos: ~2,3%
  • Aumento com idade: <20% aos 40 anos → 60% aos 60 anos → >63% entre 70-79 anos
  • 1% a 4% dos pacientes com diverticulose desenvolverão diverticulite aguda na vida
  • 85% dos episódios são não complicados
  • 15-30% dos pacientes apresentam recorrência

Por que esta revisão é relevante

  • Mudança de paradigma: antibioticoterapia NÃO é mais obrigatória na diverticulite aguda não complicada em pacientes imunocompetentes
  • Aumento desproporcional de diverticulite em pacientes <50 anos (18,5% em 2005 → 28,2% em 2020)
  • Suporte de novos ensaios randomizados (DINAMO 2021, AVOD 2013, DIABOLO 2018, Cochrane 2022)

3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES

Definições básicas

  • Diverticulose: presença de múltiplas evaginações (divertículos) saindo do lúmen intestinal
  • Diverticulite: inflamação desses divertículos
  • Divertículo falso (cólon): envolve apenas mucosa e muscular da mucosa
  • Divertículo verdadeiro: envolve todas as 4 camadas (mucosa, submucosa, muscular, serosa)
  • Cólon sigmoide: local mais frequente (menor diâmetro → maior pressão pela Lei de Laplace)

Distribuição anatômica

  • 65% — divertículos restritos ao cólon sigmoide
  • 25% — sigmoide + outras localizações
  • 4% — exclusivamente proximais ao sigmoide
  • Ásia: predominantemente do lado direito (22,3% em adultos >60 anos)

Diverticulite NÃO COMPLICADA vs COMPLICADA

CaracterísticaNão ComplicadaComplicada
Frequência85%15%
DefiniçãoInflamação localizada sem manifestações extracolônicasPresença de abscesso, perfuração, fístula ou obstrução intestinal

Classificação de Hinchey Modificada (5 estágios)

EstágioAchado
0Inflamação localizada no cólon (não complicada)
IAbscesso pericólico localizado
IIAbscessos maiores ou distantes (contidos intraperitoneais)
IIIPeritonite purulenta
IVPeritonite fecal

Tipos de perfuração

  • Perfuração contida: bloqueada por omento e intestinos, sequestrada do restante da cavidade
  • Perfuração livre: fluxo livre de conteúdo colônico (fezes) para a cavidade peritoneal

Tipos de fístulas (em ordem de frequência)

  • Colovesical: 65%
  • Colovaginal: 25%
  • Colocutânea/multiórgão complexa: 10%
  • Coloentérica: 7%
  • Colouterina: 3%

4. DIAGNÓSTICO

Apresentação clínica

  • 70% apresentam dor de início gradual em quadrante inferior esquerdo (QIE)
  • Náuseas e vômitos em ~30%
  • Febre (>38°C / 100,4°F) em ~33%
  • Taquicardia em ~27%
  • Leucocitose em ~55% dos pacientes febris
  • Massa palpável no QIE em ~20% dos casos complicados
  • Sinais de choque (taquicardia, hipotensão, extremidades frias) → emergência cirúrgica

Atenção: dor em quadrante inferior direito pode ocorrer em diverticulite do cólon direito ou sigmoide redundante.

Exames laboratoriais

  • Hemograma completo com diferencial
  • Hemoculturas (se febre/sepse)

Exames de imagem

TC de abdome e pelve com contraste IV (ouro)

  • Sensibilidade: 98-99%
  • Especificidade: 99-100%
  • Achados não complicada: inflamação da gordura pericólica, múltiplos divertículos, espessamento da parede colônica
  • Achados complicada: abscesso peridiverticular, obstrução colônica, perfuração, fístula, líquido extraluminal, ar livre

Ultrassonografia abdominal

  • Sensibilidade: 77-98%
  • Especificidade: 80-99% (88-92% conforme tabela)
  • POCUS (point-of-care): sensibilidade 92,7% / especificidade 90,9%
  • Útil para excluir causas alternativas (cistos ovarianos, torção, abscessos tubo-ovarianos)

Ressonância magnética

  • Sensibilidade: 86-94%
  • Especificidade: 88-92%
  • Indicada na gestação (evita radiação)
  • Útil para caracterizar fístulas

Exames CONTRAINDICADOS no diagnóstico agudo

  • Enema baritado/contrastado: risco de perfuração colônica
  • Colonoscopia na fase aguda: aumenta risco de perfuração

Colonoscopia pós-diverticulite

  • Indicação: 6 a 8 semanas após resolução dos sintomas
  • Recomendada após: diverticulite complicada tratada não cirurgicamente (excluir câncer de cólon perfurado)
  • Não rotineira após diverticulite não complicada — apenas se devido ao rastreamento de CCR

Diagnóstico diferencial

  • Constipação não complicada
  • Síndrome do intestino irritável
  • Doença inflamatória intestinal (RCU, Crohn)
  • Apendicite
  • Câncer colorretal
  • Cálculos renais
  • ITU
  • Obstrução intestinal
  • DIP, torção tubo-ovariana, abscesso

5. TRATAMENTO

5.1. DIVERTICULITE NÃO COMPLICADA

Tratamento padrão: OBSERVAÇÃO + CONTROLE DA DOR (sem antibióticos) em imunocompetentes estáveis

Evidência principal (Cochrane 2022 + 3 ECRs principais):

  • AVOD (Suécia, 2013), DIABOLO (Holanda, 2018) e DINAMO (Espanha, 2021): antibióticos NÃO são superiores ao manejo conservador
  • DIABOLO: tempo até recuperação 12 vs 14 dias (p=0,30); recorrência em 2 anos 15,4% vs 14,6% (p=0,81); complicações 6,5% vs 5,8%
  • DINAMO: hospitalização 5,8% (antibiótico) vs 3,3% (sintomático) — não inferioridade

INDICAÇÕES DE ANTIBIÓTICO mesmo na não complicada:

  1. Pacientes com sintomas sistêmicos persistentes (febre, calafrios)
  2. Leucocitose crescente
  3. Sinais de sepse/choque séptico
  4. >80 anos
  5. Gestantes
  6. Imunossuprimidos (quimioterapia, corticosteroides em alta dose, transplantados)
  7. Comorbidades crônicas:
    • Cirrose hepática
    • Doença renal crônica
    • Insuficiência cardíaca
    • Diabetes mal controlado
  8. Dor abdominal piorando, defesa, rebote
  9. Febre persistente >38,5°C (101,3°F)

Antibióticos ORAIS (4-7 dias)

EsquemaDoseEficácia
Amoxicilina-clavulanato875mg/125mg 2x/dia86-89%
Cefalexina + metronidazol1g 3x/dia + 500mg 3x/dia75-100%
Ciprofloxacino + metronidazol500mg 2x/dia + 500mg 3x/dia74-94%
Sulfametoxazol-trimetoprima + metronidazol160/800mg 2x/dia + 500mg 3x/diaDados limitados

Antibióticos INTRAVENOSOS (para hospitalizados; 7-14 dias)

EsquemaDoseIndicaçãoEficácia
Ceftriaxona + metronidazol1-2g/dia + 500mg 8/8hComplicada (estável)75-100%
Imipenem-cilastatina500mg 6/6hComplicada (instável)81%
Meropenem1g 8/8hComplicada (instável)70-96%
Piperacilina-tazobactam3,375-4,5g 6/6hComplicada (instável)86-89%
Ampicilina-sulbactamAlternativa hospitalar

Dieta

  • Líquidos claros nos primeiros 1-2 dias
  • Avançar conforme melhora sintomática
  • Sem alta evidência para restrições dietéticas específicas

Controle da DOR

  • 1ª linha: acetaminofeno (paracetamol) — dor leve a moderada
  • EVITAR AINEs (risco de sangramento diverticular)
  • Opioides orais (3-5 dias) para dor moderada-grave
  • Hospitalizados: opioides VO ou IV (morfina, hidromorfona)
  • Associar amolecedores de fezes (docusato) ou agentes de volume (psyllium, metilcelulose) se uso de opioide

Acompanhamento

  • Reavaliação em 7 dias
  • TC repetida: se piora, nova febre, persistência após 3-5 dias de tratamento
  • Sintomas melhoram em 48-72h, resolução completa em 1-2 semanas
  • Tratamento ambulatorial eficaz em 95% dos casos não complicados

5.2. DIVERTICULITE RECORRENTE

  • Recorrência: 13-23% (não complicada); até 40% (complicada)
  • Ensaio DIRECT (2017): ressecção sigmoidea laparoscópica eletiva → melhor qualidade de vida (GIQLI 114,4 vs 100,4 com manejo conservador; p<0,001)
  • Indicações de colectomia eletiva:
    • Diverticulite recorrente dentro de 6-12 meses
    • Fístula, estenose ou abscesso peridiverticular após resolução
    • 3 episódios em 2 anos ou dor persistente >3 meses

5.3. DIVERTICULITE COMPLICADA

Abscesso (15-20% das complicadas)

  • Drenagem percutânea + antibióticos IV = padrão (cura ~80%)
  • Antibióticos IV isolados: opção se drenagem inviável
  • Falha terapêutica com antibiótico isolado em abscessos >4 cm: 25-28%
  • Esquemas: piperacilina-tazobactam OU ciprofloxacino + metronidazol
  • Falha = ausência de melhora em 48h → cirurgia urgente
  • Colectomia eletiva considerada 4-6 semanas após sucesso do manejo conservador
  • ~4% precisam de estoma após ressecção eletiva

Perfuração / Peritonite

  • Peritonite purulenta ou fecal (Hinchey III/IV)laparotomia de emergência
  • Ensaio LADIES/DIVA (2019): anastomose primária ± ileostomia desviante superior ao procedimento de Hartmann
    • Sobrevida livre de estoma em 12 meses: 94,6% vs 71,7% (HR 2,79; p<0,001)

Procedimentos cirúrgicos

  • Hartmann: ressecção + colostomia terminal + fechamento do reto
  • Anastomose primária: reconexão do cólon ao reto
  • Ileostomia desviante: desvia fezes da anastomose para reduzir complicações sépticas

Estenose / Obstrução

  • Stent colônico NÃO recomendado rotineiramente em estenose benigna (risco de dor, sangramento, perfuração, migração)
  • Indicação: ressecção cirúrgica

Fístula

  • Indicação de ressecção colônica eletiva

5.4. MORTALIDADE PÓS-OPERATÓRIA

TipoMortalidade
Colectomia eletiva0,5% (IC 0,46-0,54%)
Colectomia de emergência10,6% (IC 7,95-14,11%)

5.5. ALGORITMO RESUMIDO

  1. Suspeita clínica (dor QIE, náusea, vômito, febre, leucocitose)
  2. TC com contraste IV → confirma diagnóstico e classifica complicada vs não complicada
  3. Não complicada:
    • Sintomas leves + tolerância oral → ambulatório, dieta líquida, ± antibiótico oral
    • Sintomas moderados-graves / não tolera VO / sinais de alarme → hospitalização, antibiótico IV, dieta líquida
  4. Complicada:
    • Abscesso → antibiótico IV + drenagem percutânea + colonoscopia 6-8 semanas após
    • Perfuração livre / peritonite → cirurgia emergente
    • Fístula / estenose → cirurgia eletiva
  5. Pós-tratamento:
    • Recorrência <6-12 meses → considerar ressecção eletiva
    • Colonoscopia se devido a rastreio CCR ou após complicada não operada

6. POPULAÇÕES ESPECIAIS

6.1. Pacientes JOVENS (<50 anos)

  • Mais frequentemente homens (59,7% vs 40,7%)
  • Maior prevalência de obesidade (20,8% vs 11,7%)
  • Maior taxa de diverticulite complicada (24,9% vs 14,3%)
  • Maior recorrência e necessidade cirúrgica
  • Cirurgia precoce deve ser considerada em complicada ou recorrente

6.2. Pacientes IDOSOS (>80 anos)

  • Apresentação atípica: menos febre (21,4% vs 35,2%), menos dor abdominal (47,8% vs 65,6%), menos leucocitose
  • Antibióticos sempre indicados (não há ECRs incluindo >80 anos sem antibiótico)
  • Manejo médico inicial → menor recorrência (HR 0,47) e menos cirurgia (HR 0,64)
  • Mortalidade pós-operatória:
    • <65 anos: 1,6%
    • 65-79 anos: 9,7%
    • ≥80 anos: 17,8%

6.3. Gestantes

  • RM é exame preferencial (evita radiação)
  • Antibióticos sempre indicados
  • Hospitalização recomendada

6.4. Imunocomprometidos

(quimioterapia, corticoides em alta dose, transplantados, leucemia/linfoma)

  • Sepse grave: 24,3% vs 10% em imunocompetentes
  • Não complicada com antibiótico: sucesso ~95% (semelhante a imunocompetentes)
  • Complicada: maior necessidade cirúrgica, complicações pós-operatórias (30% vs 7%), mortalidade (10-19% vs 1%)
  • Antibióticos SEMPRE indicados

6.5. Comorbidades crônicas (cirrose, DRC, IC, DM mal controlado)

  • Antibióticos sempre indicados, mesmo na não complicada

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Outros pontos relevantes

  • 01

    Diverticulite não complicada em imunocompetente estável → NÃO precisa de antibiótico (mudança de paradigma)

  • 02

    Acetaminofeno > AINEs (AINEs aumentam sangramento diverticular)

  • 03

    TC com contraste IV é o exame de escolha (sens 98-99%, esp 99-100%)

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