2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA
Por que esta diretriz foi publicada
- A anemia permanece como grave e persistente problema de saúde pública, afetando principalmente mulheres em idade reprodutiva, gestantes, crianças e adolescentes.
- A deficiência de ferro é a principal causa de anemia em lactentes e associa-se a prejuízos no crescimento e neurodesenvolvimento (mielinização, síntese de neurotransmissores, metabolismo energético neuronal), com efeitos que podem persistir mesmo após correção dos parâmetros hematológicos.
- No Brasil, a prevalência de anemia em crianças de 6 a 24 meses estima-se entre 19% e 35%, configurando importante problema de saúde pública.
- A OMS atualizou em 2024 os pontos de corte de hemoglobina para definição de anemia.
- O PNSF (Programa Nacional de Suplementação de Ferro) foi atualizado em 2022 pelo Ministério da Saúde com novo esquema posológico.
O que mudou em relação à versão anterior (Consenso SBP 2018/atualização 2021)
A principal mudança refere-se ao esquema de suplementação profilática de ferro para lactentes a termo saudáveis:
| Aspecto | Consenso SBP 2018/2021 | Atualização 2026 (baseada no PNSF 2022/OMS) |
|---|---|---|
| Dose profilática (a termo, peso adequado) | 1 mg/kg/dia de ferro elementar | 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa, independente do peso) |
| Início | 6 meses (podendo antecipar conforme risco) | 6 meses de vida |
| Duração | Contínua dos 6 aos 24 meses | Dois ciclos de 3 meses de uso diário, intercalados por pausa de 3 meses (preferencialmente aos 6 e 12 meses) |
| Esquema | Uso diário contínuo | Ciclo 1: 6–9 meses → Pausa: 9–12 meses → Ciclo 2: 12–15 meses → Pausa: 15–24 meses |
Também houve atualização dos pontos de corte de hemoglobina para definição de anemia (OMS 2024) e dos pontos de corte de ferritina sérica (OMS 2020), com diferenciação por faixa etária e presença/ausência de inflamação.
3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES
3.1 Estágios evolutivos da deficiência de ferro
A deficiência de ferro é um processo progressivo dividido em três estágios:
| Estágio | Descrição | Morfologia hemácia (VCM, HCM, RDW) | Ferritina | Ferro sérico | TIBC | IST |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. Depleção dos estoques | Redução das reservas de ferro | Normal | Diminuída | Normal | Normal | Normal |
| 2. Deficiência de ferro | Comprometimento do ferro circulante | Normal | Diminuída | Diminuído | Aumentada | Diminuída |
| 3. Anemia ferropriva | Anemia instalada | ↓ VCM (microcitose), ↓ HCM (hipocromia), ↑ RDW | Diminuída | Diminuído | Aumentada | Diminuída |
Nota: IST = Índice de Saturação da Transferrina = (Ferro/TIBC) × 100
3.2 Manifestações clínicas da deficiência de ferro
- Podem estar presentes em qualquer estágio, porém mais evidentes na anemia ferropriva instalada
- Sinais e sintomas: palidez cutaneomucosa, fadiga, apatia, irritabilidade, redução da tolerância ao esforço
- Em crianças (neurodesenvolvimento): menor atenção, irritabilidade, redução da iniciativa para explorar o ambiente, desempenho inferior em linguagem, memória e funções executivas
- Quando não tratada precocemente: repercussão negativa no desempenho escolar e potencial cognitivo a longo prazo
3.3 Fatores de risco para deficiência de ferro e anemia ferropriva
| Categoria | Fatores |
|---|---|
| Fatores maternos | Baixa reserva de ferro; gestações múltiplas; curto intervalo intergestacional; dieta materna deficiente em ferro; perdas sanguíneas maternas; ausência/inadequação de suplementação de ferro na gestação; diabetes gestacional |
| Fatores fisiológicos e do desenvolvimento | Prematuridade; baixo peso ao nascer; rápido crescimento nos primeiros 2 anos; adolescência; lactentes; meninas com perdas menstruais significativas; atletas em competição |
| Diminuição do fornecimento de ferro | Clampeamento precoce do cordão umbilical; aleitamento materno exclusivo prolongado sem introdução alimentar adequada; alimentação complementar pobre em ferro/baixa biodisponibilidade; consumo de leite de vaca antes de 12 meses; dietas vegetarianas sem orientação profissional |
| Fatores dietéticos | Baixa diversidade alimentar; baixa ingestão de alimentos de origem animal (carnes e vísceras); presença de inibidores da absorção (fitatos, polifenóis, cálcio); práticas alimentares inadequadas na adolescência (omissão de refeições, dietas restritivas, seletividade alimentar) |
| Perdas sanguíneas | Traumáticas ou cirúrgicas; hemorragias GI (verminoses, DII, enteropatias/colites alérgicas); hemorragias ginecológicas (menorragia); discrasias sanguíneas |
| Má absorção do ferro | Doença celíaca; DII; gastrite atrófica; cirurgia gástrica; redução da acidez gástrica (antiácidos, bloqueadores H2, IBP) |
| Doenças e condições associadas | Processos inflamatórios crônicos e doenças crônicas sistêmicas; obesidade; infecções parasitárias; neoplasias |
| Fatores relacionados à prevenção | Baixa adesão à suplementação profilática medicamentosa com ferro; falta de atenção dos profissionais de saúde para indicação da prevenção |
| Anemia refratária ao ferro | IRIDA (iron-refractory iron deficiency anaemia) |
3.4 Metabolismo do ferro
Formas de ferro dietético
| Tipo | Fonte | Forma química | Biodisponibilidade | Mecanismo de absorção |
|---|---|---|---|---|
| Ferro heme | Alimentos de origem animal (carnes, vísceras, peixes) | Complexo heme | Alta (~20%) | Absorvido como complexo heme pela membrana apical do enterócito; degradado pela hemeoxigenase → libera Fe²⁺ |
| Ferro não heme | Alimentos de origem vegetal, cereais, leguminosas | Fe³⁺ (predominante) | Baixa (~5%) | Fe³⁺ → reduzido a Fe²⁺ por enzimas redutoras da borda em escova → transportado pelo DMT1 |
Fatores que influenciam a absorção do ferro
| Facilitadores da absorção | Inibidores da absorção |
|---|---|
| Ferro heme | Fitatos |
| Ácido ascórbico (vitamina C) | Polifenóis (chá, café) |
| Acidez gástrica adequada | Excesso de cálcio |
| Maior demanda (crescimento acelerado, deficiência de ferro) | Fibras |
| Fosfatos | |
| Proteínas do leite e da soja | |
| Estados inflamatórios (elevação da hepcidina) | |
| Condições que comprometem acidez gástrica ou integridade da mucosa intestinal |
Regulação pela hepcidina
- Hepcidina: hormônio hepático que regula a exportação do ferro do enterócito
- Liga-se à ferroportina (membrana basolateral do enterócito) → internalização e degradação → reduz liberação de ferro para o plasma
- Em inflamação/infecção: hepcidina AUMENTA → limita absorção intestinal e mobilização do ferro → deficiência funcional de ferro
- A ferritina como proteína de fase aguda: pode estar falsamente elevada na inflamação
Distribuição corporal do ferro
- Hemoglobina: maior parte do ferro corporal
- Mioglobina muscular: segunda maior fração
- Enzimas metabólicas e oxidativas
- Estoques: ferritina (fígado, baço, medula óssea)
- Transporte plasmático: transferrina
- Não existem mecanismos ativos de excreção de ferro — a homeostase depende quase exclusivamente do controle da absorção intestinal
3.5 Conteúdo de ferro dos alimentos e absorção estimada
| Alimento | Ferro (mg/100g) | Absorção estimada (%) | Ferro absorvido (mg/100g) |
|---|---|---|---|
| Carne bovina (cozida) | 2,80 | 20 | 0,56 |
| Carne suína (assada) | 2,31 | 20 | 0,46 |
| Frango (peito, cozido) | 1,47 | 20 | 0,29 |
| Peixe (pescada, assado/grelhado) | 1,72 | 20 | 0,34 |
| Ovo de galinha (cozido) | 1,75 | 10 | 0,18 |
| Leite de vaca integral | 0,03 | 10 | 0,003 |
| Feijões (cozidos) | 0,88 | 5 | 0,04 |
| Beterraba (cozida) | 0,26 | 5 | 0,01 |
| Espinafre (refogado) | 2,01 | 5 | 0,10 |
| Brócolis (cozido) | 0,30 | 5 | 0,02 |
| Manga (crua) | 0,14 | 5 | 0,01 |
| Uva (crua) | 0,11 | 5 | 0,01 |
| Banana (crua) | 0,29 | 5 | 0,01 |
| Macarrão (cozido) | 0,95 | 5 | 0,05 |
| Arroz branco (cozido) | 0,26 | 5 | 0,01 |
| Mandioca (cozida) | 0,38 | 5 | 0,02 |
| Milho (verde, grão) | 0,69 | 5 | 0,03 |
| Batata (inglesa, cozida) | 0,21 | 5 | 0,01 |
Ingestão diária recomendada de ferro: 11 a 15 mg/dia (crianças > 6 meses até adolescência).
4. DIAGNÓSTICO
4.1 Critérios de hemoglobina para definição de anemia (OMS 2024)
| Idade/Grupo | Hemoglobina (g/dL) para definir anemia |
|---|---|
| 6–23 meses | < 10,5 |
| 24–59 meses | < 11,0 |
| 5–11 anos | < 11,5 |
| 12–14 anos (meninas não grávidas) | < 12,0 |
| 12–14 anos (meninos) | < 12,0 |
| 15–65 anos (mulheres não grávidas) | < 12,0 |
| 15–65 anos (homens) | < 13,0 |
| Gestantes – 1º trimestre | < 11,0 |
| Gestantes – 2º trimestre | < 10,5 |
| Gestantes – 3º trimestre | < 11,0 |
⚠️ ATENÇÃO: O valor para 6-23 meses mudou para < 10,5 g/dL (anteriormente muitos textos usavam < 11,0 g/dL para todas as crianças de 6 meses a 5 anos).
4.2 Valores de referência hematológicos por faixa etária
| Idade | Hb média (g/dL) | Hb -2DP (g/dL) | Ht médio (%) | Ht -2DP (%) | VCM médio (fL) | VCM -2DP (fL) | CHCM médio (g/dL) | CHCM -2DP (g/dL) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| RNT | 18,0 | 15,0 | 58 | 45 | 108 | 98 | 33 | 30 |
| 1 semana | 17,0 | 13,5 | 54 | 42 | 107 | 88 | 33 | 28 |
| 2 semanas | 16,0 | 12,5 | 52 | 39 | 105 | 86 | 33 | 28 |
| 1 mês | 14,0 | 10,0 | 43 | 31 | 104 | 85 | 33 | 29 |
| 2 meses | 11,5 | 9,0 | 35 | 28 | 96 | 77 | 33 | 29 |
| 3 a 6 meses | 11,5 | 9,5 | 35 | 29 | 91 | 74 | 33 | 30 |
| 6 a 24 meses | 12,0 | 10,5 | 36 | 33 | 78 | 70 | 33 | 30 |
| 2 a 6 anos | 12,5 | 11,5 | 37 | 34 | 81 | 75 | 34 | 31 |
| 6 a 12 anos | 13,5 | 11,5 | 40 | 35 | 86 | 77 | 34 | 31 |
| 12–18 anos (F) | 14,0 | 12,0 | 41 | 36 | 90 | 78 | 34 | 31 |
| 12–18 anos (M) | 14,5 | 13,0 | 43 | 37 | 88 | 78 | 34 | 31 |
4.3 Pontos de corte de ferritina sérica para deficiência de ferro (OMS 2020)
| Idade | Sem infecção/inflamação (mcg/L) | Com infecção ou inflamação (mcg/L) |
|---|---|---|
| 0–23 meses | < 12 | < 30 |
| 24–59 meses | < 12 | < 30 |
| 5 a < 10 anos | < 15 | < 70 |
| 10 a < 20 anos | < 15 | < 70 |
⚠️ A presença de inflamação deve ser avaliada principalmente pela PCR. A ferritina é proteína de fase aguda → pode estar falsamente elevada em inflamação.
4.4 Investigação laboratorial recomendada
Exames prioritários:
- Eritrograma (hemograma)
- Ferritina sérica
- Proteína C reativa (PCR)
Exames complementares:
- Ferro sérico
- TIBC (capacidade total de ligação do ferro)
- Índice de saturação da transferrina = (Ferro/TIBC) × 100
- Contagem de reticulócitos (preferir automatizada)
- CHr (conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos) — marcador sensível e precoce de deficiência de ferro
- Volume reticulocitário médio — diminuído na anemia ferropriva
4.5 Parâmetros reticulocitários
| Parâmetro | Interpretação |
|---|---|
| Contagem manual de reticulócitos | Normal: 0,5% a 1,5% |
| Contagem absoluta (automatizada) | Preferida por maior acurácia e reprodutibilidade; valor varia conforme analisador |
| Reticulocitose | Aumento da atividade eritropoiética → hemólise ou recuperação pós-anemia |
| Reticulocitopenia | Hipoplasia ou aplasia medular |
| Volume reticulocitário médio | Diminuído na anemia ferropriva (produção inadequada de Hb) |
| Fração de reticulócitos imaturos | Aumentada na recuperação após tratamento de anemias carenciais |
| CHr (conteúdo de Hb dos reticulócitos) | Medida indireta da disponibilidade de ferro para eritropoiese; redução = marcador sensível e precoce de deficiência de ferro |
Valores automatizados de referência por instrumento:
| Instrumento | Reticulócitos (por mm³) | Fração de reticulócitos imaturos (%) | Volume reticulocitário médio (fL) |
|---|---|---|---|
| Cell-Dyn 4000 | 28.000–119.000 | 0,20–0,40 | — |
| Sysmex XE-2100 | 27.000–99.000 | 0,02–0,11 | — |
| Advia 120 | 33.000–104.000 | 0,06–0,20 | 100–114 |
| ABX Pentra 120 | 30.000–105.000 | 0,09–0,17 | 91–111 |
| Coulter LH 750 | 18.000–114.000 | 0,22–0,40 | 98–120 |
4.6 Indicação de investigação laboratorial
- Lactentes saudáveis, com crescimento adequado e alimentação apropriada: NÃO necessitam de investigação laboratorial rotineira
- Indicação de hemograma, ferritina sérica e PCR entre 9 e 12 meses de vida (ou quando o profissional considerar pertinente):
- Prematuros e/ou baixo peso ao nascer
- Falha na suplementação profilática de ferro
- Alimentação deficiente em fonte de ferro com boa biodisponibilidade
- Crescimento inadequado (deficiente ou excessivo)
4.7 Diagnóstico diferencial da anemia microcítica e hipocrômica
Na ausência de resposta ao tratamento com ferro ou achados laboratoriais atípicos:
- Doença falciforme: excluída pela triagem neonatal
- Talassemias (traços alfa e beta): importantes diagnósticos diferenciais
- Traço alfa-talassemia: identificado pela hemoglobina Bart's na triagem neonatal; se não identificado → biologia molecular (mutação α3.7 ou α4.2)
- Traço beta-talassemia: eletroforese de hemoglobina, preferencialmente após o 6º mês de vida
- Anemia da inflamação (anemia de doença crônica)
- Deficiência de cobre
- Anemia sideroblástica
- IRIDA (iron-refractory iron deficiency anaemia) — anemia ferropriva refratária ao ferro
4.8 Outras anemias nutricionais na infância
| Deficiência | Tipo de anemia | Características |
|---|---|---|
| Folato e Vitamina B12 | Megaloblástica | Alterações na síntese de DNA; mais comum em populações com baixo consumo de alimentos de origem animal |
| Vitamina A | Contribui para anemia | Interfere na mobilização do ferro dos estoques hepáticos e modulação da eritropoiese; pode coexistir com ferritina elevada em contexto inflamatório |
| Riboflavina, B6, vitamina C, cobre | Podem influenciar produção de Hb e metabolismo do ferro | Menos prevalentes |
5. TRATAMENTO
5.1 Tratamento da anemia ferropriva
| Aspecto | Recomendação |
|---|---|
| Via | Oral |
| Dose | 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar |
| Posologia | Dose única diária ou fracionada |
| Duração | 3 a 6 meses, ou até normalização da hemoglobina e reposição adequada dos estoques de ferro |
| Em desnutrição grave | Iniciar com 3 mg/kg/dia de ferro elementar na fase de reabilitação, ajustando conforme evolução clínica |
| Cálculo da dose | Baseado na quantidade de ferro elementar da preparação, NÃO na concentração do sal total |
5.2 Monitoramento da resposta terapêutica
| Momento | Avaliação | Resposta esperada |
|---|---|---|
| 30 a 45 dias após início | Hemograma | Aumento de hemoglobina ≥ 1,0 g/dL |
| Ao término do tratamento | Hemograma + ferritina sérica | Normalização da Hb, VCM, HCM, RDW e ferritina sérica |
5.3 Ausência de resposta ao tratamento — investigar:
- Baixa adesão ao tratamento
- Dose inadequada
- Persistência do fator causal
- Diagnóstico incorreto
- Presença de inflamação
5.4 Formulações de ferro oral
| Grupo | Forma química | % de ferro elementar |
|---|---|---|
| Sais ferrosos (Fe²⁺) | Sulfato ferroso | ~20% |
| Fumarato ferroso | ~33% | |
| Gluconato ferroso | ~12% | |
| Bisglicinato ferroso | ~20% | |
| Sais férricos (Fe³⁺) | Ferripolimaltose (hidróxido de ferro III) | Variável |
| Glicinato férrico | ~20% | |
| Proteinossuccinilato de ferro | ~5% | |
| Ferro carbonila | ~98% | |
| Pirofosfato férrico lipossomal ou sucrossomial | Variável |
⚠️ Evidências atuais NÃO demonstram superioridade consistente entre as formulações quanto à eficácia clínica ou tolerabilidade.
⚠️ Carboximaltose férrica e derisomaltose férrica NÃO são recomendadas para uso na população pediátrica.
⚠️ É fundamental conferir na bula a equivalência entre gotas, mililitros e miligramas.
5.5 Interações e cuidados com ferro oral
- A absorção pode ser reduzida (dependendo da formulação) quando administrado com:
- Alimentos ricos em fitatos, polifenóis, cálcio, taninos
- Medicamentos que diminuem acidez gástrica
- Recomenda-se verificar o tipo de formulação prescrita ao orientar a administração
5.6 Terapias alternativas (ferro parenteral, eritropoietina, transfusão)
- Indicação: ausência de resposta adequada ao ferro oral
- Devem ser avaliadas e conduzidas em conjunto com especialista
- Considerar: etiologia da anemia, gravidade do quadro clínico e condições associadas
6. PREVENÇÃO DA ANEMIA FERROPRIVA
6.1 Abordagem integrada e longitudinal
A prevenção inicia-se no período pré-concepcional e estende-se aos dois primeiros anos de vida:
-
Período pré-concepcional e gestacional:
- Pré-natal qualificado
- Identificação e tratamento da deficiência materna de ferro
- Suplementação sistemática de ferro e ácido fólico na gestação
-
Parto:
- Clampeamento tardio do cordão umbilical (preferencialmente após o 1º minuto de vida) — medida simples e eficaz para aumentar transferência placentária de ferro
-
Período pós-natal:
- Aleitamento materno exclusivo até 6 meses
- Aleitamento materno complementado até 2 anos ou mais
- Introdução oportuna da alimentação complementar diversificada aos 6 meses, com ênfase em ferro heme (carnes bovinas, suínas, aves, peixes)
-
Evitar leite de vaca no 1º ano de vida — baixo teor de ferro, efeito inibitório na absorção, risco de microssangramentos intestinais. Na impossibilidade de amamentação, usar fórmulas infantis até ~12 meses.
6.2 Suplementação profilática — Lactentes a termo, peso adequado ao nascer
| Parâmetro | Recomendação 2026 |
|---|---|
| Dose | 10 a 12,5 mg de ferro elementar/dia (dose fixa, independente do peso) |
| Idade de início | 6 meses |
| Esquema | Dois ciclos de 3 meses de uso diário, intercalados por pausa de 3 meses |
| Ciclo 1 | 6 a 9 meses (uso diário) |
| Pausa | 9 a 12 meses |
| Ciclo 2 | 12 a 15 meses (uso diário) |
| Término | 24 meses |
| Integração | Calendário de consultas de puericultura |
6.3 Crianças em uso de leite de vaca
- Podem necessitar do início da suplementação profilática a partir dos 4 meses de idade
- De forma articulada à introdução e composição da alimentação complementar
6.4 Suplementação profilática — Prematuros e/ou baixo peso ao nascer
| Peso ao nascer (g) | Dose de ferro elementar | Início | Duração |
|---|---|---|---|
| 1500 a 2500 g | 2 mg/kg/dia | 30 dias de vida | Durante o 1º ano de vida |
| 1000 a 1500 g | 3 mg/kg/dia | 30 dias de vida | Durante o 1º ano de vida |
| < 1000 g | 4 mg/kg/dia | 30 dias de vida | Durante o 1º ano de vida |
Entre 12 e 24 meses (prematuros/baixo peso): manter suplementação diária de 1 mg/kg/dia de ferro elementar, com base no peso atual, sem interrupções.
⚠️ Quando a criança prematura recebe fórmula infantil, a oferta dietética de ferro deve ser considerada no cálculo da suplementação necessária.
6.5 Efeitos adversos da suplementação profilática
- Efeitos adversos gastrointestinais: vômitos, diarreia, constipação (especialmente com uso prolongado)
- Avaliar individualmente necessidade, duração e dose em crianças em uso concomitante de outros suplementos contendo vitaminas e minerais
6.6 Situações especiais e contraindicações relativas
- Condições associadas à sobrecarga de ferro (ex: crianças que recebem transfusão cronicamente) → avaliação individualizada
- Uso de estratégias de fortificação domiciliar → avaliação individualizada
- Diante do diagnóstico de anemia: a conduta deixa de ser profilática e passa a seguir recomendações terapêuticas específicas
7. POPULAÇÕES ESPECIAIS
Prematuros e baixo peso ao nascer
- Maior depleção e consumo das reservas de ferro → suplementação profilática iniciada mais precocemente (30 dias de vida)
- Doses mais altas (2-4 mg/kg/dia conforme peso ao nascer)
- Após 1 ano de vida: manter 1 mg/kg/dia até 24 meses, sem interrupção
- Considerar oferta de ferro pela fórmula infantil no cálculo
Gestantes
- Suplementação sistemática de ferro e ácido fólico
- Anemia materna associa-se a parto prematuro, baixo peso ao nascer, aumento da morbimortalidade materna e neonatal
- Pontos de corte de Hb para anemia: 1º tri < 11,0; 2º tri < 10,5; 3º tri < 11,0 g/dL
Crianças com desnutrição grave
- Iniciar ferro terapêutico com 3 mg/kg/dia na fase de reabilitação
- Ajustar conforme evolução clínica
Crianças em uso de leite de vaca (< 12 meses)
- Suplementação profilática pode ser antecipada para 4 meses de idade
Adolescentes
- Fatores de risco específicos: crescimento acelerado, perdas menstruais, dietas restritivas, seletividade alimentar
- Pontos de corte de ferritina: < 15 mcg/L (sem inflamação) ou < 70 mcg/L (com inflamação)
Crianças com doenças crônicas/inflamatórias
- Interpretar ferritina com cautela (proteína de fase aguda)
- Usar pontos de corte ajustados para inflamação
- Hepcidina elevada limita absorção e mobilização → deficiência funcional de ferro
RESUMO DAS RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS PARA O PEDIATRA
| Recomendação | Detalhes |
|---|---|
| a. Reconhecer a ferropenia | Problema frequente e relevante, especialmente nos primeiros 2 anos de vida, com impacto no crescimento, neurodesenvolvimento e aprendizagem |
| b. Promover amamentação e alimentação complementar | AME até 6 meses; alimentação complementar diversificada com fontes de ferro heme + alimentos que favoreçam absorção; manter AM por 2 anos ou mais |
| c. Suplementação profilática | A termo/peso adequado: 10–12,5 mg/dia, 2 ciclos de 3 meses (6-9m e 12-15m); Prematuros/baixo peso: 2-4 mg/kg/dia a partir de 30 dias, 1º ano de vida; 12-24m: 1 mg/kg/dia contínuo |
| d. Investigação laboratorial baseada em risco | Não rotineira em lactentes saudáveis; em grupo de risco: hemograma + ferritina + PCR entre 9-12 meses ou conforme indicação clínica |
| e. Tratar anemia ferropriva | 3-6 mg/kg/dia de ferro elementar oral; monitorar Hb em 30-45 dias (esperar ≥ 1,0 g/dL de aumento); manter até normalização de Hb e reposição dos estoques |




