Pediatria2024

Hipovitaminose D em Pediatria: Diagnóstico, Tratamento e Prevenção — Atualização 2024 2024: o que mudou na diretriz

Cai na prova 2026
  • A deficiência de vitamina D é um dos distúrbios nutricionais mais frequentes no mundo, com estimativa de 1 bilhão de pessoas com insuficiência ou deficiência.

  • No Brasil, apesar de adequada exposição solar na maioria do território, a hipovitaminose D é problema comum, acometendo crianças e adolescentes, não apenas idosos.

  • A maior disponibilidade da dosagem sérica de vitamina D, a comercialização de produtos de suplementação e a divulgação sobre efeitos extra-esqueléticos gerou aumento considerável de solicitações de dosagem e prescrições de suplementação — caracterizando uma "pandemia" de hipovitaminose D.

  • Atualização necessária do documento de 2016 da SBP com novas evidências e consensos publicados até 2024.

  • Incorporação das recomendações do Consenso 2024 da Endocrine Society (Demay et al.) e do Consensus Statement 2024 (Giustina et al.).

  • Novas doses de prevenção para crianças de 1-18 anos: 600 a 1200 UI/dia (antes a referência era 600 UI/dia).

  • Doses para grupos de risco agora definidas em faixa: 1200-1800 UI/dia.

  • Reforço de que triagem universal NÃO é recomendada — apenas para grupos de risco.

  • Recomendação explícita da Endocrine Society 2024 de suplementação empírica para crianças e adolescentes saudáveis de 1-18 anos, sem necessidade de dosagem prévia.

  • Atualização das preparações comerciais de vitamina D disponíveis no mercado brasileiro.

  • Reforço sobre não recomendar exposição solar sem proteção como medida de prevenção.

  • Fototerapia neonatal não influencia níveis de vitamina D (lâmpadas não emitem UVB).

O que mudou

10 mudanças que você precisa saber

  • Antes

    Dose de prevenção para 1-18 anos: 600 UI/dia

    Agora

    600-1.200 UI/dia

  • Antes

    Não havia faixa específica de prevenção para grupos de risco

    Agora

    1.200-1.800 UI/dia para crianças com fatores de risco

  • Antes

    Não havia recomendação explícita de suplementação empírica para crianças saudáveis de 1-18 anos

    Agora

    Endocrine Society 2024 recomenda suplementação empírica para crianças e adolescentes saudáveis de 1-18 anos

  • Antes

    Documento focava primariamente nos efeitos esqueléticos

    Agora

    Menção à potencial diminuição do risco de infecções respiratórias como benefício adicional da suplementação

  • Antes

    Referências baseadas em guidelines até 2016

    Agora

    Incorporação do Endocrine Society Clinical Practice Guideline 2024 e Consensus Statement 2024

  • Antes

    Menos produtos comerciais disponíveis

    Agora

    Tabela ampliada com diversas apresentações comerciais (gotas de 200, 400, 500, 1.000, 2.000 UI por gota; comprimidos/cápsulas até 100.000 UI)

  • Antes

    Não especificava sobre fototerapia neonatal

    Agora

    Explicita que fototerapia neonatal NÃO influencia níveis de vitamina D (não emite UVB)

  • Antes

    Não detalhava sobre citrato de cálcio

    Agora

    Citrato de cálcio indicado para pacientes com acloridria ou em uso de IBP, com melhor absorção e menos efeitos adversos

  • Antes

    Menos ênfase na stoss-therapy

    Agora

    Detalhamento das doses de stoss-therapy por faixa etária com contraindicação formal para < 3 meses

  • Antes

    Monitoramento menos detalhado

    Agora

    Monitoramento com 25(OH)vitamina D desnecessário em doses ≤ 2.000 UI/dia de prevenção; se suspeita de não adesão, dosar após 8-12 semanas

Resumo técnico

A diretriz na íntegra

2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA

Por que esta diretriz foi publicada

  • A deficiência de vitamina D é um dos distúrbios nutricionais mais frequentes no mundo, com estimativa de 1 bilhão de pessoas com insuficiência ou deficiência.
  • No Brasil, apesar de adequada exposição solar na maioria do território, a hipovitaminose D é problema comum, acometendo crianças e adolescentes, não apenas idosos.
  • A maior disponibilidade da dosagem sérica de vitamina D, a comercialização de produtos de suplementação e a divulgação sobre efeitos extra-esqueléticos gerou aumento considerável de solicitações de dosagem e prescrições de suplementação — caracterizando uma "pandemia" de hipovitaminose D.
  • Atualização necessária do documento de 2016 da SBP com novas evidências e consensos publicados até 2024.

O que mudou em relação à versão anterior (2016)

  • Incorporação das recomendações do Consenso 2024 da Endocrine Society (Demay et al.) e do Consensus Statement 2024 (Giustina et al.).
  • Novas doses de prevenção para crianças de 1-18 anos: 600 a 1200 UI/dia (antes a referência era 600 UI/dia).
  • Doses para grupos de risco agora definidas em faixa: 1200-1800 UI/dia.
  • Reforço de que triagem universal NÃO é recomendada — apenas para grupos de risco.
  • Recomendação explícita da Endocrine Society 2024 de suplementação empírica para crianças e adolescentes saudáveis de 1-18 anos, sem necessidade de dosagem prévia.
  • Atualização das preparações comerciais de vitamina D disponíveis no mercado brasileiro.
  • Reforço sobre não recomendar exposição solar sem proteção como medida de prevenção.
  • Fototerapia neonatal não influencia níveis de vitamina D (lâmpadas não emitem UVB).

3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES

3.1 Definição de Vitamina D

  • Conceitualmente é um pró-hormônio (secosteroide), embora seja definida como vitamina.
  • Papel fundamental na homeostasia do cálcio e fósforo e no metabolismo ósseo.

3.2 Formas da Vitamina D

FormaOrigemFonte
Ergocalciferol (Vitamina D2)Plantas e fungos (irradiação do ergosterol)Dieta (absorção no duodeno e jejuno)
Colecalciferol (Vitamina D3)Fontes animais (peixes gordurosos, vísceras) e síntese cutâneaAção fotoquímica dos raios UVB (290-315 nm) nos queratinócitos e fibroblastos, convertendo 7-deidrocolesterol → pré-vitamina D3 → colecalciferol
  • As duas formas (D2 e D3) são equivalentes do ponto de vista biológico.
  • Se houver exposição excessiva aos raios UVB, o organismo converte 7-deidrocolesterol em metabólitos inativos (lumisterol e taquisterol), impedindo intoxicação.

3.3 Metabolismo da Vitamina D

EtapaLocalEnzimaProduto
1ª hidroxilaçãoFígado25-hidroxilaseCalcidiol / Calcifediol — 25(OH)vitamina D (forma de depósito; meia-vida 2-3 semanas)
2ª hidroxilaçãoRins1-alfa-hidroxilaseCalcitriol — 1,25(OH)₂vitamina D (forma metabolicamente ativa; meia-vida ~4 horas)
  • Transporte: pela proteína ligadora da vitamina D (DBP / transcalciferrina).

3.4 Classificação do Status de Vitamina D

Critérios comparativos (25-OH-vitamina D em ng/mL) — 1 ng/mL = 2,5 nmol/L

DiagnósticoAAP (2008)Endocrine Society CPG (2011)Global Consensus Rickets (2016)
Suficiência21-10030-100>20
Insuficiência16-2021-2912-20
Deficiência<15<20<12
Toxicidade>150>100>100
  • SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia): recomenda 25(OH)vitamina D entre 30 e 60 ng/mL para grupos de risco (raquitismo, osteoporose, hiperparatireoidismo secundário, DII, DRC).
  • Não existe consenso sobre os pontos de corte.
  • A definição de hipovitaminose D pode variar de < 12 a < 20 ng/mL dependendo do critério adotado.

3.5 Estágios Bioquímicos da Hipovitaminose D

ExameEstágio 1Estágio 2Estágio 3
Cálcio séricoNormal ou ↓Normal ou ↓↓↓
Fósforo séricoNormal ou ↓↓↓
Fosfatase alcalina↑↑↑↑↑
PTH↑↑↑↑↑
25-OH-vitamina D↓↓↓↓↓

4. DIAGNÓSTICO

4.1 Exame Indicado para Avaliação

  • 25(OH)vitamina D (calcidiol/calcifediol): forma mais abundante, de depósito, meia-vida 2-3 semanas.
  • O ensaio deve dosar tanto a 25(OH)vitamina D2 quanto a 25(OH)vitamina D3.

4.2 Exame NÃO Indicado para Triagem

  • 1,25(OH)₂vitamina D (calcitriol) NÃO avalia o estado nutricional da vitamina D porque:
    • Meia-vida curta (~4 horas)
    • Circula em pequena quantidade
    • Sofre interferência do PTH em resposta a flutuações da calcemia
    • Pode ter níveis normais ou elevados mesmo na vigência de hipovitaminose D

4.3 Métodos Laboratoriais

MétodoCaracterísticas
LC-MS (cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massa em tandem)Padrão-ouro; caro e laborioso
Imunoensaios e quimioluminescência com anticorpos monoclonaisMais utilizados na prática; automatizados, rápidos, menor custo; menor acurácia com variabilidade entre laboratórios e ensaios

Fatores que interferem na variabilidade dos ensaios:

  • Ensaios que dosam preferencialmente derivados de D3
  • Reação cruzada com metabólitos inativos (ex.: 24,25(OH)vitamina D)
  • Problemas com ligação do anticorpo
  • Polimorfismos do CYP27B1 (gene da 1-alfa-hidroxilase)
  • Polimorfismos da DBP

Fatores que influenciam os níveis populacionais de 25(OH)vitamina D:

  • Estação do ano, latitude, redução de exposição UVB, pigmentação da pele, IMC, sexo, idade, nível de atividade física, uso de suplementos, alimentos fortificados.

4.4 Triagem — Indicações

  • NÃO se recomenda triagem universal.
  • Triagem apenas para grupos de risco:
    • Exposição solar insuficiente
    • Prematuridade
    • Síndromes de má absorção intestinal
    • Hepatopatia / Nefropatia
    • Dieta vegetariana/vegana
    • Obesidade
    • Histórico de hipovitaminose D na gestação
    • Uso de medicamentos associados (anticonvulsivantes, corticoides, cetoconazol, etc.)

4.5 Avaliação Bioquímica Complementar

  • Quando 25(OH)vitamina D < 20 ng/mL: investigar raquitismo solicitando:
    • Cálcio
    • Fósforo
    • Magnésio
    • Fosfatase alcalina
    • Proteínas totais e frações
    • PTH

4.6 Estudo Radiológico

  • Indicado quando achados clínicos e laboratoriais sugiram raquitismo.
  • Radiografias: mãos e punhos ou joelhos (AP); tórax (PA e P).
  • Achados radiológicos do raquitismo:
    • Alargamento das metáfises com perda de contornos (principalmente punhos e tornozelos)
    • Alargamento das junções costocondrais
    • Fraturas em "galho verde"
    • Geno varo ou geno valgo
    • Deformidades torácicas

5. TRATAMENTO

5.1 Indicações de Tratamento

  • Todos os pacientes com deficiência de vitamina D, sintomáticos ou não.
  • Pacientes com insuficiência: podem ser tratados se pertencerem a grupos de risco e se medidas gerais (dieta, atividades ao ar livre) não forem viáveis.

5.2 Formulação de Escolha

FormulaçãoIndicação
Colecalciferol (vitamina D3)1ª escolha — mais ativo que ergocalciferol; melhor avaliação da resposta terapêutica (alguns ensaios dosam apenas D3)
Ergocalciferol (vitamina D2)Alternativa; menor atividade; pode não ser detectado por alguns ensaios
Calcitriol (1,25(OH)₂vitamina D)Situações excepcionais: hipoparatireoidismo, IRC, raquitismo dependente de vitamina D tipo 1 ou 2, má absorção intestinal grave
Calcifediol (25(OH)vitamina D)Hepatopatia crônica, má absorção intestinal, deficiência da 25-hidroxilase por variante patogênica do CYP2R1

5.3 Orientações Gerais do Tratamento

AspectoOrientação
ApresentaçãoCápsulas, comprimidos, gotas. Existem formulações com cálcio e multivitamínicos contendo colecalciferol (considerar ao prescrever)
Via de administraçãoOral é a 1ª escolha; parenteral se impossibilidade de via oral (ex.: má absorção grave)
FrequênciaUso diário; ou semanal se houver baixa adesão
RefeiçãoA qualquer hora do dia, independente da refeição
ArmazenamentoTemperatura ambiente, protegido de luz e umidade
AlergiasAlguns produtos podem conter vestígios de trigo, centeio, cevada, aveia, amendoim, nozes, castanhas, macadâmias, pistache, crustáceos, peixes e ovos

5.4 Esquemas Terapêuticos — Dose Terapêutica + Manutenção

A) Global Consensus Recommendations on Prevention and Management of Nutritional Rickets (2016)

(Indicadas especificamente para raquitismo nutricional)

Faixa etáriaDose terapêutica diáriaDuraçãoDose de manutenção
< 3 meses2.000 UI/dia12 semanas400 UI/dia
3-12 meses2.000 UI/dia12 semanas400 UI/dia
1-12 anos3.000-6.000 UI/dia12 semanas600 UI/dia
> 12 anos6.000 UI/dia12 semanas600 UI/dia

Nota: Não há recomendação específica sobre doses semanais neste consenso.

B) Endocrine Society Clinical Practice Guideline (2011)

Faixa etáriaDose terapêutica diáriaDose terapêutica semanalDuraçãoDose de manutenção
< 1 ano2.000 UI/dia50.000 UI/semana6 semanas400-1.000 UI/dia
1-18 anos2.000 UI/dia50.000 UI/semana6 semanas600-1.000 UI/dia
> 18 anos6.000 UI/dia50.000 UI/semana6 semanas1.500-2.000 UI/dia

C) American Academy of Pediatrics (2008)

Faixa etáriaDose terapêutica diáriaDuraçãoDose de manutenção
< 1 mês1.000 UI/dia8-12 semanasPelo menos 400 UI/dia
1-12 meses1.000-5.000 UI/dia8-12 semanasPelo menos 600 UI/dia
> 12 meses5.000 UI/dia8-12 semanasPelo menos 600 UI/dia

Nota: Não há recomendação específica sobre doses semanais neste guideline.

Etapa de manutenção: inicia-se após 25(OH)vitamina D > 30 ng/mL.

5.5 Stoss-Therapy (Terapia com Doses Elevadas)

  • Definição: Administração de doses elevadas de vitamina D, VO ou IM, por curtos períodos; repetir se necessário a cada 3 meses.
  • Indicação: Uso excepcional.
  • Cuidados: Risco de intoxicação por propilenoglicol quando se usar soluções orais que contenham esse produto.
  • Nota: A não disponibilidade da vitamina D para uso intramuscular faz com que a stoss-therapy seja mais prescrita por VO.
Faixa etáriaDose stossManutenção
< 3 mesesNÃO usar stoss-therapy
3-12 meses50.000 UI, VO, dose única400 UI/dia
12 meses - 12 anos150.000 UI, VO, dose única600 UI/dia
> 12 anos300.000 UI, VO, dose única600 UI/dia

5.6 Suplementação de Cálcio

Indicações:

  • Pacientes com diagnóstico de raquitismo.
  • Pacientes com ingestão de cálcio insuficiente.

Dose: 500 mg/dia de cálcio elementar, VO, 8/8 horas, por 2 a 4 semanas (reavaliar necessidade de manutenção).

PreparaçãoEquivalênciaIndicação EspecialPosologia
Carbonato de cálcio1 g = 400 mg de cálcio elementarUso geral; ingerir junto com refeições para otimizar absorção500 mg/dia de Ca elementar, VO, 8/8h
Citrato de cálcio1 g = 211 mg de cálcio elementarPacientes com acloridria ou em uso de IBP; melhor absorção e menos efeitos adversos500 mg/dia de Ca elementar, VO, 8/8h
Gluconato de cálcio (EV)1 g = 90 mg de cálcio elementarApenas em tetania ou convulsão10-20 mg/kg/dose, EV lento, em 5-15 minutos

Alternativa: Calcular a ingesta habitual do paciente e suplementar a dose faltante.

5.7 Monitoramento

No raquitismo nutricional:

  • 25(OH)vitamina D a cada 3 meses até atingir > 20 ou 30 ng/mL.
  • Se alteração bioquímica ou raquitismo na avaliação inicial, solicitar trimestralmente: cálcio, fósforo, magnésio, fosfatase alcalina, PTH.
  • Radiografia de mãos/punhos ou joelhos: 1 a 3 meses após início do tratamento para monitorar resolução das lesões.

No indivíduo saudável em prevenção (doses ≤ 2000 UI/dia):

  • Dosagem rotineira de 25(OH)vitamina D é desnecessária.
  • Se suspeita de não adesão: dosar 25(OH)vitamina D 8 a 12 semanas após início da suplementação.

Em pacientes com fatores de risco:

  • Dosagem periódica de vitamina D conforme protocolos específicos de cada condição (cirurgia bariátrica, anticonvulsivantes, bisfosfonatos, corticoides, doença celíaca).

6. POPULAÇÕES ESPECIAIS

6.1 Grupos de Risco e Mecanismos

Grupo de risco / CausaMecanismo da deficiência
Gestantes com hipovitaminose DDiminuição da transferência materno-fetal
PrematuridadeDiminuição da transferência materno-fetal (menos tempo de acúmulo de depósitos placentários)
Exposição solar inadequada, pele escura, protetor solar, roupas cobrindo corpo, poluição, latitude >35-40°Diminuição da síntese cutânea
Aleitamento materno exclusivoDiminuição da ingesta (leite materno: 20-50 UI/L)
Lactentes que ingerem < 1 L/dia de fórmula fortificadaDiminuição da ingesta
Dieta pobre em vitamina D / vegetariana / veganaDiminuição da ingesta
Síndromes de má absorção (doença celíaca, DII, fibrose cística, síndrome do intestino curto, cirurgia bariátrica)Diminuição da absorção intestinal
Hepatopatia crônicaDiminuição da síntese (25-hidroxilação)
Nefropatia crônicaDiminuição da síntese (1-alfa-hidroxilação)
ObesidadeSequestro da vitamina D no tecido adiposo
Medicamentos: fenobarbital, fenitoína, carbamazepina, oxcarbazepina, primidona, corticoides, cetoconazol, ritonavir, colestiramina, orlistate, rifampicina, espironolactona, nifedipinaMecanismos variados: diminuição da absorção e/ou aumento da degradação

6.2 Causas Genéticas (Incomuns)

Causa genéticaGeneMecanismo
Deficiência da 25-hidroxilaseCYP2R1 (variante inativadora / perda de função)Comprometimento da 1ª hidroxilação hepática
Deficiência da 1-alfa-hidroxilaseCYP27B1 (variante inativadora / perda de função)Comprometimento da 2ª hidroxilação renal
Resistência à ação da vitamina DVDR (variante inativadora / perda de função)Receptor inativo

6.3 Lactentes em Aleitamento Materno Exclusivo

  • Grupo particularmente vulnerável; leite materno contém apenas 20-50 UI/L de vitamina D.
  • Risco maior se: prematuros, filhos de mães com hipovitaminose D gestacional, pele escura.

6.4 Prematuros

  • Menor tempo de acúmulo de depósitos transferidos da mãe pela placenta.
  • Grupo de risco para hipovitaminose D.

6.5 Adolescentes (9-18 anos)

  • Período de crescimento acelerado do esqueleto → particularmente vulneráveis.

6.6 Obesos

  • A gordura corporal sequestra as vitaminas lipossolúveis.
  • Recomendação de doses de prevenção mais altas: 1200-1800 UI/dia.

6.7 Recém-nascidos em Fototerapia

  • A fototerapia prescrita para icterícia neonatal NÃO influencia os níveis séricos de vitamina D, pois as lâmpadas não emitem raios UVB.

6.8 Situações de Risco Aumentado para Intoxicação

  • Doenças granulomatosas (tuberculose, infecções fúngicas crônicas)
  • Alguns linfomas
  • Síndrome de Williams
  • Uso de vitaminas manipuladas (risco de erro de dose)

7. PREVENÇÃO DA HIPOVITAMINOSE D

7.1 Princípios Gerais

  • A prevenção inicia na gestação (pré-natal) e continua até os 18 anos.
  • Colecalciferol (D3) é o suplemento de escolha.
  • O Consenso 2024 da Endocrine Society recomenda suplementação empírica para crianças e adolescentes saudáveis de 1-18 anos, sem fatores de risco, para prevenir raquitismo nutricional e potencialmente diminuir o risco de infecções respiratórias.
  • Exposição solar sem proteção NÃO é recomendada (SBP + Sociedade Brasileira de Dermatologia) pelo risco de fotoenvelhecimento e câncer de pele.

7.2 Doses de Prevenção

GrupoColecalciferol (vitamina D3)
Crianças < 1 ano400 UI/dia
Crianças e adolescentes 1-18 anos600-1.200 UI/dia
Crianças com fatores de risco (dieta vegetariana/vegana, obesidade, hepatopatia, nefropatia crônica, má absorção intestinal, medicamentos como anticonvulsivantes, corticoides, cetoconazol, rifampicina)1.200-1.800 UI/dia (ajustar de acordo com cada condição)

Observação: 400 UI = 10 mcg


8. INTOXICAÇÃO PELA VITAMINA D

8.1 Critérios Diagnósticos

  • 25(OH)vitamina D > 150 ng/mL + hipercalcemia + hipercalciúria + supressão do PTH.

8.2 Manifestações Clínicas

Decorrentes de hipercalcemia e hipercalciúria:

  • Anorexia, náusea, vômito, dor abdominal
  • Poliúria, polidipsia
  • Constipação intestinal
  • Calcificação ectópica, nefrolitíase
  • Fraqueza e confusão mental

8.3 Tratamento da Intoxicação

  • Suspensão da reposição de vitamina D
  • Hidratação venosa
  • Diuréticos de alça
  • Bisfosfonatos
  • Corticoides

9. FONTES ALIMENTARES DE VITAMINA D

AlimentoVitamina D (1 μg = 40 UI)
Óleo de fígado de bacalhau (1 colher de chá)400-1.000 UI
Salmão selvagem (100 g)600-1.000 UI
Sardinha enlatada (100 g)300 UI
Atum (90 g)230 UI
Salmão de fazenda/piscicultura (100 g)100-250 UI
Iogurte (100 g)90 UI
Fígado de boi (100 g)50 UI
Fórmulas lácteas fortificadas (1 litro)400 UI
Leite de vaca (1 litro)40 UI
Gema de ovo (1 unidade)25 UI
Leite materno (1 litro)20-50 UI
  • Aproximadamente 90% da vitamina D é proveniente da síntese cutânea e menos de 10% de fontes alimentares.
  • As fontes alimentares NÃO conseguem suprir as necessidades de vitamina D.

10. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA HIPOVITAMINOSE D

Formas leves a moderadas:

  • Assintomática
  • Atraso do crescimento e desenvolvimento
  • Irritabilidade
  • Dores ósseas

Formas graves (Raquitismo):

  • Atraso da erupção dentária
  • Irritabilidade e sudorese
  • Alterações dentárias
  • Fronte olímpica
  • Atraso no fechamento das fontanelas
  • Crânio tabes
  • Rosário raquítico (alargamento das junções costocondrais)
  • Alargamento de punhos e tornozelos (alargamento das metáfises)
  • Sulco de Harrison (atrofia diafragmática)
  • Deformidade de membros inferiores (geno varo, geno valgo)

Alterações bioquímicas:

  • Hipocalcemia, hipofosfatemia, hiperfosfatasemia, elevação do PTH

14. PREPARAÇÕES COMERCIAIS DE VITAMINA D (COLECALCIFEROL) NO BRASIL

ProdutoApresentações disponíveis
Addera D3® (Farmasa)Gotas: 400, 1.000 ou 2.000 UI/gota; Cápsulas/comp: 1.000, 2.000, 5.000, 7.000, 14.000, 50.000 UI
Alta D® (Eurofarma)Gotas: 500 UI/gota; Cápsulas: 2.000, 7.000, 15.000, 50.000 UI
DePura® / DePura Kids® (Sanofi)Gotas: 500 UI/gota; Comp: 1.000, 2.000, 7.000, 50.000 UI
Doranguitos® (Brasterápica)Comp mastigáveis: 200 UI
DoseD® / DoseDMelt® (Aché)Gotas: 200 UI/gota; Comp mastigáveis: 200 UI
Doss® (Biolab)Gotas: 1.000 UI/gota; Cápsulas: 1.000, 2.000, 7.000, 15.000, 50.000 UI
DPrev® (Myralis)Gotas: 400, 600 ou 1.000 UI/gota; Comp: 1.000-100.000 UI; Cápsulas: 1.000-50.000 UI
Excevit® (Gallia)Gotas: 200 UI/gota
FontD® (União Química)Gotas: 200 UI/gota; Cápsulas: 200 UI; Comp: 2.000-50.000 UI
Maxxi D3® (Myralis)Gotas: 200 UI/gota
Ohde (Momenta)Cápsulas/comp: 1.000-50.000 UI
SanyD® (Aché)Gotas: 200 UI/gota; Comp: 1.000-50.000 UI
SupraD® / SupraD Max (Hertz)Gotas: 200 UI/gota; SupraD Max: 2.000 UI/gota
Vitax D3® (Arese)Gotas: 200 UI/gota; Cápsulas: 200 UI
ViterSol D® (Marjan)Gotas: 200 UI/gota; Cápsulas: 200 UI

15. SÍTIOS DE AÇÃO DA VITAMINA D

SítioAção
Intestino delgadoAumenta absorção intestinal de cálcio e fósforo
OssosPromove formação do osso endocondral; estimula proliferação e diferenciação dos condrócitos; mineralização da matriz óssea
RinsAumenta reabsorção tubular renal de cálcio
OutrosRegulação de >1.000 genes; possíveis ações extra-esqueléticas (imunológica, metabólica, cardiovascular, neuropsiquiátrica, oncológica)

Associações extra-esqueléticas sugeridas (estudos epidemiológicos):

Diabetes melito, pré-diabetes, asma brônquica, infecções respiratórias, tuberculose, dermatite atópica, alergia alimentar, DII, artrite reumatoide, doença cardiovascular, esquizofrenia, depressão, neoplasias (mama, próstata, pâncreas, cólon).


Documento gerado a partir do Documento Científico nº 181 da SBP, de 25 de novembro de 2024. Para uso como referência clínica e educacional em provas de residência médica.

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Outros pontos relevantes

  • 01

    A 25(OH)vitamina D (calcidiol) é o exame que avalia o estado nutricional da vitamina D — NÃO a 1,25(OH)₂vitamina D (calcitriol). O calcitriol pode estar normal ou elevado mesmo na hipovitaminose D.

  • 02

    Triagem universal NÃO é recomendada — apenas para grupos de risco.

  • 03

    Colecalciferol (vitamina D3) é a formulação de 1ª escolha para tratamento e prevenção.

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