2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA
Por que esta diretriz foi publicada
- Sepse permanece como causa líder de morbidade, mortalidade e utilização de recursos de saúde em crianças mundialmente
- Identificação precoce e manejo adequado são críticos para otimizar desfechos a curto e longo prazo
- Atualização da primeira diretriz SSC pediátrica específica publicada em 2020
Escopo
- Aplica-se a pacientes de ≥ 37 semanas de gestação ao nascimento até 18 anos
- Engloba lactentes, pré-escolares, escolares e adolescentes
- Cenários: hospital, departamento de emergência ou ambiente de cuidados agudos
- Reconhece variação de recursos entre sistemas de saúde e regiões geográficas
O que mudou em relação à versão 2020
- 61 declarações no total: 5 recomendações fortes, 24 recomendações condicionais, 10 declarações de boa prática clínica (GPS)
- Para 22 questões PICO, não foi possível fazer recomendação; para 7 destas, foram fornecidas declarações "in our practice"
- 20 recomendações novas
- 13 atualizadas por clareza e/ou nova evidência
- 6 revisadas sem alteração
- 22 mantidas por consenso de ausência de nova evidência
- Apenas 3 recomendações baseadas em alta ou moderada certeza de evidência
- Temas de cuidados gerais (profilaxia de úlcera de estresse, TEV, nutrição, ventilação específica de SDRA, transfusão, controle glicêmico, sedação) foram referidos a outras diretrizes específicas
Metodologia
- Metodologia GRADE (Grading of Recommendations, Assessment, Development, and Evaluation)
- Certeza da evidência: alta, moderada, baixa ou muito baixa
- Framework evidence-to-decision (EtD) para formulação de declarações
- Consenso: votação com 75% dos membros e limiar de 80% de concordância
- Tipos de declarações:
| Categoria | Força | Linguagem | Implicação |
|---|---|---|---|
| Recomendação forte | Forte | "Recomendamos" | Maioria dos pacientes deve receber/evitar a intervenção |
| Recomendação condicional | Fraca | "Sugerimos" | Balanço pode variar conforme valores do paciente/contexto |
| Declaração de boa prática (GPS) | Forte (não graduada) | "Clinicians should..." | Benefício inequívoco sem evidência direta |
| Declaração "in our practice" | Não é recomendação | Descritiva | Variação na prática atual |
3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES
Terminologia de Sepse Utilizada na Diretriz
| Termo | Definição |
|---|---|
| Sepse | Infecção levando a disfunção orgânica potencialmente fatal, inclusiva de pacientes com choque séptico |
| Choque séptico | Subconjunto de sepse com perfusão inadequada e/ou disfunção cardiovascular não atribuível a causa cardíaca primária ou outra causa concomitante |
| Sepse provável | Apresentação clínica consistente com sepse, mas infecção ainda não confirmada |
| Choque séptico suspeito | Choque de etiologia não confirmada, mas suspeito de ser secundário a infecção |
| Choque séptico com hipoperfusão persistente | Sepse com sinais contínuos de hipoperfusão apesar de tratamento inicial |
Critérios de Sepse: Evolução Histórica
Critérios IPSCC 2005 (utilizados na maioria dos estudos de base)
- Sepse grave: ≥ 2 critérios de SIRS por idade + infecção invasiva confirmada/suspeita + disfunção cardiovascular OU SDRA OU ≥ 2 disfunções orgânicas não cardiovasculares
- Choque séptico: subconjunto com disfunção cardiovascular (hipotensão, perfusão comprometida incluindo hiperlactatemia > 2x limite superior do normal, e/ou uso de vasopressor)
Critérios Phoenix 2024
- Sepse: infecção com disfunção orgânica potencialmente fatal operacionalizada como disfunção moderada-grave dos sistemas respiratório, cardiovascular, coagulação e/ou neurológico
- Choque séptico: sepse com ≥ 1 ponto de disfunção cardiovascular, indicando:
- Hipotensão
- Hiperlactatemia ≥ 5 mmol/L
- E/ou tratamento com medicação vasoativa
Marcadores de Hiperlactatemia
- Lactato ≥ 2 mmol/L: independentemente associado a mortalidade aumentada
- Lactato > 5 mmol/L: suficiente para critérios de disfunção cardiovascular Phoenix
- Mesmo pequenas elevações de lactato podem indicar perfusão orgânica insuficiente e justificar tratamento para choque séptico
Subfenótipos Reconhecidos
TAMOF (Thrombocytopenia-Associated Multiple Organ Failure)
- Trombocitopenia de início novo + disfunção orgânica progressiva
- Desregulação imune + coagulopatia
- Mediada por: atividade reduzida de ADAMTS-13, atividade elevada de FVW, FVW ultra-grande
- Ocorre em ~8% das crianças com sepse
- Associada a alta mortalidade
Imunoparalisia
- HLA-DR reduzido na superfície de monócitos
- Capacidade reduzida de leucócitos de produzir TNF-α ex vivo
- Neutropenia e linfopenia
- Associada a mortalidade, disfunção orgânica prolongada, infecções nosocomiais
Hiperferritinemia
- Frequentemente definida como > 500 ng/mL
- Hiperferritinemia extrema: > 10.000 ng/mL — associada a gravidade aumentada e mortalidade
- Sobreposição com sHLH, MAS, síndromes de tempestade de citocinas
4. DIAGNÓSTICO
4.1 Triagem e Reconhecimento
Recomendação 1 — Triagem Sistemática para Sepse
- Status: Evidência insuficiente para recomendar triagem sistemática para sepse além dos protocolos clínicos estabelecidos
- Mudança de 2020: atualizada (antes era sugestão fraca a favor de triagem)
- Dados-chave: Único ECR pediátrico com randomização para triagem eletrônica vs. sem triagem mostrou:
- Sem diferença na mortalidade (RR 2,52; IC95% 0,31-20,38)
- Sem diferença na progressão para choque séptico (OR ajustado 1,12; IC95% 0,53-2,46)
- Sem diferença na pontualidade de antibióticos (HR ajustado 0,85; IC95% 0,63-1,16)
- Importante: O painel enfatiza a importância de (a) reconhecimento precoce, (b) necessidade de pesquisa comparativa e (c) estabelecimento de protocolos clínicos de triagem
Recomendação 2 — Programa de Melhoria de Performance
- Recomendação forte, baixa certeza de evidência
- Hospitais devem implementar programa de melhoria de performance com protocolos operacionais padronizados
- Dados: Implementação associada a mortalidade reduzida (RR 0,51; IC95% 0,39-0,66) e menor tempo de internação hospitalar (DM 0,87 dias a menos)
- Pathway clínico para sepse: mortalidade reduzida (RR 0,61; IC95% 0,39-0,95) e menor tempo de internação (DM 36,71 horas a menos)
Recomendação 3 — Lactato Sanguíneo
- Recomendação forte, certeza muito baixa
- Medir lactato sanguíneo como parte da avaliação e manejo iniciais em sepse provável ou choque séptico suspeito
- Amostras arteriais, venosas e capilares mostram associação consistente com mortalidade
- Meta-análise em rede de 2 ECRs em adultos: terapia guiada por lactato associada a menor mortalidade a curto prazo até 90 dias (RR 0,59; IC95% 0,45-0,76)
- Garantir disponibilidade de teste de lactato point-of-care em diversas regiões
Recomendação 4 — Hemoculturas
- GPS (boa prática clínica)
- Obter hemoculturas antes de iniciar antimicrobianos em situações onde isso não atrasa substancialmente a administração
Recomendação 5 — Testes Moleculares
- Evidência insuficiente para recomendar ou contraindicar testes moleculares de rotina para detecção/identificação de patógenos
- Um ECR em neonatos: mortalidade reduzida de 17,8% para 3,2% com PCR multiplex vs. hemocultura tradicional
- Em adultos: ECRs não demonstraram redução consistente na mortalidade
- Preocupações: falso-positivos, custos, variação epidemiológica
4.2 Monitorização Hemodinâmica
Recomendação 25 — Avaliação Clínica
- GPS
- Ressuscitação guiada por avaliação clínica contínua incluindo:
- Frequência cardíaca
- Pressão arterial
- Tempo de enchimento capilar
- Temperatura de extremidades
- Qualidade do pulso
- Nível de consciência
- Débito urinário
- Na prática do painel: PA (93%), FC (87%), TEC (77%), nível de consciência (71%), débito urinário (69%), qualidade do pulso (48%), temperatura de extremidades (41%)
Recomendação 26 — Alvo de PAM
- Evidência insuficiente para recomendar entre percentil 5 ou 50 para idade
Recomendação 27 — SvcO₂
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Alvo SvcO₂ ≥ 70% quando acesso venoso central disponível
- 2 ECRs pediátricos (222 pacientes): possível redução de mortalidade (RR 0,48; IC95% 0,22-1,03)
- SvcO₂ idealmente medida de cateter venoso central com ponta próxima ao átrio direito
Recomendação 28 — Monitorização Hemodinâmica Avançada
- Evidência insuficiente para recomendar uso de monitorização hemodinâmica avançada junto com sinais clínicos
- Na prática do painel (71% usam): ecocardiografia/POCUS cardíaco (32%), PiCCO (32%), Doppler aórtico transtorácico/supraesternal (22%)
Recomendação 29 — POCUS Cardíaco e Pulmonar
- Recomendação condicional, baixa certeza
- Sugere-se POCUS cardíaco e pulmonar para guiar ressuscitação se treinamento e recursos locais permitirem
- Meta-análise de 2 ECRs: POCUS associado a menor tempo de reversão de choque (DM 24h menos; IC95% 10,8-37,1h) e menor tempo de UTI (DM 3,6 dias menos; IC95% 1,4-5,9d)
- POCUS alterou a caracterização hemodinâmica em 67% dos casos em um estudo
5. TRATAMENTO
5.1 Terapia Antimicrobiana
Recomendação 6 — Antibiótico no Choque Séptico
- Recomendação forte, certeza muito baixa
- Iniciar antimicrobianos o mais rápido possível, idealmente dentro de 1 hora do reconhecimento de sepse em choque séptico suspeito
- Meta-análise de estudos observacionais: antibiótico < 2h associado a OR 0,51 (IC95% 0,22-1,19) para mortalidade
- Estudo retrospectivo de 19.515 crianças: tanto administração precoce (< 30 min) quanto tardia (> 330 min) ligadas a mortalidade
Recomendação 7 — Antibiótico na Sepse sem Choque
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Período limitado de investigação rápida e, se a preocupação com sepse for substantiada, iniciar antimicrobianos idealmente dentro de 3 horas
- Período de investigação permite substantiar diagnóstico presuntivo e testar outras causas
Recomendação 8 — Antibiótico em Cenários com Recursos Limitados
- GPS
- Quando avaliação oportuna é difícil e pode haver atraso, considerar antibióticos o mais rápido possível
Recomendação 9 — Espectro Empírico
- GPS
- Terapia empírica de amplo espectro com 1 ou mais antimicrobianos cobrindo todos os patógenos prováveis
Recomendação 10 — Multiterapia em Imunossuprimidos
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Terapia empírica multidrogas para crianças com imunossupressão e/ou alto risco de patógenos multirresistentes
Recomendação 11 — Infusão Contínua/Estendida de Beta-lactâmicos
- Evidência insuficiente para recomendar rotineiramente infusão contínua/estendida vs. intermitente
- ECRs pediátricos: sem diferença na mortalidade (RR 0,58; IC95% 0,17-2,01)
- Meta-análise em adultos com sepse: pequena redução na mortalidade em 90 dias para infusão contínua (RR 0,91; IC95% 0,85-0,97)
- Diferenças farmacocinéticas ao longo do crescimento infantil e preocupações com viabilidade/estabilidade limitam extrapolação
Recomendação 12 — Descalonamento
- GPS
- Estreitar cobertura antimicrobiana assim que patógeno(s) e susceptibilidades estiverem disponíveis
Recomendação 13 — Sem Patógeno Identificado
- GPS
- Estreitar ou suspender terapia empírica conforme apresentação clínica, sítio de infecção, fatores de risco, melhora clínica — em discussão com infectologista/microbiologista
Recomendação 14 — Procalcitonina
- Recomendação condicional, certeza MODERADA (uma das 3 com certeza ≥ moderada)
- Sugere-se NÃO usar procalcitonina rotineiramente para guiar desescalonamento quando programas eficazes de stewardship estão em vigor
- 2 ECRs (neonatal + pediátrico multicêntrico):
- Sem diferença na mortalidade (RR 0,52; IC95% 0,20-1,33)
- Sem diferença na duração de antibióticos (DM 3,85h menos; IC95% -10,93 a +3,24h)
- O valor da procalcitonina depende do contexto e da eficácia da infraestrutura de stewardship
Recomendação 15 — Consultoria de Doenças Infecciosas (com bacteremia)
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Hospitais devem implementar consultoria de infectologia ou microbiologia de rotina para crianças com infecção de corrente sanguínea documentada
- Meta-análise: mortalidade reduzida (RR 0,51; IC95% 0,28-0,92)
Recomendação 16 — Consultoria de DI (sem bacteremia)
- Evidência insuficiente para recomendar consultoria de rotina
5.2 Controle de Foco
Recomendação 17 — Controle de Foco Emergente
- GPS
- Implementar o mais rápido possível após diagnóstico de infecção passível de procedimento
Recomendação 18 — Remoção de Dispositivo Intravascular
- Recomendação forte, baixa certeza
- Remover dispositivos intravasculares confirmados como fonte após obter outro acesso, dependendo do patógeno e relação risco/benefício
5.3 Fluidoterapia
Recomendação 19 — Choque Séptico COM UTI Disponível
- Recomendação condicional, baixa certeza
- Até 40-60 mL/kg em bolus (10-20 mL/kg por bolus) na primeira hora
- Sobre não administrar bolus
Recomendação 20 — Sepse SEM Hipotensão SEM UTI
- Recomendação FORTE, certeza ALTA (uma das 3 com alta certeza)
- Contra uso de bolus de fluidos — iniciar fluidos de manutenção
Recomendação 21 — Choque Séptico COM Hipotensão SEM UTI
- Recomendação condicional, baixa certeza
- Até 40 mL/kg em bolus (10-20 mL/kg por bolus) na primeira hora
Recomendação 22 — Reavaliação Hemodinâmica
- GPS
- Reavaliar status hemodinâmico após cada bolus
- Titular conforme marcadores clínicos de débito cardíaco
- Descontinuar se choque resolver ou sinais de sobrecarga hídrica
Recomendação 23 — Cristaloides vs. Albumina
- Recomendação condicional, certeza MODERADA
- Cristaloides sobre albumina para ressuscitação inicial
- Considerando custo e outras barreiras da albumina
Recomendação 24 — Cristaloides Balanceados vs. SF 0,9%
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Cristaloides balanceados/tamponados (Ringer lactato, Hartmann, soluções multieletrolíticas) sobre SF 0,9%
- 5 ECRs pediátricos: sem diferença na mortalidade (RR 1,0; IC95% 0,82-1,22)
- Maior ECR (Índia): menor incidência de LRA nova/progressiva com cristaloides balanceados (21% vs. 33%; RR 0,62; IC95% 0,49-0,80)
- Menor necessidade de TRS com cristaloides balanceados (RR 0,58; IC95% 0,39-0,87)
- Exceções para SF 0,9%: hiponatremia, preocupação com hipertensão intracraniana (infecções do SNC)
- Estudo PRoMPT BOLUS em andamento (8.800 crianças planejadas)
5.4 Drogas Vasoativas
Recomendação 30 — Timing de Início de Vasopressores
- Evidência insuficiente para recomendar início antes ou depois de 40 mL/kg de bolus
- 3 ECRs: sem diferença na mortalidade (RR 0,62; IC95% 0,23-1,69)
- Estudo piloto multicêntrico: mediana de tempo para epinefrina 16 min (grupo precoce) vs. 49 min (grupo padrão); fluido 24h: 0 mL/kg vs. 20 mL/kg
- Na prática: 63% do painel às vezes/frequentemente iniciam vasopressores antes de 40 mL/kg
Recomendação 31 — Epinefrina vs. Norepinefrina como Primeira Linha
- Evidência insuficiente para recomendar uma sobre a outra
- 1 ECR (67 crianças): sem diferença na resolução do choque em 1h (RR 2,0; IC95% 0,54-7,35)
- Estudo de propensity score (231 episódios): epinefrina associada a maior mortalidade em 30 dias vs. norepinefrina (3,7% vs. 0%; diferença 3,7%; IC95% 0,2-7,2%) — mas com confounders importantes
- Preferências gerais: epinefrina para disfunção miocárdica/baixo débito; norepinefrina para aumentar RVS
- Na prática: 57% usam epinefrina como primeira linha, 43% norepinefrina
Recomendação 32 — Via Periférica para Vasopressores
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Iniciar vasopressores por acesso venoso periférico em vez de atrasar até obter acesso central
- Meta-análise de 6 estudos observacionais (709 crianças): risco reduzido de morte com via periférica (RR 0,45; IC95% 0,3-0,67)
- Risco de extravasamento: 2,5% (IC95% 1,69-4,2%)
- Extravasamento mais frequente em acesso distal (mão)
Recomendação 33 — Vasopressina
- Recomendação condicional, baixa certeza
- Para crianças com choque séptico em altas doses de catecolaminas: adicionar vasopressina OU titular catecolaminas
- Sem consenso sobre limiar ótimo para iniciar vasopressina
Recomendação 34 — Inodilatador
- Evidência insuficiente para recomendar adição de inodilatador na disfunção cardíaca refratária
Recomendação 35 — Angiotensina II
- Evidência insuficiente (nova recomendação)
- Apenas séries de casos/relatos pediátricos
- Na prática: 82% quase nunca usam angiotensina II
Recomendação 36 — Azul de Metileno
- Evidência insuficiente (nova recomendação)
- 1 ECR unicêntrico em neonatos (30 lactentes): melhora mais rápida da PA, sem diferença na mortalidade (66% vs. 60%)
- Na prática: 62% raramente/quase nunca usam
5.5 Ventilação
Recomendação 37 — Intubação no Choque Refratário
- Evidência insuficiente sobre intubação em choque refratário a fluidos e catecolaminas na ausência de insuficiência respiratória
Recomendação 38 — Etomidato
- Recomendação condicional, baixa certeza
- Contra uso de etomidato para intubação de crianças com sepse/choque séptico
Recomendação 39 — Alvo de Oxigenação (NOVA)
- Recomendação condicional, certeza MODERADA
- Após ressuscitação, titular O₂ para alvo conservador (SpO₂ 88-92%) sobre alvo liberal (SpO₂ > 94%)
- Ensaio Oxy-PICU: SpO₂ 88-92% resultou em mais dias vivos sem suporte orgânico em D30
- Menor tempo de ventilação mecânica e menos efeitos adversos com alvos menores
- Exceções/Cautela:
- Anemia grave, hemoglobinopatias, cardiopatia cianótica
- Marcadores de dívida tecidual de O₂, baixo débito cardíaco
- DMOS com disfunção neurológica
- Fase aguda de ressuscitação (relação risco-benefício pode diferir)
- Oxímetros podem superestimar em peles mais escuras
- PALICC-2 recomendava SpO₂ 92-97% para SDRA pediátrico, mas pré-datava o estudo Oxy-PICU
- OMS recomenda O₂ se SpO₂ < 90% ou < 94% com sinais de choque/encefalopatia
5.6 Corticosteroides
Recomendação 40 — Choque com Estabilidade Hemodinâmica Restaurável
- Recomendação condicional, baixa certeza
- Contra uso de hidrocortisona IV se estabilidade hemodinâmica puder ser restaurada com fluidos + vasopressores
Recomendação 41 — Choque Refratário
- Evidência insuficiente para recomendar hidrocortisona IV quando instabilidade persiste apesar de fluidos + vasopressores
- Meta-análise recente (45 ECRs, 9.563 pacientes adultos + pediátricos): corticosteroides provavelmente reduzem mortalidade a curto prazo (RR 0,93; IC95% 0,88-0,99) e aumentam reversão de choque em 7 dias (RR 1,24; IC95% 1,11-1,38) — mas sem diferença de mortalidade em crianças especificamente
- Estudos observacionais pediátricos: sinal de possível dano (mortalidade aumentada em vários estudos)
- Grupo corticosteroide: menos dias livres de ventilador (DM -7 dias), maior permanência em UTIP (+5,33 dias) e hospital (+8,35 dias)
- PERSEVERE-II: corticosteroides associados a maior mortalidade em crianças com escore alto
- Importante: Corticosteroides de estresse devem ser administrados para insuficiência adrenal suspeita ou documentada
5.7 Endócrino e Metabólico
Recomendação 42 — Febre
- Evidência insuficiente para recomendar normotermia vs. abordagem permissiva
- Mudança de 2020 (antes: recomendação fraca para ambas abordagens)
- 1 ECR piloto: sem diferenças em mortalidade, duração de ventilação, suporte cardiovascular/renal
- Na prática: 25% sempre e 44% frequentemente tratam febre; 7% quase nunca
Recomendação 43 — Bicarbonato de Sódio (NOVA)
- Evidência insuficiente para acidemia metabólica
- 2 grandes estudos retrospectivos (7.460 crianças): sem associação com mortalidade após ajustes
- Subanalise: bicarbonato associado a menor mortalidade se hipercloremia (Cl > 113) + baixo anion gap (< 6), mas mortalidade aumentada se Cl < 107 e/ou anion gap > 12
- Na prática: 7% sempre, 38% às vezes, 37% raramente usam
- Indicações mais comuns: pH ≤ 7,10, LRA, hipercloremia ≥ 110 mEq/L com instabilidade hemodinâmica
Recomendação 44 — Cálcio
- Evidência insuficiente sobre normalizar calcemia vs. tolerar hipocalcemia
Recomendação 45 — Levotiroxina
- Recomendação condicional, baixa certeza
- Contra uso rotineiro em estado eutireoidiano do doente
5.8 Vitaminas e Suplementos
Recomendação 46 — Vitamina C (Ácido Ascórbico)
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Contra uso rotineiro
- ECR RESPOND PICU (60 crianças): vitamina C 30 mg/kg IV a cada 6h + tiamina 4 mg/kg IV a cada 12h + hidrocortisona 1 mg/kg IV a cada 6h — sem diferenças em desfechos
- ECR VITACiPS (218 crianças): vitamina C 25 mg/kg IV a cada 6h vs. placebo por 72h — sem diferenças no pSOFA, mortalidade 28 dias, ou reversão de choque
Recomendação 47 — Tiamina (Vitamina B1)
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Contra uso rotineiro
- Potencial benefício em hiperlactatemia sustentada (sem dados de alta qualidade)
- Considerar reposição em suspeita/documentação de deficiência (desnutrição, doença crônica)
Recomendação 48 — Vitamina D
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Contra reposição aguda na ausência de insuficiência clínica de vitamina D
5.9 Balanço Hídrico, TRS e Suporte Extracorpóreo
Recomendação 49 — Prevenção de Sobrecarga Hídrica (NOVA)
- GPS
- Razoável considerar medidas para prevenir administração excessiva de fluidos, monitorar ingesta total e considerar remoção ativa de fluidos após estabilidade hemodinâmica
- Monitorar alterações hemodinâmicas para evitar comprometer perfusão
- Na prática: 64% buscam balanço negativo após estabilidade (desmame de vasoativos + melhora perfusão); 31% buscam balanço negativo quando perfusão melhora independente de vasoativos; 58% consideram CRRT/ultrafiltração após tentativa de diuréticos
Recomendação 50 — Hemofiltração de Alto Volume (HVHF)
- Recomendação condicional, baixa certeza
- A favor de HVHF (> 35 mL/kg/h) sobre hemofiltração padrão (≤ 35 mL/kg/h)
- MUDANÇA IMPORTANTE: invertida em relação a 2020 (antes era contra HVHF)
- Meta-análise de 3 ECRs (195 crianças): menor mortalidade (RR 0,58; IC95% 0,34-0,98), menor duração de TRS (DM -1,2 dias)
- Todos os 3 ECRs usaram CVVH; extrapolação para outras modalidades é incerta
Recomendação 51 — Plasmaférese/PLEX para TAMOF
- Evidência insuficiente (sem novos estudos desde 2020)
- Estudo observacional prospectivo (81 crianças): PLEX associado a menor mortalidade 28 dias (aRR 0,45; IC95% 0,23-0,90)
- ECR pequeno (10 crianças): 5/5 sobreviveram com PLEX vs. 1/5 sem
- ASFA: "indicação categoria III" (benefício incerto) para PLEX em sepse com DMOS
Recomendação 52 — Purificação Sanguínea Extracorpórea (NOVA)
- Evidência insuficiente para tecnologias adsortivas
Recomendação 53 — ECMO Venovenoso
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Para hipóxia refratária apesar de outras terapias
Recomendação 54 — ECMO Venoarterial
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Terapia de resgate apenas se choque refratário a todos os outros tratamentos
5.10 Terapias Imunes
Recomendação 55 — Desmame de Imunossupressores (NOVA)
- Evidência insuficiente
- Evidência adulta sugere que em transplantados de órgão sólido, continuar imunossupressão pode ser associado a melhores desfechos
- Sem dados pediátricos; decisão individualizada
Recomendação 56 — IVIG
- Recomendação condicional, baixa certeza
- Contra uso rotineiro de IVIG
- Meta-análise de 9 estudos (3.973 neonatos): sem diferença em mortalidade ou incapacidade grave
- IgM-enriquecida: meta-análise de 15 estudos neonatal/pediátrico: OR 0,41 (IC95% 0,32-0,55) para mortalidade — mas inconsistente
- Exceções: imunodeficiências humorais primárias ou comorbidades imunossupressoras com níveis baixos de imunoglobulina documentados
Recomendação 57 — Estimulantes Imunes (NOVA)
- Evidência insuficiente para GM-CSF, interferon-γ ou anti-PD-L1 em leucopenia/imunoparalisia
- Exceto: seguir diretrizes ASCO para G-CSF/GM-CSF em crianças com câncer + neutropenia febril
Recomendação 58 — Terapias Imunossupressoras para Hiperferritinemia (NOVA)
- Evidência insuficiente para anakinra, etoposido, ciclosporina em sepse com hiperferritinemia
- Dados limitados a HLH/MAS em contexto reumatológico/oncológico, não em sepse
5.11 Seguimento de Longo Prazo
Recomendação 59 — Reabilitação Precoce (NOVA)
- Recomendação condicional, certeza muito baixa
- Implementar pacote de reabilitação precoce individualizado durante doença aguda
- Inclui: otimizar conforto, reduzir sedação, prevenir delirium, promover sono, facilitar liberação de ventilador, engajar famílias, mobilização progressiva
- Redução da duração de VM: DM -1 dia (ECR); DM -0,45 dias (observacionais)
- Menor risco de abstinência iatrogênica (RR 0,65; IC95% 0,49-0,87)
- Menor incidência de delirium (RR 0,85; IC95% 0,69-1,03)
- Segurança: eventos adversos em apenas 5% de 1.473 mobilizações
Recomendação 60 — Seguimento Pós-Hospitalar
- Evidência insuficiente para recomendar ou contraindicar seguimento dirigido
Recomendação 61 — Avaliação de Sequelas (NOVA)
- GPS
- Razoável:
- Avaliar fatores de risco para morbidade pós-sepse
- Educar paciente, família e clínicos sobre sintomas de morbidade pós-sepse
- Avaliar sequelas novas de longo prazo após alta hospitalar
- Fatores de risco para morbidade: maior gravidade de doença/disfunção orgânica, hospitalização prolongada, comorbidades crônicas pré-existentes, idade mais avançada (adolescentes), vulnerabilidades sociais
- Em cenários de baixos recursos: desnutrição, educação materna, acesso a água limpa, área rural
- Até 1/3 das crianças que sobrevivem à sepse sofrem sequelas físicas, cognitivas, emocionais e/ou sociais
6. POPULAÇÕES ESPECIAIS
Crianças Imunocomprometidas
- Terapia empírica multidrogas recomendada (Rec. 10)
- Decisão sobre desmame de imunossupressores deve ser individualizada (Rec. 55)
- Exceção IVIG: crianças com imunodeficiências humorais primárias ou baixos níveis de imunoglobulina documentados podem se beneficiar (Rec. 56)
- Crianças com câncer + neutropenia febril: seguir diretrizes ASCO para G-CSF/GM-CSF (Rec. 57)
Cenários com Recursos Limitados (sem UTI disponível)
- Sepse SEM hipotensão: contra bolus de fluidos — iniciar manutenção (Rec. 20 — recomendação FORTE, alta certeza)
- Choque séptico COM hipotensão: até 40 mL/kg em bolus (Rec. 21)
- Antibióticos devem ser dados o mais rápido possível quando avaliação oportuna é difícil (Rec. 8 — GPS)
- POCUS é acessível até em cenários com recursos limitados (Rec. 29)
- HVHF pode não estar disponível em todos os cenários
- PLEX pode não ser acessível
- Participação da família como estratégia custo-efetiva para reabilitação
Neonatos (≥ 37 semanas)
- Incluídos no escopo da diretriz
- Evidências específicas de ECR neonatal para procalcitonina (NeoPIns) e testes moleculares foram consideradas
Cenário Pré-Hospitalar
- Muitas recomendações aplicáveis, mas estudos focados necessários
- Atrasos no acesso a sistemas de saúde podem contribuir para morbidade/mortalidade, especialmente em cenários de baixos recursos
ALGORITMO RESUMIDO DE RESSUSCITAÇÃO INICIAL (Figura 2)
Passo 1: Reconhecimento
- Criança agudamente doente com suspeita de infecção
- Avaliar marcadores clínicos hemodinâmicos (GPS)
- Medir lactato (recomendação forte)
- Obter hemoculturas (GPS)
Passo 2: Antibioticoterapia
- Choque séptico suspeito: antimicrobianos em até 1 hora (forte)
- Sepse provável sem choque: investigação rápida → antimicrobianos em até 3 horas se sepse confirmada (condicional)
Passo 3: Fluidoterapia
- COM UTI disponível: até 40-60 mL/kg em bolus (10-20 mL/kg/bolus) na 1ª hora (condicional)
- SEM UTI + sem hipotensão: NÃO fazer bolus → manutenção (forte)
- SEM UTI + com hipotensão: até 40 mL/kg em bolus (condicional)
- Reavaliar após CADA bolus (GPS)
- Cristaloides balanceados preferidos (condicional)
- Descontinuar se choque resolver ou sobrecarga hídrica
Passo 4: Vasopressores
- Se choque persiste apesar de fluidos
- Iniciar por via periférica se CVC não disponível (condicional)
- Epinefrina ou norepinefrina (sem preferência)
- Considerar POCUS para guiar (condicional)
- Alvo SvcO₂ ≥ 70% se CVC disponível (condicional)
Passo 5: Choque Refratário
- Considerar vasopressina (condicional)
- Considerar hidrocortisona (evidência insuficiente — individualizar)
- Considerar ECMO VA como resgate final (condicional)
Passo 6: Pós-Ressuscitação
- SpO₂ alvo 88-92% (condicional, certeza moderada)
- Monitorar balanço hídrico / prevenir sobrecarga (GPS)
- Reabilitação precoce (condicional)
- Avaliar necessidade de HVHF se TRS indicado (condicional)




