Emergencia e Trauma2026

Atualizações do ATLS: Da 10ª para a 11ª Edição 2026: o que mudou na diretriz

Cai na prova 2026

1. A Revolução do xABCDE

A mudança mais impactante da 11ª edição é a introdução do "x" (eXsanguinating hemorrhage control) antes do tradicional ABCDE. Na 10ª edição, embora o controle hemorrágico fosse abordado em "C" (Circulation), a 11ª edição reconhece formalmente que hemorragias externas massivas — responsáveis por aproximadamente 50% das mortes traumáticas — exigem intervenção imediata antes mesmo da avaliação de vias aéreas.

Na prática clínica, isso significa que torniquetes e agentes hemostáticos devem ser aplicados em sangramentos arteriais externos antes de qualquer manipulação de via aérea. Este conceito já havia sido incorporado pelo PHTLS 9ª edição e pelo TCCC militar, sendo agora universalizado para o atendimento civil.

O restante da avaliação primária mantém a sequência conhecida:

  • A (Airway) com proteção cervical
  • B (Breathing) com ventilação
  • C (Circulation) com controle hemorrágico adicional
  • D (Disability) para avaliação neurológica
  • E (Exposure/Environment) para exposição completa e controle térmico

Resumo técnico

A diretriz na íntegra

1. A Revolução do xABCDE

A mudança mais impactante da 11ª edição é a introdução do "x" (eXsanguinating hemorrhage control) antes do tradicional ABCDE. Na 10ª edição, embora o controle hemorrágico fosse abordado em "C" (Circulation), a 11ª edição reconhece formalmente que hemorragias externas massivas — responsáveis por aproximadamente 50% das mortes traumáticas — exigem intervenção imediata antes mesmo da avaliação de vias aéreas.

Na prática clínica, isso significa que torniquetes e agentes hemostáticos devem ser aplicados em sangramentos arteriais externos antes de qualquer manipulação de via aérea. Este conceito já havia sido incorporado pelo PHTLS 9ª edição e pelo TCCC militar, sendo agora universalizado para o atendimento civil.

O restante da avaliação primária mantém a sequência conhecida:

  • A (Airway) com proteção cervical
  • B (Breathing) com ventilação
  • C (Circulation) com controle hemorrágico adicional
  • D (Disability) para avaliação neurológica
  • E (Exposure/Environment) para exposição completa e controle térmico

2. Nova Classificação do Choque Hemorrágico: De 4 Classes para 3 Categorias

Uma das mudanças mais significativas da 11ª edição é a simplificação radical da classificação de choque hemorrágico. O sistema anterior de 4 classes (I, II, III, IV) foi substituído por 3 categorias: Leve, Moderado e Grave.

Racional da Mudança

As classes III e IV da 10ª edição foram unificadas em "Grave" porque as condutas já eram essencialmente as mesmas (transfusão imediata, PTM). A nova classificação:

  • Foca no componente hemodinâmico
  • Adiciona lactato e base excess como parâmetros objetivos
  • Remove frequência respiratória e débito urinário da avaliação inicial (mais relevantes no CTI)

Comparativo: 10ª vs 11ª Edição

ATLS 10ª EdiçãoATLS 11ª Edição
Classe I, II, III, IVLeve, Moderado, Grave
FC, PA, FR, Débito urinário, Estado mentalFC, PAS, Estado mental, Perfusão, Lactato, Base Excess
Baseado em % de perda volêmicaBaseado em parâmetros hemodinâmicos e laboratoriais

Nova Classificação ATLS 11

ParâmetroLEVEMODERADOGRAVE
Equivalente anteriorClasse IClasse IIClasses III + IV
Frequência Cardíaca< 100 bpm> 100 bpm> 120 bpm
Pressão Arterial Sistólica> 100 mmHg< 100 mmHg< 90 mmHg
Estado MentalAlertaAnsioso/AgitadoConfuso/Letárgico
Perfusão TecidualMantidaAlteradaHipoperfusão grave
LactatoNormalAlteradoMuito elevado
Base ExcessNormalAlteradoMuito alterado

Conduta por Categoria

CategoriaConduta
LEVEObservação, realizar exames, paciente estável
MODERADOCristaloide, reserva de sangue, cogitar transfusão, monitorização intensiva, estabilizar antes de exames/transferência
GRAVEConduta imediata obrigatória: PTM, intervenção cirúrgica, drenagem de hemotórax/pneumotórax hipertensivo

Nota: O choque grave também pode ser chamado de "choque exsanguinante" (ainda em discussão na literatura).

O Conceito dos "Três Dígitos"

Para facilitar a memorização:

  • Quando a PAS cai abaixo de 100 (perde os três dígitos) e a FC sobe acima de 100 (ganha os três dígitos) → Paciente saiu do LEVE para o MODERADO
  • FC > 120 + PAS < 90 + rebaixamento neurológicoGRAVE = conduta imediata

Vantagens da Nova Classificação

  1. Simplificação: "A medicina é a ciência dos três" — mais fácil raciocinar em 3 segmentos do que em 4
  2. Objetividade: Lactato e base excess são mais fidedignos que frequência respiratória (afetada por dor, ansiedade)
  3. Foco hemodinâmico: Débito urinário é mais relevante no CTI/momentos secundários do que na avaliação inicial
  4. Orientação à conduta: Cada categoria direciona claramente a intensidade da intervenção
  5. Terminologia intuitiva: Leve/Moderado/Grave é mais fácil de lembrar que Classes I/II/III/IV

3. Manejo de Vias Aéreas: de RSI para DAI

A terminologia Rapid Sequence Intubation (RSI) foi substituída por Drug-Assisted Intubation (DAI) desde a 10ª edição, refletindo que nem toda intubação assistida por drogas deve seguir sequência rápida.

Videolaringoscopia

A videolaringoscopia recebe ênfase crescente na 11ª edição:

  • Taxas superiores de visualização glótica (Cormack-Lehane I/II)
  • Maior sucesso em pacientes obesos e com coluna cervical estabilizada in-line
  • Melhores resultados com operadores menos experientes

Importante: A videolaringoscopia não substitui a laringoscopia direta como método primário em trauma facial com sangue/secreções.

Pressão Cricoide (Manobra de Sellick)

Foi significativamente desenfatizada, devendo ser reduzida ou removida se dificultar a intubação. Evidências demonstram que:

  • Prejudica a visualização laringoscópica
  • Reduz a eficiência da ventilação com bolsa-válvula-máscara
  • Não previne aspiração de forma confiável

Cricotireoidostomia Cirúrgica

Permanece indicada em cenários CICV (Can't Intubate, Can't Ventilate), com limite de três tentativas de intubação mais uma adicional por profissional experiente antes da via aérea cirúrgica.


4. Reposição Volêmica: Abordagem Restritiva

A 11ª edição consolida a filosofia "menos é mais" para cristaloides:

Parâmetro10ª Edição11ª Edição
Bolus inicial cristaloide (adulto)1-2 LMáximo 1 L
Solução preferencialIsotônicaCristaloides balanceados (Ringer Lactato, Plasmalyte)
Soro fisiológico 0,9%AceitávelLimitado a 1-1,5 L (risco de acidose hiperclorêmica)
Bolus pediátrico (<40 kg)20 mL/kg20 mL/kg (mantido)

Hipotensão Permissiva

Formalmente endossada:

  • Alvo de PAS 80-90 mmHg (PAM 50-60 mmHg) em pacientes SEM TCE até controle do sangramento
  • Exceção: Pacientes com TCE grave (GCS ≤8) devem manter PAM ≥80 mmHg

5. Hemotransfusão e Protocolo de Transfusão Maciça

Proporção 1:1:1

A proporção 1:1:1 de concentrado de hemácias:plasma:plaquetas é fortemente enfatizada, baseada nos trials PROMMTT e PROPPR, que demonstraram:

  • Mortalidade 3-4 vezes maior com proporções <1:2 nas primeiras 24 horas
  • Redução de 25% na mortalidade por sangramento em 24 horas

Ativação do PTM

Critérios mais objetivos:

  • ABC Score ≥2
  • Índice de choque ≥0,9-1,0
  • Necessidade de >4 unidades no pronto-socorro

Sangue Total

O sangue total tipo O com baixo título (LTOWB) é reconhecido como opção para ressuscitação inicial.


6. Ácido Tranexâmico (TXA): Janela de 90 Minutos

A 11ª edição refina significativamente a janela terapêutica:

Janela temporalRecomendação
< 90 minutosBenefício máximo (RR ajustado 0,64)
90 min - 3 horasBenefício presente
> 3 horasCONTRAINDICADO — aumento paradoxal de sangramento/morte

Posologia

  • Adultos: 1g IV em 10 minutos (ataque) + 1g IV em 8 horas (manutenção)
  • Pediatria: 15 mg/kg (máx 1g) em bolus + 2 mg/kg/h em infusão

7. Coagulopatia Traumática e Testes Viscoelásticos

Definições Atualizadas

  • PTr > 1,2: Limiar de detecção de coagulopatia
  • PTr > 1,5: Coagulopatia grave
  • Hipofibrinogenemia: Limiar elevado de <1,0 g/L para <1,5 g/L, com alvo terapêutico de 1,5-2,0 g/L

Testes Viscoelásticos (TEG/ROTEM)

Condicionalmente recomendados para guiar transfusão:

Parâmetro TEG/ROTEMInterpretaçãoConduta
Tempo R prolongado / CT EXTEM >80sDeficiência de fatoresPFC ou CCP
MA <50mm / MCF <45mmProblema plaquetário/fibrinogênioPlaquetas ou fibrinogênio
A5-FIBTEM <10mmHipofibrinogenemiaConcentrado de fibrinogênio
LY30 ≥3% / LI30 <85%HiperfibrinóliseTXA

8. Trauma Torácico: Novos Sítios e Calibres

Descompressão por Agulha

ParâmetroPré-10ª Edição10ª/11ª Edição
Sítio (adultos)2º EIC linha hemiclavicular4º-5º EIC anterior à linha axilar média
Sítio (pediatria)2º EIC LHC2º EIC LHC (mantido)
Comprimento agulha5 cm5 cm (pequenos) / 8 cm (maiores)

A mudança baseia-se em taxas de falha de 22-50% com o sítio tradicional devido à espessura da parede torácica em adultos.

Dreno Torácico

Calibre reduzido de 36-40 French para 28-32 French para hemotórax.

Toracotomia de Emergência

Critérios mantidos:

  • Drenagem inicial >1.500 mL OU
  • Débito >200 mL/h por 2-4 horas

9. Trauma Cranioencefálico: Metas Pressóricas Estratificadas

Metas de Pressão Arterial por Idade

Faixa etáriaMeta de PAS
15-49 anos> 110 mmHg
50-69 anos> 100 mmHg
≥70 anos> 110 mmHg
Meta de PAM> 80 mmHg

Terapia Hiperosmolar

Solução salina hipertônica (HTS) condicionalmente recomendada sobre manitol para TCE, devido às vantagens de:

  • Expansão plasmática
  • Ausência de diurese
  • Manutenção/melhora da PAM

Hiperventilação

Não recomendada profilaticamente — apenas como medida temporária para crise aguda de PIC/herniação:

  • Alvo de PaCO2 30-35 mmHg
  • Evitar <25 mmHg, especialmente nas primeiras 24 horas

10. Populações Especiais

Trauma Pediátrico

  • Bolus de 20 mL/kg de cristaloide para pacientes <40 kg
  • Hemoderivados: 10-20 mL/kg de cada componente
  • Fórmula do tubo endotraqueal: (idade/4) + 4 para tubos sem cuff
  • Fita de Broselow para cálculos rápidos até 145 cm (~36 kg)
  • Queimados pediátricos: 3 mL × kg × %SCQ (vs. 2 mL para adultos)

Trauma Geriátrico

  • Idade de ativação do protocolo de trauma: reduzida de 65 para ≥55 anos
  • Avaliação de fragilidade com escala FRAIL:
    • Fadiga
    • Resistência (subir 1 lance de escadas)
    • Ambulação (caminhar 1 quarteirão)
    • Ilnesses (>5 comorbidades)
    • Loss of weight (perda >5%)
    • Pontuação: 0 = saúde boa; 1-2 = pré-frágil; 3-5 = frágil

Importante: Sinais fisiológicos tradicionais (FC, PA) são não confiáveis em idosos.

Trauma na Gestante

Posicionamento durante PCR

A inclinação lateral esquerda foi abandonada em favor de decúbito dorsal com deslocamento uterino manual (duas mãos empurrando o útero superior e para a ESQUERDA).

Histerotomia Ressuscitativa

A terminologia "cesárea perimortem" foi substituída por "histerotomia ressuscitativa":

  • 4 minutos: Iniciar preparação se sem RCE; começar procedimento
  • 5 minutos: Meta para conclusão do parto
  • Idade gestacional: ≥20 semanas (fundo uterino na/acima da cicatriz umbilical)

Não retardar para transporte ao centro cirúrgico ou coleta de equipamentos.


11. Modificações na Escala de Coma de Glasgow

  • "À voz" → "Ao som"
  • "À dor" → "À pressão"
  • Adição de "NT" (Não Testável) para componentes individuais

12. Terminologia da Coluna Vertebral

"Imobilização espinhal" foi substituída por "restrição de movimento espinhal", refletindo uso mais seletivo de colares e pranchas.

O exame retal digital não é mais necessário para detecção de próstata elevada.


13. Novos Capítulos na 11ª Edição

A estrutura foi reorganizada em três seções, com 6 novos capítulos:

  1. "Trauma Penetrante"
  2. "Sistemas de Trauma"
  3. "Prevenção de Lesões"
  4. "Cuidado Informado pelo Trauma e Determinantes Sociais de Saúde"
  5. "Comunicação de Notícias Graves em Cenário Agudo"
  6. Capítulos movidos dos apêndices: "Lesões Oculares" e "Lesões em Zonas de Combate/Ambientes Austeros"

14. Procedimentos Práticos Atualizados

Acesso Intraósseo (IO)

Recebe ênfase significativa como alternativa rápida:

  • Taxas de sucesso ~2x maiores que IV em pacientes criticamente hipotensos
  • Sítio primário: Tíbia proximal (1-2 cm abaixo da tuberosidade tibial)
  • Alternativo: Úmero proximal em adultos

Fixador Pélvico

Posicionado no nível dos trocânteres maiores (NÃO nas cristas ilíacas).

Avaliação dos "5 Ps":

  1. Pulsos
  2. Pênis
  3. Pockets
  4. Pain (Dor)
  5. Pulsos novamente

Handover MIST

Reforçado para comunicação inter-hospitalar:

  • Mecanismo
  • Injuries (Lesões)
  • Sinais/Sintomas
  • Tratamento realizado

Conclusão

A 11ª edição do ATLS consolida uma década de evolução em ressuscitação de controle de danos. Os pontos de maior impacto para a prática clínica imediata incluem:

  1. xABCDE: Priorização absoluta do controle hemorrágico externo
  2. Nova classificação de choque: Leve/Moderado/Grave com lactato e base excess
  3. Janela de 90 minutos para TXA (não apenas 3 horas)
  4. Metas pressóricas estratificadas por idade no TCE
  5. Posicionamento supino com deslocamento uterino manual na gestante em PCR
  6. Escala FRAIL para avaliação geriátrica
  7. Mudança do sítio de descompressão torácica para 4º-5º EIC linha axilar média

A mensagem central é clara: identificar rapidamente a gravidade do paciente e agir de acordo — o paciente grave exige conduta imediata, sem esperar exames ou transferências.


Documento elaborado com base nas atualizações oficiais do American College of Surgeons e revisões da literatura especializada em trauma.

Quer ver o que tende a cair sobre Atualizações do ATLS: Da 10ª para a 11ª Edição na sua prova?

Treine Atualizações do ATLS: Da 10ª para a 11ª Edição na medmentorIA com questões calibradas pela banca.

Sem cartão · Sem trial · Grátis de verdade