Ginecologia e Obstetricia2025

Recomendação para Reposição de Cálcio em Gestantes — RBEHG / CNE-Febrasgo 2025: o que mudou na diretriz

Cai na prova 2026
  • A publicação de uma nova metanálise Cochrane (Cluver et al., 2025) questionou a evidência que sustentava a suplementação rotineira de cálcio para prevenção de pré-eclâmpsia.

  • A metanálise anterior (Hofmeyr et al., 2018) era a base científica das recomendações da OMS e do Ministério da Saúde do Brasil.

  • A nova revisão, ao excluir estudos considerados não confiáveis (alto risco de viés), mostrou que o efeito protetor da suplementação de cálcio deixa de ser estatisticamente robusto.

  • Diante dessa incerteza, a RBEHG e a CNE emitiram posicionamento conjunto para orientar a prática clínica no Brasil.

  • A deficiência de cálcio no Brasil beira 100% da população (dados do IBGE).

  • Cerca de 2.400.000 nascimentos/ano no Brasil.

  • Aproximadamente 350 mortes/ano por HAS/Eclâmpsia.

  • Incidência estimada de HAS na gestação: 15% → ~360.000 potenciais usuárias de cálcio.

  • Estimativa: se houver redução de 67% na mortalidade (RR ≈ 0,33), evitariam-se ~235 mortes/ano; com adesão de 70%, evitariam-se ~165 mortes/ano.

O que mudou

6 mudanças que você precisa saber

  • Antes

    Cálcio ≥ 1 g/dia recomendado para prevenção de pré-eclâmpsia com evidência robusta

    Agora

    Evidência enfraquecida pela nova metanálise, mas recomendação mantida no Brasil (500–1.000 mg/dia)

  • Antes

    Benefício considerado robusto para prevenção universal

    Agora

    Suplementação universal rotineira NÃO mais sustentada; preferir abordagem direcionada

  • Antes

    Dose padrão ≥ 1 g/dia

    Agora

    Dose pode ser 500 a 1.000 mg/dia (baseado em Dwarkanath 2024 — não inferioridade de 500 mg)

  • Antes

    Prescrição exclusivamente médica

    Agora

    Nota Técnica 251/2024 do MS permite prescrição por enfermeiros e nutricionistas

  • Antes

    Efeito sobre mortalidade materna sugerido como benéfico

    Agora

    Efeito sobre mortalidade materna incerto (RR 0,33; IC 0,06–1,83; amostra insuficiente)

  • Antes

    Evidência considerada consolidada

    Agora

    Evidência em revisão — metanálise Cochrane 2025 ainda não concluída

Resumo técnico

A diretriz na íntegra

2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA

Por que esta recomendação foi publicada

  • A publicação de uma nova metanálise Cochrane (Cluver et al., 2025) questionou a evidência que sustentava a suplementação rotineira de cálcio para prevenção de pré-eclâmpsia.
  • A metanálise anterior (Hofmeyr et al., 2018) era a base científica das recomendações da OMS e do Ministério da Saúde do Brasil.
  • A nova revisão, ao excluir estudos considerados não confiáveis (alto risco de viés), mostrou que o efeito protetor da suplementação de cálcio deixa de ser estatisticamente robusto.
  • Diante dessa incerteza, a RBEHG e a CNE emitiram posicionamento conjunto para orientar a prática clínica no Brasil.

Relevância epidemiológica brasileira

  • A deficiência de cálcio no Brasil beira 100% da população (dados do IBGE).
  • Cerca de 2.400.000 nascimentos/ano no Brasil.
  • Aproximadamente 350 mortes/ano por HAS/Eclâmpsia.
  • Incidência estimada de HAS na gestação: 15% → ~360.000 potenciais usuárias de cálcio.
  • Estimativa: se houver redução de 67% na mortalidade (RR ≈ 0,33), evitariam-se ~235 mortes/ano; com adesão de 70%, evitariam-se ~165 mortes/ano.

3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES

Categorias de dose de cálcio suplementar

CategoriaDose
Dose alta≥ 1 g/dia (1.000 mg/dia)
Dose baixa500 mg/dia
Faixa recomendada pela RBEHG/CNE para o Brasil500 a 1.000 mg/dia

Classificação de populações-alvo

GrupoDefinição
Baixa ingesta de cálcioPopulações com ingestão dietética baixa de cálcio (no Brasil, quase universal)
Alto risco para pré-eclâmpsiaGestantes com fatores de risco identificados para pré-eclâmpsia
População geral de gestantesSuplementação universal rotineira — evidência recente NÃO sustenta benefício claro

4. EVIDÊNCIAS: COMPARAÇÃO ENTRE AS METANÁLISES

Hofmeyr et al. (2018) — Metanálise anterior

  • Conclusão: suplementação com cálcio ≥ 1 g/dia reduz o risco de pré-eclâmpsia, especialmente em mulheres com ingestão dietética baixa de cálcio.
  • Também demonstrou redução de parto pré-termo e de complicações maternas graves em algumas análises.
  • Efeito mais forte com doses ≥ 1 g/dia e em populações com baixa ingestão dietética.
  • Incluía muitos estudos com baixa casuística e alguns cluster-ECRs.
  • Observou pequeno aumento de síndrome HELLP em números absolutos (efeito raro), que não anulou os benefícios percebidos.
  • Discutiram possíveis vieses (pequeno-estudo / viés de publicação) mas mantiveram o efeito ao combinar os estudos disponíveis.
  • Serviu de base para recomendações da OMS e do Ministério da Saúde do Brasil.

Cluver et al. (2025) — Nova metanálise

  • Conclusão principal: após excluir estudos com alto risco de viés (baixo número de casos, sem registro prévio de protocolo de ECR em plataforma oficial), o efeito protetor da suplementação de cálcio desaparece.
  • Incorporou ensaios maiores e mais recentes, incluindo estudos multicêntricos com grande casuística.
  • Realizou análises de sensibilidade excluindo estudos de baixa confiança, o que mudou substancialmente o efeito global.
  • O sinal geral de benefício enfraqueceu quando estudos não confiáveis foram removidos.
  • Chamou atenção para incerteza sobre segurança quando o benefício é incerto.
  • Efeito sobre mortalidade materna: considerado incerto — RR = 0,33 (IC 95%: 0,06 – 1,83) com denominador para 10.000 nascimentos, mas com amplo intervalo de confiança e baseado em apenas 3 ECRs (9.430 pacientes) — amostra insuficiente, pois mortalidade materna se mede por 100.000 nascimentos.
  • Dos 20 ensaios incluídos na metanálise anterior (Hofmeyr 2018), 11 foram excluídos por mudança de critérios de elegibilidade e 9 estão aguardando classificação por problemas de confiabilidade → a metanálise ainda não está concluída e pode ser revista.

Tabela comparativa

AspectoHofmeyr et al. (2018)Cluver et al. (2025)
Efeito sobre pré-eclâmpsiaRedução significativa (especialmente com ≥1 g/dia e baixa ingesta)Efeito desaparece ao excluir estudos com alto risco de viés
Efeito sobre parto pré-termoRedução em algumas análisesSinal enfraquecido
Efeito sobre mortalidade maternaSugerido benefícioIncerto: RR 0,33 (IC 0,06–1,83); apenas 3 ECRs, amostra insuficiente
Síndrome HELLPPequeno aumento em números absolutos (raro)Incerteza sobre segurança
Qualidade dos estudos incluídosMuitos com baixa casuística; vieses discutidos mas mantidosExcluídos estudos sem registro prévio e com baixa casuística
Análises de subgrupos (baixa ingesta)Efeito protetor mais forteSinal presente mas enfraquecido
StatusCompletaNão concluída (9 estudos aguardando classificação)

5. DADOS SOBRE O MOMENTO DE INÍCIO DA SUPLEMENTAÇÃO

Limitação importante: maioria dos estudos iniciou cálcio na segunda metade da gestação

EstudoInício da suplementação (IG em semanas)
Belizan 198315 semanas
Belizan 199120 semanas
Crowther 199918 semanas
Levine 199717 semanas
Villar 198726 semanas
Villar 199023 semanas
Goldberg 201320 semanas
Dwarkanath 2024< 20 semanas (1/3 < 13 semanas)

Conclusão: não há informações robustas sobre a eficácia da suplementação iniciada desde o início da gestação — vale tanto para populações com cálcio dietético suficiente quanto insuficiente, e para alto ou baixo risco de pré-eclâmpsia.


6. CÁLCULO DE PODER ESTATÍSTICO PARA MORTALIDADE MATERNA

  • Risco basal de mortalidade materna no grupo placebo: ~0,15%
  • Redução estimada (RR ≈ 0,33): 67%
  • Alfa: 0,05; Poder: 80%
  • Tamanho amostral necessário: ~15.700 gestantes por grupo
  • Estudos disponíveis: apenas ~9.430 pacientes em 3 ECRs → amostra insuficiente

7. ESTUDO DWARKANATH et al. (2024)

  • Demonstrou não inferioridade de doses baixas (500 mg/dia) em relação a doses altas de cálcio.
  • Já parcialmente incorporado em protocolos nacionais que sugerem 1 g/dia de suplementação.
  • Reforça a possibilidade de uso de doses menores (500 mg/dia).

8. NOTA TÉCNICA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE (Nº 251/2024)

  • Representou um avanço ao considerar a atividade multiprofissional na atenção pré-natal.
  • Abriu oportunidade de prescrição de cálcio por profissionais não médicos (enfermeiros e nutricionistas).
  • Objetivo: garantir intervenção oportuna colocando em pauta a questão nutricional e o risco de pré-eclâmpsia.

9. RECOMENDAÇÃO FINAL DA RBEHG/CNE-FEBRASGO

Posicionamento oficial (dezembro de 2025):

Para a população brasileira, NÃO SE DEVE MUDAR a diretriz de reposição de cálcio (500 a 1.000 mg/dia) em gestantes identificadas com alto risco para pré-eclâmpsia e/ou com baixa ingesta de cálcio.

Justificativas:

  1. A deficiência de cálcio no Brasil beira 100% da população (IBGE).
  2. A mortalidade materna por hipertensão arterial ainda é alta no Brasil.
  3. A metanálise de Cluver et al. (2025) ainda não está concluída (9 estudos aguardando classificação).
  4. Plausibilidade biológica e evidência histórica ainda sustentam a recomendação em contextos de baixo consumo alimentar de cálcio.
  5. Ambas as revisões não mostram efeitos adversos robustos.

Posicionamentos específicos:

CenárioRecomendação
Gestantes com alto risco para pré-eclâmpsiaManter reposição de cálcio 500–1.000 mg/dia
Gestantes com baixa ingesta de cálcioManter reposição de cálcio 500–1.000 mg/dia
Suplementação universal rotineira para TODAS as gestantesEvidência recente NÃO sustenta benefício claro; políticas universais devem ser reavaliadas; preferir abordagens direcionadas

Ressalvas:

  • Recomendação pode ser revista a qualquer momento após publicações mais robustas ou revisão da metanálise.
  • Aguardam posicionamento de OMS e Ministério da Saúde do Brasil.
  • Discordam da afirmação de Cluver et al. (2025) de que o tema esteja encerrado.

Necessidades de pesquisa futura:

  • ECRs bem desenhados, transparentes, com registro prévio
  • Boa adesão documentada
  • Descrição clara de ingestão dietética basal de cálcio
  • Início precoce da reposição
  • Avaliação de concentrações basais de cálcio
  • Avaliação rígida de desfechos clínicos
  • Casuísticas maiores

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Pontos de prova — alta probabilidade

7 pontos que tendem a cair na prova

Outros pontos relevantes

  • 01

    A dose recomendada de cálcio para gestantes brasileiras com risco de pré-eclâmpsia é de 500 a 1.000 mg/dia — questões que trazem ≥ 1.500 mg/dia ou ≥ 2 g/dia como resposta podem estar desatualizadas.

  • 02

    A suplementação universal de cálcio para TODAS as gestantes NÃO é mais sustentada por evidências robustas — a recomendação é DIRECIONADA (alto risco para PE e/ou baixa ingesta de cálcio).

  • 03

    No Brasil, a deficiência de cálcio beira 100% da população — isso justifica a manutenção da recomendação mesmo diante de incerteza na evidência global.

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Da diretriz pra prova

Como isso cai na sua prova

A diretriz de Recomendação para Reposição de Cálcio em Gestantes — RBEHG / CNE-Febrasgo tem peso direto em 45 das 45 bancas que a medmentorIA acompanha — abaixo, as 5 que mais cobram Ginecologia e Obstetricia.

Predições são estimativas geradas pela IA M.A.E.S.T.R.O.® — não substituem o edital oficial da banca.

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