2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA
Por que a diretriz foi publicada
- A SOP (PCOS) afeta 170 milhões de mulheres em idade reprodutiva mundialmente (1 em cada 8 mulheres).
- O termo "síndrome dos ovários policísticos" é inaccurate (impreciso) e enganoso:
- Implica a presença de cistos ovarianos patológicos, que NÃO são uma característica da condição (há desenvolvimento folicular interrompido, não cistos patológicos).
- Reflete apenas um órgão (ovário), embora a doença seja multissistêmica (endócrina, metabólica, reprodutiva, psicológica, dermatológica).
- Até 70% das pessoas afetadas permanecem sem diagnóstico.
- Causa atraso diagnóstico, lacunas de conhecimento, insatisfação do paciente, estigma e fragmentação de pesquisa/políticas.
- Em 2012, o NIH (Evidence-based Methodology Workshop) já havia recomendado mudança de nome.
- Em surveys longitudinais, 84% dos respondentes endossaram um processo de consenso global para identificar e implementar novo nome.
O que mudou
MUDANÇA PRINCIPAL: O nome da síndrome dos ovários policísticos (SOP / PCOS) foi oficialmente alterado para POLYENDOCRINE METABOLIC OVARIAN SYNDROME (PMOS) — Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina.
- Antes: Polycystic Ovary Syndrome (PCOS) / Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP)
- Agora: Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (PMOS)
3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES
Nova nomenclatura
- PMOS — Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina)
- O termo "polycystic" foi removido pois implica cistos ovarianos patológicos que não existem na condição.
- Os três termos prioritários combinados refletem a fisiopatologia multissistêmica:
- Polyendocrine (poliendócrina): distúrbios em insulina, andrógenos, hormônios neuroendócrinos e ovarianos
- Metabolic (metabólica): obesidade, disglicemia, DM2, hipertensão, dislipidemia, MASLD, doença cardiovascular, apneia do sono
- Ovarian (ovariana): disfunção ovariana, distúrbios endócrinos, foliculares e ovulatórios
Critérios diagnósticos (mantidos da Diretriz Internacional 2023)
Diagnóstico após exclusão de outras condições, exigindo pelo menos 2 de 3 critérios em adultos (≥20 anos):
- Oligo-anovulação
- Hiperandrogenismo clínico ou bioquímico
- Ovários policísticos no ultrassom OU AMH (hormônio anti-Mülleriano) elevado
Em adolescentes (10–19 anos): requer presença obrigatória dos dois primeiros critérios (1 e 2). NÃO se usa ultrassom nem AMH para diagnóstico em adolescentes.
Características clínicas multissistêmicas
| Sistema | Manifestações |
|---|---|
| Metabólico | Obesidade, disglicemia, DM2, hipertensão, dislipidemia, MASLD, doença cardiovascular, apneia do sono |
| Reprodutivo | Distúrbios ovulatórios, ciclos irregulares, infertilidade, complicações da gravidez, câncer de endométrio |
| Psicológico | Depressão, ansiedade, baixa qualidade de vida, transtornos alimentares |
| Dermatológico | Acne, alopécia, hirsutismo |
4. DIAGNÓSTICO
Fisiopatologia (base para o novo nome)
- Origem poligênica confirmada por meta-análises genômicas, envolvendo vias neuroendócrinas, metabólicas e reprodutivas.
- Hiperandrogenismo: característica endócrina/diagnóstica definidora, com andrógenos ovarianos e adrenais elevados.
- Anormalidades neuroendócrinas centrais:
- Aumento da pulsatilidade de GnRH
- Elevação de LH (hormônio luteinizante) que estimula produção excessiva de andrógenos ovarianos
- Resistência à insulina e hiperinsulinemia compensatória:
- Presentes em 85% das pessoas afetadas
- Presentes em 75% das mulheres magras (IMC ≤25 kg/m²) com PMOS
- Amplificam secreção de andrógenos e disregulam esteroidogênese
- AMH elevado: agora incluído nos critérios diagnósticos em adultos
- Disfunção ovariana: acúmulo de pequenos folículos antrais (aparência ultrassonográfica clássica)
Risco cardiovascular (dados quantitativos)
Comparado a mulheres sem PMOS (predominantemente pré-menopausa):
| Desfecho | Odds Ratio |
|---|---|
| Doença cardiovascular composta | 1,68 |
| Infarto do miocárdio | 2,50 |
| AVC | 1,71 |
5. TRATAMENTO
A diretriz é de nomenclatura/Health Policy, não modifica recomendações terapêuticas específicas. Mantém alinhamento com a International Evidence-based Guideline 2023 (já utilizada em 195 países), próxima atualização prevista para 2028.
Linhas de tratamento referenciadas
- Intervenções de estilo de vida: primeira linha para manejo de peso
- Tratamento farmacológico para obesidade: meta-análise sistemática mostrou benefício clínico
- Cirurgia bariátrica: benefício documentado, incluindo o ensaio BAMBINI (Lancet 2024) que demonstrou indução de ovulação espontânea
- Manejo de hiperandrogenismo, irregularidade menstrual, infertilidade e risco cardiometabólico segue a diretriz internacional 2023.
6. POPULAÇÕES ESPECIAIS
Adolescentes (10–19 anos)
- Diagnóstico exige presença de ambos os critérios: oligo-anovulação E hiperandrogenismo.
- NÃO usar ultrassom ovariano nem AMH para diagnóstico nessa faixa etária.
Adultos (≥20 anos)
- Requer pelo menos 2 dos 3 critérios (incluindo possibilidade de uso de AMH ou USG).
Mulheres magras (IMC ≤25 kg/m²)
- 75% têm resistência à insulina intrínseca (mesmo sem obesidade).
Pós-menopausa
- Termos como "ovulatory" foram descartados pois não se aplicam após menopausa.
- O termo "ovarian" foi escolhido por abranger disfunções endócrinas, foliculares e ovulatórias ao longo da vida.
Gestantes
- Risco aumentado de complicações na gravidez (combinação de distúrbios endócrinos + características metabólicas).
- Diabetes gestacional aumentada.
Considerações culturais
- Termo "reprodutivo" foi evitado pelo potencial de estigma em culturas em que fertilidade tem alto valor social.




