2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA
Carga de doença
- Globalmente: 570 mil novos casos/ano de câncer de colo do útero; 311 mil óbitos associados ao HPV.
- Brasil (INCA): ~17 mil novos casos/ano; ~7 mil óbitos/ano. É o 3º tumor mais incidente em mulheres e a 4ª causa de morte por câncer feminino.
- POP-Brasil (16–25 anos): prevalência de HPV de 52,3% a 63,5% (qualquer tipo) e 39,8% a 53,1% (tipos oncogênicos de alto risco).
Genótipos
- HPV 16 e 18: ~71% dos cânceres de colo do útero e mais da metade dos demais cânceres HPV-associados.
- HPV 6 e 11: ~90% das verrugas genitais.
Justificativa da incorporação
- Risco de persistência/recorrência após tratamento de NIC 2/3 de até 17%.
- Procedimentos excisionais repetidos aumentam complicações ginecológicas/obstétricas: parto prematuro, ruptura prematura de membranas (RPMO), estenose cervical.
- Estudo populacional sueco com >130 mil mulheres tratadas por NIC 3: risco aumentado de câncer cervical invasivo persistente por mais de 25 anos, especialmente em mulheres com >50 anos.
O que muda
- ANTES: Vacina HPV no SUS direcionada principalmente a 9–14 anos, PVHIV, imunossuprimidos, vítimas de violência sexual.
- AGORA: Inclusão adicional de mulheres tratadas por NIC 2+ e AIS como grupo prioritário, independentemente da idade.
3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES
Lesões precursoras do câncer de colo (NIC)
| Classificação | Equivalência | Significado |
|---|---|---|
| NIC I | LSIL (baixo grau) | Lesão de baixo grau |
| NIC II | HSIL (alto grau) | Lesão de alto grau |
| NIC III | HSIL (alto grau) | Lesão de alto grau |
| AIS | Adenocarcinoma in situ | Lesão glandular precursora |
- NIC 2+ = NIC 2, NIC 3 e AIS (lesões intraepiteliais escamosas de alto grau – HSIL e lesão glandular AIS).
- Tratamento padrão: procedimento excisional (LEEP – Loop Electrosurgical Excision Procedure / conização).
4. DIAGNÓSTICO (Pressuposto para indicação)
- Diagnóstico histopatológico de NIC 2, NIC 3 ou AIS, confirmando lesão de alto grau.
- Necessário registro do CID correspondente ao diagnóstico para acesso à vacina nas unidades do SUS.
- Necessária prescrição médica.
5. TRATAMENTO – ESQUEMA DE VACINAÇÃO
Público-alvo
- Mulheres tratadas por lesões intraepiteliais cervicais de alto grau (NIC 2+ e AIS) submetidas a procedimento excisional do colo do útero (LEEP/conização).
Indicação
- Independentemente da idade.
Momento da vacinação
- No mesmo ano do procedimento.
- Pode ser realizada no período perioperatório OU até 12 meses após o tratamento.
Esquema vacinal
- TRÊS doses: 0, 2 e 6 meses.
Local de aplicação
- Unidades de vacinação do SUS, mediante prescrição médica e registro do CID correspondente.
Registro
- Registrar na estratégia especial de vacinação, com CID correspondente (NIC 2, NIC 3 ou AIS).
Benefícios esperados
- Prevenção de infecção por outros tipos de HPV contidos na vacina.
- Prevenção da disseminação do HPV para regiões adjacentes à lesão inicial e outros sítios anatômicos.
- Redução do risco de recorrência de lesões cervicais de alto grau.
- Diminuição da necessidade de procedimentos repetidos.
- Redução de complicações ginecológicas e obstétricas.
- Fortalecimento das ações integradas de controle do câncer do colo do útero.
- Maior equidade em saúde.
Aspectos operacionais
- Articulação entre serviços de diagnóstico/tratamento de lesões cervicais e unidades de vacinação.
- Orientação às equipes sobre indicação e necessidade de rastreamento a longo prazo (a vacina NÃO substitui o seguimento).
- Oferta em unidades com sala de vacina ativa.
- Registro nos sistemas de informação do PNI.
- Manutenção do seguimento clínico das mulheres tratadas conforme protocolos vigentes.
6. POPULAÇÕES ESPECIAIS
- Sem restrição de idade: a indicação se aplica a qualquer mulher tratada por NIC 2+/AIS, ampliando o acesso para além das faixas etárias tradicionalmente atendidas pelo PNI (9–14 anos).
- Mulheres acima de 50 anos: especial atenção pelo risco aumentado e persistente de câncer cervical invasivo por mais de 25 anos pós-tratamento.
Comparativo internacional
| País | Recomendação |
|---|---|
| Espanha (desde 2018) | Vacinação após conização, independentemente da idade, 3 doses |
| Irlanda | Vacinação de resgate para mulheres com histórico de tratamento de lesões cervicais (≥ NIC I), <45 anos, até 48 meses após o procedimento |
| Chile | Vacinação para lesão cervical de alto grau: 1ª dose no dia da intervenção, 2ª após 1 mês, 3ª após 3 meses, seguimento de 24 meses |
| Brasil (NT 32/2026) | NIC 2+/AIS, independente da idade, 3 doses (0, 2, 6 meses), perioperatório ou até 12 meses após tratamento |




