Cardiologia2025

Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose 2025: o que mudou na diretriz

Cai na prova 2026
  • A doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) permanece como principal causa de morte no Brasil e no mundo
  • A DCVA está aumentando em países de baixa e média renda, manifestando-se cerca de uma década mais cedo que em países de alta renda
  • O aumento da obesidade e diabetes resulta frequentemente em dislipidemia (queda HDL-c, aumento não-HDL-c e triglicérides)
  • Apenas 14,4% dos pacientes com doença aterosclerótica no Brasil apresentam LDL-c < 50 mg/dL (registro NEAT)
  • Apenas 6,19% fazem uso de estatina de alta intensidade + ezetimiba
  • No programa Estratégia de Saúde da Família, somente 6,7% dos adultos pós-infarto ou AVC usavam estatina e 0,6% estatina em alta dose

A diretriz de 2025 atualiza e expande os conceitos da versão de 2017 com as seguintes inovações principais:

  1. Foco ampliado: Da dislipidemia isolada para a prevenção da aterosclerose ao longo de toda a vida
  2. Nova categoria de risco: Reconhecimento formal do risco cardiovascular extremo (LDL-c alvo < 40 mg/dL)
  3. Novo escore de risco: Adoção do escore PREVENT como ferramenta preferencial de estratificação
  4. Dosagem universal de Lp(a): Recomendada uma vez na vida para todos os adultos
  5. Não-HDL-c como meta coprimária: Junto ao LDL-c
  6. ApoB como meta secundária
  7. Terapia combinada precoce: Como opção inicial em pacientes de alto, muito alto ou extremo risco
  8. Meta de LDL-c < 115 mg/dL para baixo risco
  9. Fórmula de Martin/Hopkins: Substituiu oficialmente a fórmula de Friedewald para cálculo do LDL-c
  10. Manejo estruturado da intolerância às estatinas com algoritmos claros

O que mudou

20 mudanças que você precisa saber

  • Antes

    Sem categoria de risco extremo

    Agora

    Nova categoria de risco cardiovascular extremo com meta de LDL-c < 40 mg/dL

  • Antes

    Meta de LDL-c para baixo risco: < 130 mg/dL

    Agora

    Meta de LDL-c para baixo risco: < 115 mg/dL

  • Antes

    Não-HDL-c era meta secundária

    Agora

    Não-HDL-c é meta coprimária junto ao LDL-c

  • Antes

    ApoB sem papel definido nas metas

    Agora

    ApoB é meta secundária com valores definidos por categoria de risco

  • Antes

    Sem recomendação de dosagem universal de Lp(a)

    Agora

    Dosagem de Lp(a) recomendada uma vez na vida para todos os adultos

  • Antes

    Uso do escore de Framingham ou PCE

    Agora

    Uso do escore PREVENT como ferramenta preferencial (30-79 anos)

  • Antes

    Fórmula de Friedewald para cálculo de LDL-c

    Agora

    Fórmula de Martin/Hopkins recomendada para todos

  • Antes

    Estatina de alta intensidade como base

    Agora

    Terapia combinada precoce (estatina + ezetimiba ± anti-PCSK9) como opção inicial em alto/muito alto/extremo risco

  • Antes

    Terapia escalonada (step-up approach)

    Agora

    Conceito de "tratamento hipolipemiante de alta intensidade" com combinação desde o início

  • Antes

    Inclusão de inclusirana apenas como perspectiva futura

    Agora

    Inclisirana formalmente recomendada como alternativa aos anticorpos monoclonais anti-PCSK9

  • Antes

    Ácido bempedoico sem recomendação formal

    Agora

    Ácido bempedoico recomendado para intolerantes a estatinas com evidência de redução de eventos CV (CLEAR Outcomes)

  • Antes

    Estratificação do DM simplificada

    Agora

    Estratificação detalhada em 4 categorias (intermediário/alto/muito alto/extremo) com estratificadores específicos (EAR e EMAR)

  • Antes

    Sem recomendação específica sobre efeito nocebo

    Agora

    Reconhecimento explícito do efeito nocebo como causa de pseudointolerância a estatinas

  • Antes

    Sem recomendação sobre espiritualidade

    Agora

    Abordagem de espiritualidade e religiosidade recomendada na consulta médica (CONDICIONAL)

  • Antes

    Estatinas contraindicadas em gestação sem exceção

    Agora

    Para gestantes de muito alto risco, individualização terapêutica e reinício no 3º trimestre pode ser considerado (decisão compartilhada)

  • Antes

    Divisão binária prevenção primária/secundária

    Agora

    Conceito de contínuo de risco cardiovascular ao longo da vida

  • Antes

    Sem menção a fatores agravantes específicos das mulheres

    Agora

    Lista detalhada de fatores agravantes específicos das mulheres (menarca, gestação, menopausa, abortos)

  • Antes

    Lp(a) > 180 mg/dL sem classificação específica

    Agora

    Lp(a) > 180 mg/dL (> 390 nmol/L) classifica diretamente como alto risco

  • Antes

    Vitamina D e CoQ10 como opções para SMRE

    Agora

    Contra suplementação de vitamina D e CoQ10 para mitigar SMRE

  • Antes

    Fenofibrato para retinopatia diabética sem destaque

    Agora

    Fenofibrato recomendado para redução da progressão da retinopatia diabética leve (estudo LENS)

Resumo técnico

A diretriz na íntegra

2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA

Por que esta diretriz foi publicada

  • A doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) permanece como principal causa de morte no Brasil e no mundo
  • A DCVA está aumentando em países de baixa e média renda, manifestando-se cerca de uma década mais cedo que em países de alta renda
  • O aumento da obesidade e diabetes resulta frequentemente em dislipidemia (queda HDL-c, aumento não-HDL-c e triglicérides)
  • Apenas 14,4% dos pacientes com doença aterosclerótica no Brasil apresentam LDL-c < 50 mg/dL (registro NEAT)
  • Apenas 6,19% fazem uso de estatina de alta intensidade + ezetimiba
  • No programa Estratégia de Saúde da Família, somente 6,7% dos adultos pós-infarto ou AVC usavam estatina e 0,6% estatina em alta dose

Mudanças em relação à versão anterior (2017)

A diretriz de 2025 atualiza e expande os conceitos da versão de 2017 com as seguintes inovações principais:

  1. Foco ampliado: Da dislipidemia isolada para a prevenção da aterosclerose ao longo de toda a vida
  2. Nova categoria de risco: Reconhecimento formal do risco cardiovascular extremo (LDL-c alvo < 40 mg/dL)
  3. Novo escore de risco: Adoção do escore PREVENT como ferramenta preferencial de estratificação
  4. Dosagem universal de Lp(a): Recomendada uma vez na vida para todos os adultos
  5. Não-HDL-c como meta coprimária: Junto ao LDL-c
  6. ApoB como meta secundária
  7. Terapia combinada precoce: Como opção inicial em pacientes de alto, muito alto ou extremo risco
  8. Meta de LDL-c < 115 mg/dL para baixo risco
  9. Fórmula de Martin/Hopkins: Substituiu oficialmente a fórmula de Friedewald para cálculo do LDL-c
  10. Manejo estruturado da intolerância às estatinas com algoritmos claros

3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES

3.1. Classificação do Risco Cardiovascular (5 Categorias)

CategoriaDefinição
BaixoEscore de risco < 5% em 10 anos, sem agravantes, sem DM2
IntermediárioEscore 5 a < 20% em 10 anos sem agravantes; OU risco baixo COM agravante; OU DM2 < 50 anos (H) ou < 56 anos (M) sem estratificadores; OU LDL-c 160-189 mg/dL
AltoEscore ≥ 20% em 10 anos; OU intermediário COM agravante; OU aterosclerose subclínica (placa carotídea < 50%, CAC > 100 UA ou percentil > 75, placas em angioTC < 50%, AAA); OU LDL-c ≥ 190 mg/dL; OU DM2 ≥ 50 anos (H) ou ≥ 56 anos (M) com 1-2 EAR sem EMAR; OU Lp(a) > 180 mg/dL (> 390 nmol/L)
Muito altoDCVA significativa (obstrução ≥ 50%) ou evento aterosclerótico prévio; OU CAC > 300 UA; OU DM2 com EMAR ou ≥ 3 EAR
ExtremoMúltiplos eventos CV ateroscleróticos maiores OU 1 evento maior + ≥ 2 condições de alto risco

3.2. Critérios para Risco Cardiovascular Extremo

Eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores:

  • SCA recente (últimos 12 meses)
  • Histórico de IAM
  • Histórico de AVC isquêmico
  • DAP sintomática (claudicação com ITB < 0,85, revascularização ou amputação prévia)

Condições de alto risco:

  • Idade ≥ 65 anos
  • Hipercolesterolemia familiar
  • Histórico de CRM ou ICP anterior fora do evento maior
  • Diabetes mellitus
  • Hipertensão arterial
  • DRC (TFGe 15-59 mL/min/1,73 m²)
  • Tabagismo atual
  • LDL-c persistentemente ≥ 100 mg/dL apesar de estatina máxima tolerada + ezetimiba
  • Evento agudo aterosclerótico com menos de 2 anos

3.3. Fatores Agravantes do Risco Cardiovascular

CategoriaDefinição
História familiar de DCV prematuraParente de 1º grau com evento < 55 anos (H) ou < 65 anos (M)
Adiposidade e manifestaçõesAdiposidade, esteatose hepática (especialmente com fibrose), síndrome metabólica
Condições inflamatórias crônicasAR, psoríase, LES, DII (retocolite e Crohn), HIV
Transplante de órgãosCoração, fígado, rim
Fatores específicos das mulheresMenarca precoce (≤ 12 anos) ou tardia (≥ 17 anos), pré-eclâmpsia/eclâmpsia/HAS gestacional/DM gestacional, parto prematuro, RCIU, abortos de repetição (≥ 3), menopausa precoce (< 40 anos)
Lipoproteína(a)≥ 50 mg/dL ou ≥ 125 nmol/L
PCR ultrassensível≥ 2,0 mg/L

3.4. Classificação da Hipercolesterolemia Familiar

Critérios para suspeita clínica forte de HF (teste genético indicado):

Para crianças:

  • LDL-c persistente ≥ 160 mg/dL + familiar de 1º grau afetado ou DAC prematura, ou quando histórico familiar indisponível
  • LDL-c persistente ≥ 190 mg/dL mesmo sem histórico familiar positivo

Para adultos:

  • LDL-c persistente ≥ 190 mg/dL + familiar de 1º grau afetado ou DAC prematura, ou quando histórico familiar indisponível
  • LDL-c persistente ≥ 250 mg/dL mesmo sem histórico familiar positivo

Prevalência de HF no Brasil (ELSA-Brasil):

  • Geral: 1 em 263
  • Mulheres: 1 em 244
  • Homens: 1 em 333
  • Pardos: 1 em 204
  • Pretos: 1 em 156
  • Brancos: 1 em 417

3.5. Definição de DAC Prematura

  • Homens: < 55 anos
  • Mulheres: < 65 anos

3.6. Valores Referenciais do Perfil Lipídico

ParâmetroJejum (12h)Sem jejumCategoria
Colesterol Total< 190 mg/dL< 190 mg/dL
Triglicérides< 150 mg/dL< 175 mg/dL
HDL-c> 40 mg/dL> 40 mg/dL
LDL-c< 115 mg/dL< 115 mg/dLBaixo
< 100 mg/dL< 100 mg/dLIntermediário
< 70 mg/dL< 70 mg/dLAlto
< 50 mg/dL< 50 mg/dLMuito alto
< 40 mg/dL< 40 mg/dLExtremo
Não-HDL-c< 145 mg/dL< 145 mg/dLBaixo
< 130 mg/dL< 130 mg/dLIntermediário
< 100 mg/dL< 100 mg/dLAlto
< 80 mg/dL< 80 mg/dLMuito alto
< 70 mg/dL< 70 mg/dLExtremo
ApoB< 100 mg/dL< 100 mg/dLBaixo
< 90 mg/dL< 90 mg/dLIntermediário
< 70 mg/dL< 70 mg/dLAlto
< 55 mg/dL< 55 mg/dLMuito alto
< 45 mg/dL< 45 mg/dLExtremo
Lp(a)< 75 nmol/L (< 30 mg/dL)< 75 nmol/L (< 30 mg/dL)Estratificação de risco (sem meta definida)

3.7. Classificação da Intolerância às Estatinas (SMRE 0-6)

PadrãoDescrição
SMRE 0Elevação assintomática de CK até 3x LSN
SMRE 1Mialgia tolerável (CK < 3x LSN ou 3-7x LSN sem sintomas)
SMRE 2Mialgia intolerável com ou sem elevação de CK
SMRE 3Miopatia moderada (CK 3-10x LSN com sintomas)
SMRE 4Miopatia grave (CK > 7x LSN sem melhora após suspensão)
SMRE 5Rabdomiólise (CK > 10x LSN com disfunção renal e sintomas OU CK > 50x LSN assintomático)
SMRE 6Miopatia necrotizante autoimune (anticorpos anti-HMGCR, CK > 2000 UI/L persistente)

3.8. Escore de Moulin para Síndrome da Quilomicronemia Familiar

CritérioEscore
TG em jejum > 885 mg/dL em ≥ 3 dosagens consecutivas+5
TG em jejum > 1770 mg/dL em pelo menos 1 ocasião+1
TG prévio < 177 mg/dL em pelo menos 1 ocasião-5
Ausência de fatores secundários+2
História de pancreatite+1
Dor abdominal recorrente inexplicada+1
Sem hiperlipidemia familiar combinada+1
Sem resposta à terapia hipolipemiante (redução TG < 20%)+1
Idade do início dos sintomas < 40 anos+1
Idade do início dos sintomas < 20 anos+2
Idade do início dos sintomas < 10 anos+3

Interpretação: ≥ 10 = Muito provável; ≤ 9 = Improvável; ≤ 8 = Muito improvável


4. DIAGNÓSTICO

4.1. Avaliação Laboratorial

Fase Pré-Analítica

  • Jejum não obrigatório para avaliação inicial (especialmente em crianças e idosos)
  • Se TG > 440 mg/dL sem jejum → nova coleta com jejum de 12 horas
  • Manter estado metabólico estável e dieta habitual antes da coleta
  • Evitar: transgressão alimentar, álcool, exercício extenuante na véspera
  • Torniquete deve ser desfeito assim que a agulha penetrar a veia

Cálculo do LDL-c

  • Fórmula de Martin/Hopkins é recomendada para todos os indivíduos (FORTE/MODERADA)
  • Fórmula: LDL-c = CT – HDL-c – TG/x, onde x varia de 3,1 a 11,9
  • Vantagem sobre Friedewald: melhor acurácia com TG elevados e LDL-c baixo
  • Limitação: com TG > 800 mg/dL, pode subestimar LDL-c → usar não-HDL-c

Colesterol não-HDL

  • Cálculo: não-HDL-c = CT - HDL-c
  • Estima a quantidade total de lipoproteínas aterogênicas
  • Particularmente útil quando TG > 150 mg/dL
  • Meta: 30 mg/dL acima da meta de LDL-c para cada categoria de risco

ApoB

  • Uma molécula por partícula aterogênica (LDL, VLDL, IDL, Lp(a))
  • Discordância com LDL-c em ~20% dos pacientes com TG elevados
  • Não significativamente alterada no estado pós-prandial (TG < 400 mg/dL)
  • Equivalência LDL-c/ApoB: LDL-c 40 ~ApoB 45; LDL-c 50 ~ApoB 55; LDL-c 70 ~ApoB 70; LDL-c 100 ~ApoB 90; LDL-c 115 ~ApoB 100 mg/dL

Lipoproteína(a)

  • Dosagem recomendada uma vez na vida em todos os adultos (FORTE/MODERADA)
  • Método preferencial: ensaio independente da isoforma (nmol/L)
  • Dosagem por mg/dL aceitável quando única disponível
  • NÃO converter unidades (fórmulas imprecisas)
  • Concentrações > 90% determinadas geneticamente, estáveis ao longo da vida
  • ≥ 50 mg/dL (ou ≥ 125 nmol/L): agravante de risco
  • > 180 mg/dL (> 390 nmol/L): alto risco — classificar diretamente como alto risco
  • Estatinas e ezetimiba NÃO reduzem Lp(a)
  • Anti-PCSK9 reduz 20-30%
  • Se Lp(a) elevada no caso-índice → investigação em cascata nos familiares

4.2. Diagnóstico Genético

Painel genético para HF

Deve incluir: LDLR, APOB, PCSK9, LDLRAP1, ABCG5/ABCG8, LIPA

Painel genético para SQF

Deve incluir: LPL, GPIHBP1, LMF1, APOA5, APOC2

4.3. Estratificação de Risco Cardiovascular

Escores de Risco

  • Escore PREVENT é a ferramenta preferencial (30-79 anos, sem DCV prévia)
    • Variáveis: sexo, idade, CT, HDL-c, PAS, anti-hipertensivo, DM, tabagismo, uso de estatina, IMC, TFGe
    • Opcionais: HbA1c, razão albumina-creatina urinária
    • Estima risco de evento aterosclerótico, IC e risco CV total em 10 e 30 anos
    • Discriminação: C-statistic 0,774 (mulheres) e 0,736 (homens)
  • Alternativas: OMS (calibrado para Brasil), Globorisk-LAC
  • Para idosos ≥ 70 anos: SCORE2-OP pode ser usado
  • Para DM1 < 20 anos de duração: Steno Type 1 Risk Engine

Escore de Cálcio Coronário (CAC)

  • Indicação principal: risco intermediário, idade > 40 anos, LDL-c 70-159 mg/dL
  • Indicação secundária: risco baixo com histórico familiar de DCVA prematura, > 40 anos
CACClassificação de Risco
CAC = 0Forte marcador negativo (baixa taxa de eventos em 10 anos)
CAC > 100 UA ou percentil > 75Alto risco
CAC > 300 UAMuito alto risco
CAC 10-300 (em DM)Alto risco
CAC > 100 UA (em HF)Muito alto risco

Ultrassom de Carótidas

  • Placa carotídea (melhor preditor que EIMC): NRI 46,1% adicionado ao SCORE2
  • EIMC isolada: baixo poder de reclassificação → NÃO recomendada como agravante
  • Definição de placa: espessamento focal aterosclerótico invadindo lúmen OU EIMC ≥ 1,5 mm

4.4. Estratificação de Risco no Diabetes Mellitus

CategoriaDM2Condição
IntermediárioH < 50 anos, M < 56 anosSem EAR, sem EMAR
AltoH ≥ 50 anos, M ≥ 56 anos; ou 1-2 EAR sem EMARQualquer idade se EAR
Muito altoQualquer idade se EMAR ou ≥ 3 EAR
ExtremoQualquer idade se critério de extremo risco

Estratificadores de Alto Risco (EAR) no DM:

  • DM2 há mais de 10 anos
  • História familiar de DAC prematura
  • SM (critérios IDF)
  • HAS tratada ou não
  • Tabagismo ativo
  • Neuropatia autonômica CV incipiente
  • Retinopatia diabética não proliferativa leve
  • DRC de risco alto
  • CAC 10-300 UA
  • Placa carotídea < 50%
  • AngioTC com placa < 50%
  • AAA

Estratificadores de Muito Alto Risco (EMAR) no DM:

  • SCA, IAM antigo ou angina estável
  • AVC aterotrombótico ou AIT
  • Revascularização coronariana, carotídea, renal ou periférica
  • Insuficiência vascular periférica ou amputação
  • Estenose > 50% em qualquer território
  • DM1 duração > 20 anos (diagnóstico após 18 anos)
  • ≥ 3 EAR
  • EMAR renal (TFG < 30, macroalbuminúria)
  • CT > 310 mg/dL ou LDL-c > 190 mg/dL
  • Neuropatia autonômica CV instalada (2 TAC alterados)
  • Retinopatia diabética não proliferativa moderada-severa ou proliferativa

4.5. Estratificação na Infância e Adolescência

CategoriaDoenças de base
AltoHF homozigótica, DM1, DM2, DRC terminal, Kawasaki com aneurismas persistentes, vasculopatia de transplante
MédioObesidade grave, HF heterozigótica, HAS, coarctação de aorta, Lp(a) elevada, DRC pré-diálise, EA
Em riscoObesidade, resistência à insulina com comorbidades, HAS do avental branco, CMH, hipertensão pulmonar, doenças inflamatórias crônicas, Kawasaki com aneurismas regredidos

5. TRATAMENTO

5.1. Metas Terapêuticas Lipídicas por Categoria de Risco

RiscoMeta LDL-c% redução LDL-cMeta não-HDL-cMeta ApoB
Baixo< 115 mg/dL≥ 30%< 145 mg/dL< 100 mg/dL
Intermediário< 100 mg/dL≥ 30%< 130 mg/dL< 90 mg/dL
Alto< 70 mg/dL≥ 50%< 100 mg/dL< 70 mg/dL
Muito alto< 50 mg/dL≥ 50%< 80 mg/dL< 55 mg/dL
Extremo< 40 mg/dL≥ 50%< 70 mg/dL< 45 mg/dL

Hierarquia das metas:

  1. Meta primária: LDL-c
  2. Meta coprimária: não-HDL-c
  3. Meta secundária: ApoB (usar quando LDL-c e não-HDL-c já na meta)

Início de terapia farmacológica em baixo risco: LDL-c persistentemente ≥ 145 mg/dL apesar de MEV

Não há metas para: HDL-c (NÃO é alvo terapêutico), Lp(a) (sem meta definida)

Meta de triglicérides:

  • Em jejum: < 150 mg/dL
  • Sem jejum: < 175 mg/dL
  • Prioridade: LDL-c e não-HDL-c têm precedência
  • TG ≥ 500 mg/dL: alvo < 500 mg/dL (prevenção de pancreatite)

5.2. Tratamento Não Farmacológico

Recomendações Dietéticas

ComponenteRecomendação (% VCT)
Gorduras totais20-35%
Gorduras saturadas< 7%
Gorduras transNão ingerir
Ác. graxos monoinsaturados15%
Ác. graxos poli-insaturados5-10%
Carboidratos totais50-55%
Fibras25 g/dia

Exercício Físico

  • ≥ 150 min/semana de atividade aeróbica moderada OU 75 min vigorosa
  • Resistência: 1-3 séries de 8-12 repetições, 60-80% 1RM, ≥ 2 dias/semana
  • Idosos: multicomponente (aeróbico + fortalecimento + equilíbrio)
  • Inativos: até 15 min/dia de atividade leve já traz benefícios

Cessação do Tabagismo

  • Redução de 50% do risco de IAM após 1 ano sem fumar
  • Abordagem farmacológica: reposição de nicotina, bupropiona
  • Teste de Fagerström para grau de dependência

Controle de Peso

  • Perda de 5-10% do peso: redução de ~40 mg/dL de TG, aumento de ~5 mg/dL de HDL-c
  • Perda de 8-10%: redução de 5-10 mg/dL de LDL-c, 20-30 mg/dL de TG, aumento de 3-5 mg/dL de HDL-c

Álcool

  • NÃO é recomendado para prevenção ou tratamento da aterosclerose (FORTE)
  • Limite superior seguro: ~100 g de álcool/semana

5.3. Tratamento Farmacológico

5.3.1. Estatinas (1ª LINHA)

Terapia de alta intensidade: redução ≥ 50% do LDL-c Terapia de moderada intensidade: redução 30-50% do LDL-c

  • Para cada 39 mg/dL de redução: ~22% redução de eventos CV maiores, ~10% redução de mortalidade por todas as causas

  • Reavaliar perfil lipídico: 4 semanas após início/ajuste; depois anualmente

  • Efeitos adversos:

    • Miopatia: ~9% (maioria leve)
    • Rabdomiólise: < 0,1%
    • Hepatotoxicidade: ALT > 3x LSN em 0,5-2% (dose-dependente)
    • Novo DM2: 1 caso a cada 255 pessoas tratadas por 4 anos
    • HbA1c: elevação discreta possível
  • Dosagem basal: CK e enzimas hepáticas (ALT/AST) antes do início

  • Monitoramento rotineiro de CK e enzimas hepáticas: NÃO recomendado se assintomático

  • ALT > 3x LSN em 2 ocasiões consecutivas: suspender ou reduzir dose

5.3.2. Ezetimiba

  • Inibidor seletivo de NPC1L1
  • Redução adicional de ~24% do LDL-c quando adicionada a estatinas
  • IMPROVE-IT: redução de 7,2% de eventos vasculares maiores em 7 anos
  • RACING: rosuvastatina 10 mg + ezetimiba = não inferior a rosuvastatina 20 mg, com melhor atingimento de metas e menor descontinuação
  • Opção segura e de baixo custo em intolerância às estatinas

5.3.3. Terapia Anti-PCSK9

Anticorpos monoclonais (evolocumabe, alirocumabe):

  • Via subcutânea a cada 2-4 semanas
  • Redução de LDL-c: ~55-60% adicionais em usuários de estatinas
  • FOURIER: evolocumabe → redução de 15% em eventos CV maiores (mediana LDL-c atingido: 30 mg/dL)
  • ODYSSEY OUTCOMES: alirocumabe → redução de 15% em eventos CV (mediana LDL-c: 53 mg/dL)
  • Segurança mantida até 8,4 anos de seguimento, mesmo com LDL-c < 25 mg/dL

Inclisirana (siRNA):

  • Via subcutânea a cada 6 meses
  • Redução de LDL-c: ~50-55%
  • Estudos de desfechos CV em andamento
  • Recomendada como alternativa aos anticorpos monoclonais (FORTE/MODERADA)

5.3.4. Ácido Bempedoico

  • Inibidor da ATP-citrato liase (etapa anterior às estatinas na via do colesterol)
  • Dose: 180 mg/dia
  • CLEAR Outcomes: redução de 29,2 mg/dL no LDL-c; redução de 13% em MACE (HR 0,87; IC95% 0,79-0,96; p = 0,004) em pacientes intolerantes a estatinas
  • Indicação principal: intolerantes a estatinas que não atingem meta com ezetimiba
  • Não causa miopatia (pró-droga ativada apenas no fígado)

5.3.5. Fibratos

  • Agonistas PPAR-α
  • Redução de TG: 30-60%
  • NÃO reduzem risco CV quando adicionados a estatinas (PROMINENT com pemafibrato: resultado neutro)
  • Indicação: TG ≥ 500 mg/dL para reduzir risco de pancreatite (FORTE/MODERADA)
  • Fenofibrato preferido quando associado a estatinas (menor risco de miopatia)
  • Genfibrozila + estatinas: PROSCRITA (alto risco de rabdomiólise)
  • Fenofibrato: pode reduzir progressão de retinopatia diabética leve (estudo LENS: HR 0,73; p = 0,006)

5.3.6. Ômega-3

  • EPA purificado (icosapenta etila) 4 g/dia: REDUCE-IT demonstrou redução significativa de eventos CV em TG 135-499 mg/dL com DCVA ou DM2 + estatina → NÃO disponível no Brasil
  • EPA + DHA: STRENGTH → sem redução de eventos CV → contraindicado para prevenção CV
  • Para TG ≥ 500 mg/dL: redução de 20-45% dos TG
  • Efeitos adversos: desconforto GI, efeito antiplaquetário, fibrilação atrial

5.3.7. Volanesorsena (inibidor de ApoC-III)

  • ASO que inibe síntese de ApoC-III
  • Redução de pancreatite em 82%
  • Aprovada no Brasil para adultos com SQF e TG ≥ 500 mg/dL
  • Efeito adverso importante: trombocitopenia

5.3.8. Evinacumabe (inibidor de ANGPTL3)

  • Anticorpo monoclonal anti-ANGPTL3
  • Não depende do receptor de LDL para reduzir LDL-c
  • Indicação: HF homozigótica a partir dos 5 anos de idade, quando meta não atingida com terapias máximas
  • Posologia: 15 mg/kg IV a cada 4 semanas, infusão em 60 minutos

5.4. Terapia Combinada

Redução Estimada de LDL-c por Combinação

CombinaçãoRedução aproximada
Estatina moderada intensidade (EMI)~30%
Estatina alta intensidade (EAI)~50%
EAI + ezetimiba~65%
EMI + ezetimiba~50%
Ácido bempedoico + ezetimiba~40%
Anti-PCSK9 isolado~55%
EAI + anti-PCSK9~80%
EAI + ezetimiba + anti-PCSK9~85%
EAI + ezetimiba + ácido bempedoico~75%
EAI + ezetimiba + ácido bempedoico + anti-PCSK9~>90%

Estratégia por Categoria de Risco

RiscoTerapia inicial recomendada
AltoEstatina alta intensidade + ezetimiba
Muito altoEstatina alta intensidade + ezetimiba ± anti-PCSK9
ExtremoEstatina alta intensidade + ezetimiba + anti-PCSK9
HF ou LDL-c ≥ 190Estatina alta intensidade + ezetimiba
Intolerância a estatinasÁcido bempedoico + ezetimiba OU anti-PCSK9 ± ezetimiba

5.5. Manejo da Intolerância às Estatinas

Definição

Incapacidade de tolerar várias estatinas, em qualquer dose, por sintomas/alterações laboratoriais que desaparecem com suspensão e reaparecem na reintrodução, não atribuíveis a interações ou condições que aumentem a chance.

Prevalência

  • ECR: 4-21%
  • Maior: sexo feminino, asiáticos, negros, idosos, obesidade, DM, hipotireoidismo, dose alta

Critérios Diagnósticos

  1. Manifestação clínica (mialgia, miastenia, cãibras, CK/TGO/TGP)
  2. Intolerância a ≥ 2 estatinas, com uma na menor dose (ex: atorvastatina 10 mg, rosuvastatina 5 mg)
  3. Temporalidade (4-12 semanas após início, melhora com suspensão, recidiva)
  4. Exclusão de outras causas

Algoritmo de Manejo

Sintomas toleráveis, CK < 3x LSN: Trocar/reduzir dose + monitorar Sintomas intoleráveis ou CK 3-7x LSN: Suspender 4-6 semanas + iniciar ezetimiba ± ABp ± anti-PCSK9 + investigar (CK, função renal, TSH, T4L, VHS, FAN) CK > 7x LSN: Suspender 4-6 semanas + avaliação extensa; se CK persiste > 7x → considerar miopatia autoimune (SMRE 6) CK > 10x LSN com disfunção renal (rabdomiólise): Hidratação vigorosa, corrigir hipercalemia, alcalinizar urina, considerar diálise

Reintrodução: Nova estatina em baixa dose → aumento a cada 4-6 semanas

Importante: Ao suspender estatina, iniciar imediatamente terapia não estatínica (ezetimiba, ABp ou anti-PCSK9)

NÃO recomendados para SMRE:

  • Vitamina D (FORTE/ALTA contra)
  • Coenzima Q10 (FORTE/MODERADA contra)

5.6. Interações Medicamentosas das Estatinas

ClasseEstatinas afetadasManejo
VarfarinaFluvastatina, rosuvastatina, lovastatinaMonitorar INR. DOACs: seguros
Antifúngicos azólicosSinvastatina, lovastatina (contraindicados com itraconazol)Alternativas: pravastatina, fluvastatina
ARV (IP)Sinvastatina/lovastatina: evitarEscolha: pitavastatina, pravastatina
Diltiazem/VerapamilSinvastatina (máx 20 mg), lovastatina (máx 40 mg)
AmlodipinaSinvastatina (máx 20 mg)
AmiodaronaSinvastatina (máx 20 mg), lovastatina (máx 40 mg)Sem ajuste: atorva, rosuva, prava, fluva, pita
CiclosporinaLovastatina, sinvastatina, pitavastatina: EVITARRosuvastatina ≤ 5 mg; atorvastatina ≤ 10 mg
Macrolídeos (eritro/claritro)Sinvastatina, lovastatina, atorvastatina: evitarAzitromicina: segura com todas
GenfibrozilaLovastatina, pravastatina, sinvastatina: evitarFenofibrato: seguro com qualquer estatina

6. POPULAÇÕES ESPECIAIS

6.1. Insuficiência Cardíaca

  • IC + doença aterosclerótica: manter estatinas (FORTE)
  • IC em uso prévio de estatina: NÃO suspender (FORTE)
  • ICFER sem doença aterosclerótica: pode usar estatinas com individualização (CONDICIONAL)
  • Anti-PCSK9: manter em IC de alto risco quando metas não alcançadas com estatina + ezetimiba

6.2. Pessoas Vivendo com HIV (PVHIV)

  • Risco CV quase 2x maior que população geral
  • Estatinas são 1ª linha; pitavastatina é a mais segura (estudo REPRIEVE: redução de 35% em eventos CV)
  • Sinvastatina: contraindicada com IPs
  • Ezetimiba: adicionar se intolerância ou LDL-c insuficiente
  • Anti-PCSK9 (evolocumabe): estudo BEIJERINCK → redução de 56,9% no LDL-c

Perfil de segurança das estatinas em PVHIV:

EstatinaDoseInteração com TARV
Pitavastatina4 mg/diaBaixa
Rosuvastatina10-20 mg/diaModerada
Atorvastatina10-20 mg/diaModerada
Pravastatina20-40 mg/diaBaixa
SinvastatinaEVITARAlta

6.3. Diabetes Mellitus

  • Risco CV ~2x maior
  • Dislipidemia diabética: TG elevados, HDL-c baixo, LDL pequena e densa, aumento de ApoC-III
  • LDL-c pode estar normal, mas não-HDL-c e ApoB são melhores marcadores
  • Estatinas: redução de 23% em eventos CV por cada 38,4 mg/dL de redução de LDL-c
  • Ezetimiba: especialmente eficaz em DM (IMPROVE-IT: RRR 15%, RAR 5,5%)
  • Anti-PCSK9: FOURIER em DM → RAR 2,7% em 3 anos; ODYSSEY: benefício consistente
  • Fibratos: NÃO para redução de risco CV (PROMINENT neutro), MAS fenofibrato pode reduzir progressão de retinopatia (LENS)
  • aGLP-1 (semaglutida 2,4 mg): redução de eventos CV mesmo sem diabetes (SELECT)

6.4. Hipotireoidismo

  • Clínico: levotiroxina → normalizar TSH → reavaliar perfil lipídico → estatina se dislipidemia persiste
  • Subclínico com TSH 4,5-9,9: levotiroxina se sintomas de hipotireoidismo ou alto risco CV
  • Subclínico com TSH ≥ 10: levotiroxina sempre
  • Estatinas podem causar mais SMRE em hipotireoidismo não controlado → normalizar TSH primeiro
  • Sempre dosar TSH antes de iniciar estatina e em quem desenvolve SMRE

6.5. Doença Renal Crônica

Estágio DRCRecomendação
1-3 com risco CV aumentadoEstatina de alta potência (FORTE/ALTA)
1-3 sem meta com estatinaAdicionar ezetimiba (FORTE/MODERADA)
4-5 não dialíticoEstatina de alta potência ± ezetimiba (FORTE/ALTA)
Diálise sem DCVNÃO iniciar estatinas (FORTE/ALTA)
Diálise com uso prévioManter estatinas
Transplante renalEstatinas (preferir pravastatina, fluvastatina, rosuvastatina)

6.6. Obesidade

  • 1ª linha: intervenções não farmacológicas (dieta, exercício, perda de peso)
  • Estatinas: base do tratamento farmacológico
  • Fibratos: apenas se TG ≥ 500 mg/dL (pancreatite)
  • aGLP-1: efeito duplo (perda de peso + redução CV) — SELECT com semaglutida 2,4 mg
  • Cirurgia bariátrica: melhora significativa do perfil lipídico e reduz eventos CV

6.7. Idosos (> 75 anos)

  • Individualizar doses conforme fragilidade, comorbidades, expectativa de vida, polifarmácia
  • Metas semelhantes aos não idosos para alto/muito alto risco
  • Estatinas têm benefício demonstrado (PROSPER, HPS, JUPITER, HOPE-3, CTT)
  • Ezetimiba: EWTOPIA 75 → redução de eventos CV em > 75 anos
  • SCORE2-OP pode auxiliar na estratificação em ≥ 70 anos
  • PREVENT: até 79 anos (com desempenho razoável em mais idosos)
  • US Preventive Services Task Force: evidências insuficientes para > 75 anos sem DCV prévia

6.8. Crianças e Adolescentes

Rastreamento

  • Universal: 9-11 anos e 17-21 anos (jejum 8-9h)
  • Seletivo (2-8 anos e 12-16 anos): se fatores de risco (HF familiar, obesidade, DM, HAS, tabagismo)

Tratamento da HF Heterozigótica em crianças

  • MEV desde diagnóstico
  • Estatinas: iniciar entre 8-10 anos (meta: LDL-c < 130 mg/dL)
  • Ezetimiba: a partir dos 6 anos (redução de LDL-c ~25-30%)
  • Evolocumabe: a partir dos 10 anos (redução ~44%)
  • Alirocumabe: a partir dos 8 anos

Indicação de estatinas por LDL-c (crianças > 10 anos):

  • LDL-c ≥ 190 mg/dL sem fatores de risco
  • LDL-c ≥ 160 mg/dL com 1 fator de risco
  • LDL-c ≥ 130 mg/dL com múltiplos fatores de risco (DM, HAS)

HF Homozigótica

  • LDL-c geralmente > 400 mg/dL
  • Estatinas + ezetimiba desde 2 anos
  • LDL-aférese antes dos 5 anos em casos graves
  • Evinacumabe: a partir dos 5 anos (FORTE/MODERADA)
  • Meta: LDL-c < 115 mg/dL

Estatinas aprovadas para crianças

EstatinaPotênciaIdadeDoseRedução LDL-c
PitavastatinaAlta≥ 8 anos1-4 mg/dia23-39%
PravastatinaBaixa≥ 8 anos20-40 mg/dia23-33%
RosuvastatinaAlta≥ 7 anos5-20 mg/dia38-50%
AtorvastatinaAlta≥ 10 anos10-20 mg/dia~40%
FluvastatinaBaixa≥ 10 anos20-80 mg/dia~34%
LovastatinaBaixa≥ 10 anos10-40 mg/dia17-37%
SinvastatinaModerada≥ 10 anos10-40 mg/dia31-41%

6.9. Transplantados

  • Todos devem ser considerados como tendo agravante de risco CV
  • Perfil lipídico: medir 2-3 meses após transplante
  • Estatinas: 1ª linha (FORTE/ALTA)
  • EVITAR: sinvastatina ou lovastatina + ciclosporina, tacrolimo, sirolimo, everolimo
  • Dose máxima com ciclosporina: rosuvastatina 5 mg ou atorvastatina 10 mg
  • Preferidas: pravastatina, fluvastatina, rosuvastatina (menor risco de rabdomiólise)
  • Ezetimiba: alternativa segura
  • Anti-PCSK9: sem dados extensivos, mas sem interações via CYP450

6.10. Doenças Hepáticas Crônicas

  • MASLD/Esteatose hepática: estatinas seguras e indicadas (enzimas até 3x LSN); podem melhorar desfechos hepáticos
  • Child-Pugh A e B: NÃO é contraindicação absoluta para estatina e anti-PCSK9
  • Child-Pugh C: estatinas desaconselhadas
  • Ezetimiba: evitar em Child B e C
  • Colangite biliar primária: estatinas não contraindicadas se compensada
  • Estatinas podem reduzir: risco de CHC (estudos caso-controle: ~25% redução)

6.11. Síndrome Coronariana Aguda

  • Dosar perfil lipídico preferencialmente em até 24h do evento
  • Iniciar estatina potente nas primeiras 24h (FORTE/ALTA)
  • Iniciar combinação: estatina potente + ezetimiba já na fase aguda
  • Considerar precocemente anti-PCSK9 em risco muito alto ou extremo
  • Reavaliação lipídica: 4-6 semanas após alta
  • Conceito "Strike early and strike strong"
  • Níveis de LDL-c variam minimamente nos primeiros 4 dias → dosagem precoce é confiável

6.12. Doenças Imunomediadas

  • AR, LES, psoríase, espondiloartrites: risco CV comparável a DM2
  • "Paradoxo lipídico": LDL oxidado e HDL disfuncional mesmo com níveis normais
  • Glicocorticoides: reduzem HDL-c, aumentam TG e LDL-c
  • AR com critérios de alto risco: considerar agravante de risco CV
  • Controle da atividade inflamatória = essencial para reduzir risco CV
  • CAC pode ser útil para estratificação em risco intermediário
  • Estatinas: 1ª linha
  • Se intolerância/resposta inadequada: ezetimiba; se muito alto risco: anti-PCSK9

6.13. Gestação

Alterações fisiológicas (2º e 3º trimestres)

  • CT e LDL-c: aumento de 30-50%
  • TG: aumento de 50-100%
  • HDL-c: aumento de 20-40%

Tratamento

  • Dieta: baixo teor de gordura, alto teor de fibras solúveis, carboidratos de baixo IG (FORTE)
  • Estatinas em planejamento de gravidez: interromper 60 dias antes da concepção (FORTE)
  • Gestante em uso de estatina: suspensão imediata; reinício após amamentação (FORTE)
  • Gestante de muito alto risco: individualizar; considerar reinício no 3º trimestre (decisão compartilhada) — pravastatina com mais evidência de segurança (CONDICIONAL)
  • Resinas de troca: podem ser usadas (CONDICIONAL/BAIXA)
  • Contraindicados na gestação/lactação: ezetimiba, anti-PCSK9, evinacumabe, ácido bempedoico, lomitapida
  • TG > 880 mg/dL: fenofibrato no 2º trimestre (CONDICIONAL); ômega-3 (CONDICIONAL)

6.14. Mulher

  • Fatores agravantes específicos devem ser avaliados (menarca, gestação, menopausa)
  • Risco baixo ou intermediário: usar agravantes para refinar estratificação
  • Alto/muito alto/extremo risco: terapia intensiva e combinada sem distinção de conduta em relação aos homens
  • Menopausa: queda estrogênica → aumento de LDL-c e TG
  • TH oral: reduz LDL-c, aumenta HDL-c, pode elevar TG; via transdérmica: efeito neutro nos TG

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