Cardiologia2025

Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência 2025: o que mudou na diretriz

Cai na prova 2026
  • Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil e no mundo, com a SCA como principal causa específica de óbito cardiovascular
  • Prevalência de IAM no Brasil: ~4,0% (pesquisa com 7.260 indivíduos)
  • O IAM representa o maior custo financeiro entre as doenças cardíacas para o SUS (R$ 22,4 bilhões / 6,9 bilhões de dólares em 2015)
  • 5 a 8 milhões de atendimentos anuais por dor torácica em emergências nos EUA (~5% de todos os atendimentos)
  • Dor torácica pode representar até 40% das admissões hospitalares pelo departamento de emergência
  • Apenas 5 a 20% dos pacientes com dor torácica na emergência têm SCA; mais da metade não tem causa cardíaca
  • Historicamente, 1 a 10% dos IAMs eram liberados inadvertidamente das emergências (EUA), com maior mortalidade nesse grupo
  1. Identificar precocemente pacientes com SCA e outras doenças tempo-sensíveis
  2. Evitar altas inadvertidas e internações desnecessárias
  3. Salvar vidas e reduzir sequelas (ex.: IC pós-infarto)

O que mudou

16 mudanças que você precisa saber

  • Antes

    Típica" vs "Atípica

    Agora

    3 categorias: altamente suspeita, moderadamente suspeita, pouco/nada suspeita

  • Antes

    Considerado equivalente a IAMCSST isoladamente

    Agora

    NÃO é mais necessariamente critério diagnóstico para SCACSST (correlacionar clínica)

  • Antes

    Diagnóstico vs Não diagnóstico

    Agora

    3 categorias: Diagnóstico, Preocupante (limítrofe/duvidoso), Não diagnóstico

  • Antes

    Menos sistematizados

    Agora

    Sistematização ampla: De Winter, T hiperaguda, Aslanger, distorção terminal QRS, infarto posterior

  • Antes

    0-3h amplamente utilizado

    Agora

    0-1h e 0-2h preferenciais (0-3h apenas como segunda escolha)

  • Antes

    Ainda solicitada em muitos serviços

    Agora

    NÃO solicitar se troponina quantitativa disponível (Classe III)

  • Antes

    Menos aceito

    Agora

    TCas indetectável + > 3h de sintomas + ECG normal + HEART ≤ 3: pode descartar IAM (Classe IIa)

  • Antes

    Vários usados sem hierarquia clara

    Agora

    HEART é preferencial para dor torácica (Classe I, Nível B)

  • Antes

    Menos sistematizado

    Agora

    Classe I para instabilidade com diagnóstico obscuro

  • Antes

    Possível uso aventado

    Agora

    NÃO deve ser usado para predizer lesões coronárias na emergência

  • Antes

    Considerado em certas situações

    Agora

    Classe IIb (protocolos individuais são superiores)

  • Antes

    Pouca evidência

    Agora

    Segura para selecionar pacientes para cateterismo (reduz CATE sem aumentar eventos em 1 ano)

  • Antes

    Não existia

    Agora

    Novo escore para ambiente pré-hospitalar (Classe IIa, Nível B)

  • Antes

    Terminologia usada

    Agora

    Termo em desuso — trata-se de parede ínfero-lateral (por RM)

  • Antes

    Critérios originais

    Agora

    Adição do critério de Barcelona (desvio ≥ 1mm discordante se R/S ≤ 6mm)

  • Antes

    Usados frequentemente

    Agora

    Performance inferior ao HEART para pacientes em rota diagnóstica (GRACE útil para prognóstico pós-diagnóstico)

Resumo técnico

A diretriz na íntegra

Documento de Referência Completo para Provas de Residência Médica


2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA

Por que esta diretriz foi publicada

  • Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil e no mundo, com a SCA como principal causa específica de óbito cardiovascular
  • Prevalência de IAM no Brasil: ~4,0% (pesquisa com 7.260 indivíduos)
  • O IAM representa o maior custo financeiro entre as doenças cardíacas para o SUS (R$ 22,4 bilhões / 6,9 bilhões de dólares em 2015)
  • 5 a 8 milhões de atendimentos anuais por dor torácica em emergências nos EUA (~5% de todos os atendimentos)
  • Dor torácica pode representar até 40% das admissões hospitalares pelo departamento de emergência
  • Apenas 5 a 20% dos pacientes com dor torácica na emergência têm SCA; mais da metade não tem causa cardíaca
  • Historicamente, 1 a 10% dos IAMs eram liberados inadvertidamente das emergências (EUA), com maior mortalidade nesse grupo

Composição da SCA (Registro ACCEPT - Brasil)

TipoFrequência
Angina Instável (AI)30%
IAMSSST34%
IAMCSST36%

Objetivos do protocolo de dor torácica

  1. Identificar precocemente pacientes com SCA e outras doenças tempo-sensíveis
  2. Evitar altas inadvertidas e internações desnecessárias
  3. Salvar vidas e reduzir sequelas (ex.: IC pós-infarto)

3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES

3.1. Classificação da Síndrome Coronariana Aguda

  • SCA com elevação persistente de ST (SCACSST): inclui IAMCSST e equivalentes de oclusão coronária
  • SCA sem elevação persistente de ST (SCASSST): inclui IAMSSST e Angina Instável (AI)

3.2. Classificação da Dor Torácica (recomendação atual)

A diretriz recomenda classificação em 3 grupos (substituindo os termos "típica" e "atípica" que estão em desuso):

  1. Sintoma altamente suspeito de SCA (dor isquêmica cardíaca)
  2. Sintoma moderadamente suspeito (dor possivelmente isquêmica cardíaca)
  3. Sintoma pouco/nada suspeito (dor torácica não cardíaca)

IMPORTANTE: Os termos "dor típica" e "dor atípica" estão em desuso. "Atípica" pode ser erroneamente interpretada como "não cardíaca".

3.3. Classificação do ECG no Protocolo de Dor Torácica

A diretriz criou três categorias de ECG:

  1. ECG diagnóstico (< 5% dos protocolos)
  2. ECG preocupante (duvidoso/limítrofe) — NOVA CATEGORIA
  3. ECG não diagnóstico (> 90% dos casos)

3.4. Definição de Injúria Miocárdica

  • Injúria miocárdica aguda: ascensão e/ou queda de troponina de alta sensibilidade > 20% entre medidas, com pelo menos um valor acima do percentil 99
  • Injúria miocárdica crônica: variação ≤ 20% nos valores de troponina com pelo menos um valor acima do percentil 99

3.5. Definição de Infarto Agudo do Miocárdio

Injúria miocárdica aguda + pelo menos um dos seguintes:

  1. Sintomas de isquemia miocárdica aguda
  2. Nova alteração isquêmica do ECG (incluindo nova onda Q)
  3. Exame de imagem com nova perda de miocárdio viável ou nova alteração de contratilidade segmentar com padrão isquêmico
  4. Evidência angiográfica ou autópsia

3.6. Classificação de TINOCA e MINOCA

  • TINOCA (Troponin-Positive Nonobstructive Coronary Arteries): troponina elevada + angiografia sem obstrução ≥ 50%
    • Subgrupos: MINOCA, causas miocárdicas (miocardite, Takotsubo), causas extracardíacas
  • MINOCA (Myocardial Infarction with Non-Obstructive Coronary Arteries): critérios de IAM + coronariografia sem obstrução ≥ 50% + exclusão de causas não isquêmicas
    • ~5-15% dos IAMs que vão para cateterismo
    • Etiologias: aterosclerose não obstrutiva (23%), miocardite (29%), Takotsubo (16%), cardiomiopatia hipertrófica (3%), cardiomiopatia dilatada (2%), amiloidose (<5%)

3.7. Definições de Angina Instável

  • Angina em repouso
  • Angina em crescendo (piora na frequência, duração ou intensidade)
  • Angina pós-infarto
  • Angina de início recente (classe III CCS, < 2 meses)
  • Alterações na irradiação ou resposta a nitratos

3.8. Classificação de Recomendações e Evidências (método SBC)

ClasseSignificado
IEvidências conclusivas ou consenso geral de utilidade/eficácia
IIaPeso/evidência a favor
IIbUtilidade menos bem estabelecida
IIINão útil/eficaz, pode ser prejudicial
NívelSignificado
AMais de um RCT concordante ou metanálise robusta
BMetanálise menos robusta, único RCT ou observacionais
COpiniões consensuais e/ou pequenos estudos observacionais

4. DIAGNÓSTICO

4.1. Critérios de Inclusão no Protocolo de Dor Torácica

Critérios rotineiros (Classe I, Nível C)

CritérioClasseEvidência
Qualquer dor ATUAL entre cicatriz umbilical e mandíbulaIC
Qualquer dor torácica > 10 minutos (mesmo se ausente na admissão)IC

Critérios adicionais (Classe IIa, Nível C)

CritérioClasseEvidência
Desconforto epigástrico ou dor em braços/mandíbula antes do PS (assintomático na admissão)IIaC
Equivalentes isquêmicos (dispneia, diaforese, PAS < 90 mmHg) em > 50 anos e/ou com DM/DCVIIaC
Solicitação médica por suspeita de SCA ou condições potencialmente fataisIIaC

10 a 30% dos pacientes com SCA não apresentam dor torácica (especialmente idosos e diabéticos).

4.2. Conduta Inicial — Acrônimo MOVE

LetraSignificado
MMonitorização com desfibrilador prontamente disponível
O₂Checar saturação de O₂ (oxigenioterapia se SatO₂ < 90%)
VAcesso venoso (coletar sangue durante obtenção do acesso)
EECG em até 10 minutos, com avaliação médica imediata

4.3. ECG — Tempo Porta-ECG

  • Meta: ECG em até 10 minutos do primeiro contato com profissional/serviço de saúde
  • TPE > 10 min associado a risco aumentado de IAM recorrente ou morte (OR 3,95; IC 95% 1,06-14,72)
  • Apenas 40% dos IAMCSST receberam ECG em 10 min (tempo mediano: 14 min)
  • Disparidades: mulheres (32,8% vs 22,6%), negros (23,4% vs 12,4%), diabéticos (40,2% vs 30,2%) e sem dor torácica (63,3% vs 87,4%) têm maior probabilidade de TPE > 10 min

Ações para redução do TPE

  1. Mapeamento de processos para reconhecimento de falhas
  2. ECG dedicado com técnico treinado na triagem
  3. Treinamento da equipe da triagem
  4. Organização de fluxo da triagem (priorizar ECG)
  5. Feedback constante à equipe

4.4. Critérios Eletrocardiográficos Diagnósticos de SCA

SCACSST sem BRE — Elevação de ST (aferida no ponto J, referência: segmento PR)

DerivaçõesGrupoCritério
V2 e V3Homens < 40 anos≥ 2,5 mm
V2 e V3Homens ≥ 40 anos≥ 2,0 mm
V2 e V3Mulheres (qualquer idade)≥ 1,5 mm
Demais derivaçõesQualquer sexo/idade≥ 1,0 mm
V7, V8, V9, V3R, V4RComplementares≥ 0,5 mm em ≥ 2 contíguas

SCACSST com BRE — Critérios modificados de Sgarbossa e Barcelona

  • Elevação concordante do ST ≥ 1 mm em derivações com QRS positivo
  • Depressão concordante do ST ≥ 1 mm em V1-V3
  • Elevação discordante do ST ≥ 5 mm em derivações com QRS negativo e/ou relação ST/S ≥ 25%
  • Critério de Barcelona: desvio ≥ 1 mm discordante em derivação com voltagem máxima (R/S) ≤ 6 mm

IMPORTANTE: BRE novo isoladamente NÃO é mais considerado necessariamente critério diagnóstico para SCACSST (correlacionar clínica).

Equivalentes de Oclusão Coronária

PadrãoDescrição
Infarto "posterior" (ínfero-lateral)Depressão ST em V1-V3, onda T positiva terminal nas anteriores, onda R proeminente e ampla (>30ms, R>S em V2). Confirmado: supra ≥ 0,5 mm em ≥1 de V7-V9
De WinterT altas/simétricas + depressão ascendente ST >1mm no ponto J em precordiais; pode ter supra 0,5-1mm em aVR
T hiperagudasOndas T amplas, simétricas, pontiagudas (precursoras de supra ST)
Padrão de AslangerSupra ST em DIII mas não nas demais inferiores; depressão ST em V4-V6 com T positiva; supra V1 > V2
Distorção terminal do QRSAusência de onda S abaixo da linha isoelétrica e ausência de onda J em V2/V3

Padrões de maior risco sem oclusão (TCE ou multiarterial)

  • Supra ST em aVR e/ou V1 + depressão ST em ≥ 6 derivações (sem elevação contígua)

Síndrome de Wellens (DA proximal)

  • Tipo A (25%): Ondas T bifásicas em V2-V3
  • Tipo B (75%): Ondas T profundamente invertidas e simétricas em V2-V3
  • Sem ondas Q; sem elevação significativa de ST; angina recente; alterações mais visíveis após melhora da dor

SCASSST com critérios de isquemia ativa

  • Depressão ST horizontal ou descendente ≥ 0,5 mm no ponto J em ≥ 2 derivações contíguas
  • Onda T invertida ≥ 1 mm em complexo com R proeminente ou R/S > 1

4.5. Diagnóstico Diferencial ao ECG

CondiçãoAchados ECG
TEPTaquicardia sinusal (mais frequente), S1Q3T3 (8,5%), inversão T V1-V4, BRD completo/incompleto, qR em V1
TakotsuboElevação ST (44%), inversão T (41%), QT prolongado, infradesnível ST (8%), BRE (5%)
PericarditeSupra ST difuso côncavo (poupa V1/aVR), infradesnível PR, sem imagem em espelho
Repolarização precoceSupra ST côncavo em precordiais, onda T ampla, relação ST/T < 0,25

Diferenciação IAM vs Pericardite vs Repolarização Precoce

CaracterísticaIAM c/ supraPericarditeRepol. precoce
Morfologia STConvexaCôncavaCôncava
Imagem em espelhoPresenteAusenteAusente
Ondas QPresentes (boa parte)AusentesAusentes
Localização supraParede envolvidaDifusoPrecordiais
Infradesnível PRNormalmente ausentePresenteAusente
Inversão TNa vigência do supraApós normalização STSem mudança
Relação ST/TN/A≥ 0,25< 0,25

4.6. Escores Clínicos de Risco e Probabilidade

4.6.1. Escore HEART (preferencial para SCA — Classe I, Nível B)

Componente0 pontos1 ponto2 pontos
HistóriaPouco/nada suspeitaModeradamente suspeitaAltamente suspeita
ECGNormalDistúrbios inespecíficosDepressão significativa ST
Anos (Idade)< 45≥ 45 e < 65≥ 65
Risco (fatores*)Nenhum1 ou 2≥ 3 ou DAC conhecida
Troponina convencional≤ limite superior1-3x limite superior≥ 3x limite superior

*Fatores de risco: HAS, hipercolesterolemia, DM, obesidade (IMC > 30), tabagismo (atual ou cessação ≤ 3 meses), história familiar precoce (1º grau)

HEART ScoreRisco MACE 6 semanasConduta
0-3BaixoConsiderar alta (especialmente se sem DAC conhecida)
4-6IntermediárioInvestigação adicional
7-10AltoAdmissão e tratamento intensivo

HEART ≤ 3 + troponinas normais: VPN ≈ 99% para eventos

4.6.2. ADD-RS (Dissecção de Aorta)

CategoriaVariáveis (1 ponto se qualquer item presente)
Condições predisponentesMarfan, história familiar de aortopatia, valvopatia aórtica, manipulação aórtica recente, aneurisma aórtico torácico
Características da dorInício súbito, intensidade severa, "rasgando"
Achados no exameDéficit de pulso/PA, déficit neurológico focal + dor, sopro de regurgitação aórtica novo + dor, hipotensão/choque
  • 0-1 ponto: Baixo risco → D-dímero; se < 500 ng/mL, descartar dissecção
  • 2-3 pontos: Alto risco → angiotomografia de aorta

4.6.3. Escore AORTA (Dissecção de Aorta)

CaracterísticaPontos
Hipotensão/choque2
Aneurisma1
Déficit de pulso1
Déficit neurológico1
Dor severa1
Dor de início súbito1
  • 0-1: Baixo risco; ≥ 2: Alto risco

ADD-RS e AORTA NÃO devem ser usados isoladamente para excluir/confirmar SAA (Classe III, Nível B)

4.6.4. Escore de Wells (TEP)

CritérioPontos
Sinais clínicos de TVP+3
Ausência de diagnóstico alternativo mais provável+3
TVP/TEP prévios+1,5
FC > 100 bpm+1,5
Imobilização > 2 dias ou cirurgia últimas 4 semanas+1,5
Hemoptise+1
Câncer (atual/tratado últimos 6 meses/cuidados paliativos)+1
3 níveisPontuaçãoProbabilidade
Baixa< 21-3%
Intermediária2-616-28%
Alta> 6> 40%
2 níveisPontuaçãoClassificação
Improvável≤ 4~3%
Provável> 4~28%

4.6.5. Escore de Genebra Simplificado

CritérioPontos
Idade > 65 anos1
TVP/TEP prévios1
Cirurgia/fratura último mês1
Neoplasia ativa1
Dor unilateral em MMII1
Hemoptise1
Dor à palpação venosa/edema unilateral1
FC 75-94 bpm1
FC ≥ 95 bpm2
  • 2 níveis: ≤ 2 = improvável; ≥ 3 = provável

4.6.6. PERC (Pulmonary Embolism Rule-Out Criteria)

Uso: Apenas em pacientes com baixa probabilidade pré-teste (< 15%)

Critério (todos devem estar AUSENTES para excluir TEP)
Idade ≥ 50 anos
FC ≥ 100 bpm
SatO₂ < 95% em ar ambiente
Edema assimétrico de MMII
Hemoptise
Cirurgia/trauma últimas 4 semanas
História prévia de TVP/TEP
Tratamento hormonal
  • Se PERC = 0 + baixa probabilidade: pode-se dispensar D-dímero

4.6.7. D-dímero

IndicaçãoPonto de corte
TEP (padrão)≥ 500 ng/mL (µg/L)
TEP (ajustado por idade, ≥ 50 anos)Idade × 10 ng/mL
SAA≥ 500 ng/mL (< 500 descarta)
Critérios YEARS500 ou 1000 ng/mL conforme presença/ausência de critérios

4.7. Algoritmos de Troponina

Hierarquia de marcadores (Classe I, Nível B)

  1. Troponina cardíaca de alta sensibilidade (TCas) — marcador de escolha
  2. Troponina convencional (se TCas indisponível)
  3. CK-MB massa (apenas se troponina indisponível)

CK-MB NÃO deve ser solicitada se troponina quantitativa disponível (Classe III, Nível B)

Algoritmos de 0-1h e 0-2h (PRIMEIRA ESCOLHA — Classe IIa, Nível B)

Princípio: Coleta na admissão (0h) + repetição em 1h ou 2h, com valores absolutos e delta específicos por kit.

Valores de corte para algoritmo 0-1h (exemplos principais)
Ensaio (kit)Muito baixoBaixo (0h)Sem Δ 1hElevado (0h)Δ 1h
hs-cTnT (Elecsys; Roche)<5<12<3≥52≥5
hs-cTnI (Architect; Abbott)<4<5<2≥64≥6
hs-cTnI (Centaur; Siemens)<3<6<3≥120≥12
hs-cTnI (Access; Beckman)<4<5<4≥50≥15
Classificação pelo algoritmo
GrupoCritério% pacientes (0-1h)Probabilidade IAM
Rule-outMuito baixo + >3h de sintomas OU 0h Baixo + sem Δ 1h60-75%<1%*
ObservaçãoValores intermediários15-25%5-20%
Rule-in0h Alto OU Δ 1h anormal8-20%50-75%

*Exceto pacientes com DAC conhecida (probabilidade > 1% mesmo no rule-out)

75-85% dos pacientes são definidos em 1 hora.

Algoritmo 0-3h (SEGUNDA ESCOLHA — apenas se 0-1h ou 0-2h não forem possíveis)

  • Duas dosagens abaixo do percentil 99 em 3h → descarte
  • Acima do percentil 99 com variação > 20% → rule-in
  • Valor > 5x percentil 99 → alta probabilidade de IAM (rule-in)

Descarte com dosagem única (Classe IIa, Nível B)

  • Se sintomas > 3 horas + valor indetectável (muito baixo/abaixo do limite de detecção) + ECG normal + escore clínico baixo risco → pode descartar IAM

Troponina convencional (se TCas indisponível)

  • Coletas a cada 3 horas até tempo hábil: 6-12 horas do início dos sintomas
  • Positivo: acima do percentil 99 do kit

4.8. Diagnóstico de Pericardite

Definido quando 2 dos 4 achados:

  1. Dor torácica característica (fásica, melhora com flexão anterior)
  2. Atrito pericárdico
  3. ECG característico
  4. Achado em exame de imagem

5. TRATAMENTO

5.1. Abordagem Geral Inicial

Esta diretriz é primariamente diagnóstica, remetendo a diretrizes específicas para tratamento. Porém, recomendações iniciais incluem:

  • Sem diagnóstico estabelecido + suspeita de SCA: AAS (na ausência de contraindicações) até elucidação
  • Suspeita de TEP com alta probabilidade pré-teste: considerar início de anticoagulação plena
  • Suspeita de dissecção de aorta: ADIAR qualquer antiagregante/anticoagulante até descarte
  • Medicações sintomáticas e hemodinâmicas conforme necessidade
  • IAMCSST confirmado: seguir diretriz específica de reperfusão
  • Oxigenioterapia: apenas se SatO₂ < 90%

5.2. Fluxo em 4 Passos (Algoritmo Central)

PASSO 1 — ECG até 10 minutos

  • ECG diagnóstico → rota terapêutica específica
  • ECG não diagnóstico → seguir para passo 2

PASSO 2 — Há critérios de instabilidade?

Critérios de instabilidade:

  • ECG limítrofe
  • Dor persistente
  • Instabilidade hemodinâmica/má perfusão
  • Congestão pulmonar aguda
  • Taquiarritmia/bradiarritmia no cenário de dor torácica aguda

SIM (instável):

  • Repetir ECG a cada 10-20 minutos
  • POCUS/ecocardiograma emergencial
  • Dosagem de troponina
  • Apoio de médico experiente
  • Admissão na unidade
  • Considerar time de choque

NÃO (estável):

  • Avaliação clínica detalhada + escores + algoritmos de troponina

PASSO 3 — Diagnóstico estabelecido após avaliação clínica + exames?

SIM:

  • Rule-in: checar critérios de IAM; se não IAM, buscar causa da injúria
  • Rule-out: considerar alta, especialmente se HEART < 4 e sem DAC conhecida

NÃO (zona intermediária):

  • 3ª dosagem de troponina
  • Repetir ECG
  • Escores de risco adicionais (GRACE)
  • Exames conforme suspeita

PASSO 4 — Investigação não invasiva

Reservado para situações de incerteza persistente após passos 1-3.

5.3. Abordagem do Paciente Instável — Principais Causas ("REPITA")

  • R uptura de esôfago
  • E mbolia pulmonar
  • P neumotórax hipertensivo
  • I nfarto (choque cardiogênico)
  • T amponamento cardíaco
  • A orta (dissecção)

Achados ecocardiográficos por etiologia

DiagnósticoEco/POCUS
Choque cardiogênico IAMDisfunção VE, VCI sem variação, linhas B pulmonares
IAM de VDDisfunção VD, VCI sem variação, SEM linhas B
TEP maciçoDilatação VD, VD forma "D", sinal de McConnell, sobrecarga pressórica
TamponamentoDerrame pericárdico, restrição enchimento
Dissecção aortaFlap, dilatação aorta, insuficiência aórtica
Pneumotórax hipertensivoAusência deslizamento pleural, densificação linhas A

5.4. Rotina Ecocardiográfica na Instabilidade

  1. Paraesternal: função VE, valva mitral, diâmetro aorta, tamanho VD
  2. Apical 4C: função VE e VD, valvas, câmaras
  3. Subcostal: função VE e VD, derrame pericárdico, volemia (VCI)
  4. Supraesternal: arco aórtico
  5. Linha hemiclavicular/axilar anterior: USG pulmonar (congestão, pneumotórax)

5.5. Zona Intermediária (Observação) — Conduta

RecomendaçãoClasseEvidência
3ª dosagem troponina + novo ECG com derivações complementaresIC
Revisar diagnósticos diferenciais com escoresIC
Se troponina > p99: checar critérios de IAM + causas alternativasIC
Ecocardiograma para esclarecimentoIIaC
Exames não invasivos se SCA não esclarecidaIIaC
Escolha do teste baseada em disponibilidade/experiênciaIIaC
Não repetir teste se exame negativo recente (AngioTC < 2 anos ou teste funcional < 1 ano)IIbC

5.6. Investigação Não Invasiva — Fluxogramas

Sem DAC conhecida

  • Exame negativo recente (AngioTC normal < 2 anos ou teste funcional negativo < 1 ano): considerar alta
  • Sem exame prévio: AngioTC ou teste de estresse (conforme disponibilidade)
    • Teste de estresse com isquemia moderada/importante → CATE
    • Teste inconclusivo → AngioTC
    • AngioTC sem DAC → alta

Com DAC conhecida

  • Com critérios de alto risco (TCE ≥ 50%, triarterial ≥ 70%, FFR-CT ≤ 0.8, angina frequente, isquemia moderada-importante): → CATE
  • Sem critérios de alto risco:
    • DAC obstrutiva: teste de estresse (preferência)
    • DAC não obstrutiva: AngioTC (preferência)

6. EXAMES COMPLEMENTARES — DETALHAMENTO

6.1. Teste Ergométrico (TE)

IndicaçãoClasseEvidência
Probabilidade intermediária de DAC, ECG e biomarcadores normais, elegível para esforço (idealmente com imagem)IIaB
Tempo suficiente para afastar IAM antes da realizaçãoIIaB
TE negativo nos últimos 12 meses: priorizar outro exameIIaB

Contraindicações na emergência:

  • Dor torácica traumática, dissecção de aorta, TEP, pericardite/miocardite, febre, estenose aórtica grave sintomática, IC descompensada, má perfusão, arritmias/HAS não controladas

Limitantes do TE para diagnóstico de isquemia:

  • BRE, sobrecarga VE/VD, marca-passo, pré-excitação, FA/flutter, infradesnivelamento ST basal ≥ 1 mm

6.2. Ecocardiograma

IndicaçãoClasseEvidência
ECG e troponina inconclusivos + suspeita persistente: eco em repouso até 12h do início da dorIB
Após exclusão de necrose e isquemia de repouso: eco de estresse antes da altaIB
Diagnóstico de pericarditeIB
  • Eco de estresse com dobutamina: sensibilidade 90%, especificidade 80-90%, VPN 98%
  • Eco em repouso VPN para infarto: 94% (em até 12h da dor)

6.3. Cintilografia/PET

IndicaçãoClasseEvidência
Risco intermediário, sem DAC, para diagnóstico de isquemiaIB
Risco intermediário, durante dor (até 2h), marcadores iniciais negativosIB
DAC conhecida com novos/piores sintomasIIaB
Angiografia (invasiva/não invasiva) inconclusivaIIaC

Achados de alto risco na cintilografia:

  1. Isquemia > 10% do miocárdio ou múltiplos territórios
  2. Queda da FEVE ≥ 10% pós-estresse vs repouso
  3. Dilatação VE transitória

6.4. Angiotomografia Coronariana (CTA)

IndicaçãoClasseEvidência
SCA risco baixo-intermediário, ECG normal/não diagnóstico, biomarcadores normais/alterados sem IAM definidoIA
Triple rule-outIIbB
SCA alto riscoIIIC
Diagnóstico definitivo de IAMIIIC

Performance da CTA:

  • Sensibilidade: 85-99%, VPN: 83-99%, Especificidade: 51-90%
  • HEART 3-6 + CTA: sensibilidade 97,8%, especificidade 84,1%, VPN 99,6%

Escore de cálcio NÃO deve ser usado na emergência para predizer lesões coronárias (VPN 0,62; 39% dos pacientes alto risco com SCA tinham cálcio zero)

6.5. Ressonância Magnética Cardíaca (RMC)

IndicaçãoClasseEvidência
Investigação isquêmica com probabilidade intermediáriaIB
Investigação em revascularizados com sintomas de DACIB
Diagnóstico diferencial TINOCAIB
DAC não obstrutiva sem troponina elevada + suspeita INOCAIIaC

Critérios de Lake Louise atualizados (2018) para miocardite:

  • Categoria 1 (edema): T2 ponderado ou mapa T2
  • Categoria 2 (injúria): realce tardio, T1 nativo elevado ou volume extracelular aumentado
  • Diagnóstico: ≥ 1 critério de cada categoria

RMC na Miocardite

IndicaçãoClasseEvidência
Avaliação de função/geometria na suspeita de miocardite aguda/subaguda/crônicaIB
Investigação diagnóstica e prognósticaIB
Acompanhamento 4-12 semanas pós-agudoIIaB
Miocardite fulminante com instabilidadeIIIB

6. POPULAÇÕES ESPECIAIS

Mulheres

  • Apresentação de dor torácica com frequência semelhante aos homens no IAM
  • Porém, mais propensas a ter 3 ou mais outros sintomas associados
  • Maior probabilidade de DAC não obstrutiva vs homens
  • Maior tempo entre percepção de sintomas e acionamento pré-hospitalar
  • Maiores taxas de mortalidade intra-hospitalar
  • PET MPI com reserva de fluxo coronariano útil para avaliar disfunção microvascular
  • Em estudo de mulheres baixo risco com ECG/troponinas normais: TE ou métodos de imagem não melhoraram predição de IAM ou revascularização em 30 dias

Idosos (> 65-70 anos)

  • HEART score atribui 2 pontos para ≥ 65 anos
  • Maior probabilidade de apresentações atípicas/equivalentes isquêmicos
  • Preditores de choque cardiogênico: idade > 70 anos
  • Pontos de corte de troponina universais (não demonstraram melhor equilíbrio ao ajustar para > 75 anos)

Pacientes com Doença Renal Crônica

  • Troponina pode estar cronicamente elevada
  • Pontos de corte universais mantidos (não demonstraram benefício ao ajustar)
  • Valorizar variação (delta) para distinguir injúria aguda vs crônica

Pacientes com DAC Conhecida

  • Algoritmo 0-1h rule-out NÃO é suficiente isoladamente (probabilidade IAM > 1% mesmo no rule-out)
  • Conduta mais conservadora: usar escores clínicos adicionais
  • Investigação não invasiva: teste de estresse preferencial se sem critérios de alto risco

Ambiente Pré-hospitalar

  • Critérios diagnósticos idênticos ao intra-hospitalar
  • ECG em até 10 minutos do primeiro contato
  • preHEART score: ferramenta promissora (VPN 99,3%)
  • Troponina POC: pode ser considerada (Classe IIb, Nível B)
  • Tele-ECG: beneficia atendimento, reduz eventos cardiovasculares

INDICADORES DE QUALIDADE DAS UNIDADES DE DOR TORÁCICA

IndicadorMeta/Parâmetro
Tempo porta-ECG≤ 10 minutos
Tempo porta-agulha (fibrinólise)Conforme diretriz IAMCSST
Tempo porta-balão (ICP primária)Conforme diretriz IAMCSST
Permanência na UDTMonitorar
AAS na admissão (SCA)100% dos elegíveis
Dupla antiagregação na alta (SCA)100% dos elegíveis
Estatina alta intensidade na alta100% dos elegíveis
Percepção do pacienteMonitorar
Relatórios de indicadoresTrimestrais

Documento elaborado com base na íntegra do texto da Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025; 122(9):e20250620). Todos os valores numéricos, classificações, escores e recomendações foram extraídos diretamente do documento original.

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Pontos de prova — alta probabilidade

15 pontos que tendem a cair na prova

Outros pontos relevantes

  • 01

    Tempo porta-ECG: 10 minutos — meta fundamental, memorizar

  • 02

    ECG não exclui SCA: um único ECG detecta < 50% dos IAMs; sensibilidade aumenta com ECGs seriados (70-90%)

  • 03

    Critérios de elevação de ST diferenciados por sexo/idade: memorizar os 3 pontos de corte em V2-V3

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Da diretriz pra prova

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Cardiologia cai dentro de Clínica Médica nas bancas de residência — abaixo, as 5 que mais cobram Clínica Médica.

Predições são estimativas geradas pela IA M.A.E.S.T.R.O.® — não substituem o edital oficial da banca.

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