2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA
Por que esta diretriz foi publicada
- É a primeira diretriz formal AHA/ACC dedicada exclusivamente à EP aguda em adultos. Documentos anteriores eram scientific statements (2011, 2019, 2023) e não diretrizes com recomendações formais com Classe de Recomendação (COR) e Nível de Evidência (LOE).
- A necessidade surgiu da heterogeneidade de desfechos dentro das categorias de risco anteriores, da importância de reconhecer estados pré-colapso cardiopulmonar e do avanço de terapias avançadas (trombectomia mecânica, trombólise dirigida por cateter).
O que mudou em relação a classificações anteriores
- AHA 2011: 3 categorias (low risk, submassive, massive).
- ESC 2019: 4 categorias (low risk, intermediate-low, intermediate-high, high risk).
- AHA/ACC 2026: 5 categorias (A–E) com subcategorias numéricas (1–3) e modificador respiratório (R), permitindo classificação mais granular.
Escopo
- Período desde o início dos sintomas até o seguimento clínico ambulatorial.
- Não inclui: profilaxia primária de TEV, manejo de TVP isolada (exceto quando associada a EP), tratamento estabelecido de CTEPD/CTEPH.
3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES
3.1. Definições Fundamentais
| Termo | Definição |
|---|
| Terapia médica guiada por diretriz (GDMT) | Abrange avaliação clínica, testes diagnósticos e tratamentos farmacológicos e procedimentais |
| Fase de tratamento inicial | Primeiros 3 a 6 meses de anticoagulação após EP aguda |
| Fase de tratamento estendida | Anticoagulação >6 meses após EP aguda, sem data de término prevista |
| Choque normotensivo | Hipoperfusão isolada sem hipotensão: lactato >2 mmol/L, débito urinário <0,5 mL/kg/h (ou <720 mL/24h), elevação de creatinina ≥0,3 mg/dL em 24h, índice cardíaco ≤2,2 L/min/m² |
| CTEPD | Doença tromboembólica pulmonar crônica — sintomas persistentes, obstrução vascular pulmonar residual (RPVO) e limitação ao exercício por doença vascular pulmonar, com ou sem HP em repouso |
| CTEPH | CTEPD com hipertensão pulmonar em repouso |
3.2. Sistema de Categorias Clínicas AHA/ACC para EP Aguda (Figura 2)
Conceito central: A categoria é definida pelo indicador clínico, laboratorial ou de imagem MAIS GRAVE presente. Pacientes podem transitar entre categorias ao longo do tempo.
Categoria A — EP subclínica / incidental / assintomática
| Subcategoria | Descrição |
|---|
| A1 | EP assintomática encontrada incidentalmente em TC realizada por outra indicação (ex.: estadiamento oncológico) |
Categoria B — EP sintomática com escore de gravidade clínica BAIXO
- Escore baixo = PESI ≤85 (classes I-II), sPESI = 0, Hestia = 0
| Subcategoria | Descrição |
|---|
| B1 | EP subsegmentar (única ou múltipla) |
| B2 | EP segmentar ou mais proximal |
Categoria C — EP sintomática com escore de gravidade clínica ELEVADO
- Escore elevado = PESI >85 (classes III-V), sPESI ≥1, Hestia ≥1, Bova >4
| Subcategoria | Descrição |
|---|
| C1 | Sem disfunção de VD e sem biomarcadores elevados |
| C1R | C1 + modificador respiratório |
| C2 | Biomarcadores elevados (troponina e/ou BNP) OU disfunção de VD |
| C3 | Biomarcadores elevados (troponina e/ou BNP) E disfunção de VD |
| C3R | C3 + modificador respiratório |
Categoria D — Insuficiência cardiopulmonar incipiente (pré-colapso / choque normotensivo)
| Subcategoria | Descrição |
|---|
| D1 | Hipotensão transitória ou recorrente (PAS <90 ou queda >40 mmHg, durando <15 min ou respondendo a fluidos IV), sem sinais de hipoperfusão ou disfunção de órgão-alvo |
| D2 | Hipotensão transitória com marcador de hipoperfusão ou disfunção orgânica (lactato >2, IRA, débito urinário reduzido, alteração do estado mental, IC <2,2, PAM <60, aumento de escore de choque SCAI B-C) |
| DR | D + necessidade de >6 L CN ou máscara não-reinalante |
Categoria E — Insuficiência cardiopulmonar estabelecida
| Subcategoria | Descrição |
|---|
| E1 | Hipotensão recorrente/persistente com choque cardiogênico (compatível com SCAI stage C) |
| E2 | Choque cardiogênico refratário (SCAI D-E) ou parada cardíaca sem retorno de circulação espontânea após 30 min de RCP |
| ER | E + necessidade de ventilação com pressão positiva (VNI ou invasiva) |
Modificador Respiratório (R)
Adicionado quando há:
- Hipoxemia ou taquipneia
- Necessidade de oxigênio suplementar
- Na categoria D/E: >6 L por cânula nasal, máscara não-reinalante, VNI ou ventilação mecânica invasiva
3.3. Comparação de Classificações ao Longo do Tempo (Tabela 5)
| Ano | Organização | Categorias |
|---|
| 2011 | AHA | Low risk / Submassive (PAS ≥90 + disfunção VD ou troponina) / Massive (PAS <90 >15 min ou suporte inotrópico) |
| 2019 | ESC | Low / Intermediate-low / Intermediate-high / High risk |
| 2026 | AHA/ACC | A / B / C / D / E (com subcategorias e modificador R) |
3.4. Escores de Risco Clínico (Tabela 6)
Escore de Wells para EP
| Componente | Pontos |
|---|
| Sinais clínicos de TVP | 3 |
| EP mais provável que outros diagnósticos | 3 |
| FC >100 bpm | 1,5 |
| Imobilização ≥3 dias ou cirurgia nas últimas 4 semanas | 1,5 |
| TVP ou EP prévias | 1,5 |
| Hemoptise | 1 |
| Câncer | 1 |
Classificação padrão: Baixo <2 / Moderado 2-6 / Alto >6
Classificação modificada: EP improvável ≤4 / EP provável >4
Escore de Geneva Revisado
| Componente | Pontos (Original) | Pontos (Simplificado) |
|---|
| Idade >65 anos | 1 | 1 |
| TVP ou EP prévia | 3 | 1 |
| Cirurgia com anestesia geral ou fratura de MMII no último mês | 2 | 1 |
| Câncer ativo | 2 | 1 |
| Dor unilateral em MI | 3 | 1 |
| Hemoptise | 2 | 1 |
| FC 75-94 bpm | 3 | 1 |
| FC ≥95 bpm | 5 | 1 |
| Dor à palpação profunda + edema unilateral de MI | 4 | 1 |
Classificação (Revisado): Baixo 0-3 / Intermediário 4-10 / Alto ≥11
Classificação (Simplificado): Baixo 0-1 / Intermediário 2-4 / Alto 5-7; Improvável 0-2 / Provável 3-7
PERC (Pulmonary Embolism Rule-Out Criteria)
Aplicar se probabilidade clínica pré-teste (gestalt) <15% (ex: Wells <2). Se TODOS os critérios estiverem presentes, EP é improvável:
- Idade <50 anos
- FC <100 bpm
- SpO₂ ≥95%
- Sem hemoptise
- Sem uso de estrogênio
- Sem TVP ou EP prévias
- Sem edema unilateral de MI
- Sem cirurgia/trauma com hospitalização nas últimas 4 semanas
PESI (Pulmonary Embolism Severity Index)
| Componente | Pontos |
|---|
| Idade | = idade em anos |
| Sexo masculino | +10 |
| Câncer | +30 |
| Insuficiência cardíaca | +10 |
| Doença pulmonar crônica | +10 |
| FC ≥110 bpm | +20 |
| PAS <100 mmHg | +30 |
| FR ≥30 irpm | +20 |
| Temperatura <36°C | +20 |
| Alteração do estado mental | +60 |
| SpO₂ <90% | +20 |
Classes: I (≤65) / II (66-85) / III (86-105) / IV (106-125) / V (≥126)
sPESI (simplified PESI)
1 ponto para cada: Idade >80, câncer, doença cardiopulmonar crônica, PAS <100, FC ≥110, SpO₂ <90%
- 0 pontos: baixo risco de mortalidade em 30 dias
- ≥1 ponto: alto risco
Escore de Bova
| Componente | Pontos |
|---|
| PAS 90-100 mmHg | 2 |
| Troponina elevada | 2 |
| Disfunção de VD | 2 |
| FC ≥110 bpm | 1 |
Estágios: I (0-2) / II (3-4) / III (>4)
Critérios de Hestia
Se todas as respostas forem "Não", considerar manejo ambulatorial:
- Paciente hemodinamicamente instável?
- Necessário trombólise ou embolectomia?
- Sangramento ativo ou alto risco de sangramento?
- Necessidade de O₂ >24h para manter SpO₂ >90%?
- EP diagnosticada durante tratamento anticoagulante?
- Dor intensa requerendo analgesia IV >24h?
- Razões médicas ou sociais para hospitalização >24h?
- Clearance de creatinina <30 mL/min?
- Insuficiência hepática grave?
- Paciente grávida?
- Histórico de trombocitopenia induzida por heparina?
Escore CPES (Composite Pulmonary Embolism Shock)
1 ponto para cada (0-6): troponina elevada, BNP elevado, função VD moderada/gravemente reduzida, trombo central (saddle PE), TVP concomitante, FC ≥100 bpm
- 0-5: risco menor para choque normotensivo
- 6: risco maior para choque normotensivo (IC ≤2,2 L/min/m²)
NEWS e NEWS2
Parâmetros: FR, SpO₂, temperatura, PAS, FC, nível de consciência, necessidade de O₂ suplementar
4. DIAGNÓSTICO
4.1. Avaliação Clínica
Recomendações
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | A | Em pacientes com sintomas sugestivos de EP aguda, história direcionada e exame físico completo são recomendados para auxiliar na probabilidade pré-teste clínica |
| 2a | B-R | D-dímero ajustado por idade (idade × 10 μg/L para ensaios FEU) efetivamente exclui EP em pacientes com probabilidade clínica baixa/intermediária (<50%) |
| 2a | B-R | Algoritmo YEARS pode ser útil para identificar pacientes que não necessitam de imagem |
| 2b | B-NR | Em gestantes, pode ser razoável usar os critérios YEARS adaptados para gravidez |
Algoritmo YEARS
- ≥1 critério YEARS presente (sinais de TVP, hemoptise, EP como diagnóstico mais provável): limiar de D-dímero = 500 μg/L
- Nenhum critério YEARS: limiar de D-dímero = 1000 μg/L
D-dímero
- Limiar padrão: <500 μg/L (FEU)
- Limiar ajustado por idade: idade × 10 μg/L (para pacientes >50 anos)
- Taxa de falha aceitável: <2% de TEV em 3 meses
- Validação: Estudo prospectivo com 3.346 pacientes: taxa de falha em 3 meses de 0,3% (IC 95%: 0,1%-1,7%) para >50 anos com D-dímero entre padrão e ajustado por idade
- Não utilizar em pacientes anticoagulados
Sintomas mais comuns de EP
- Dor torácica pleurítica, dispneia (mais comuns)
- Hemoptise, síncope, choque (menos comuns)
- <10% dos pacientes avaliados para EP são efetivamente diagnosticados
Gestantes
- EP responsável por até 11% das mortes relacionadas à gravidez nos EUA
- Taxa de positividade de CTPA em gestantes: apenas 4,1%
- YEARS adaptado para gravidez com D-dímero 1000 μg/L → evita 65% dos CTPAs no primeiro trimestre
- Se sintomas de MMII + US de compressão positivo → tratar com anticoagulação sem necessidade obrigatória de CTPA
4.2. Testes Diagnósticos de Imagem
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | A | Imagem é recomendada para pacientes com probabilidade alta (>50%) ou D-dímero elevado |
| 1 | A | CTPA positiva ou cintilografia V/Q de alta probabilidade são suficientes para diagnosticar EP |
| 1 | B-R | CTPA é preferida sobre V/Q para confirmar diagnóstico |
| 2a | B-NR | Em gestantes com YEARS sugestivo de EP e RX de tórax normal: CTPA de baixa dose de radiação é razoável sobre cintilografia de perfusão de baixa dose |
| 2a | B-R | V/Q SPECT é razoável em preferência a V/Q planar |
| 2a | B-R | Quando CTPA não é possível, V/Q é preferível à angiografia por RM |
| 2b | B-NR | Duplex venoso de MMII pode ser razoável se achados clínicos de TVP ou se a presença de TVP mudar conduta/prognóstico |
| 3: Sem benefício | B-NR | Com CTPA negativa ou V/Q SPECT normal, US venosa NÃO é útil para avaliação adicional de EP |
| 3: Sem benefício | B-NR | Ecocardiograma NÃO é recomendado para confirmar ou excluir EP |
| 3: Sem benefício | B-R | Venografia por TC (CTV) NÃO é recomendada como adjunto rotineiro à CTPA |
Achados de Imagem a Relatar
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | B-R | Na CTPA: relatar relação VD/VE numérica (diâmetro interno em corte axial ou 4 câmaras) — preferível à quantificação subjetiva |
| 1 | B-NR | Na ecocardiografia: avaliar e relatar todos os parâmetros de disfunção de VD |
| 2b | B-NR | Relatar achados crônicos na CTPA (webs intravasculares, retração/dilatação de AP, dilatação de artérias brônquicas, hipertrofia de VD, achatamento do septo IV) |
Relação VD/VE na CTPA
- Ponto de corte ≥1,0: sensibilidade 85% (IC 81-89%), especificidade 72% (IC 67-77%)
- Ponto de corte ≥0,9: sensibilidade 92% (IC 89-95%), especificidade 56% (IC 46-66%)
- VD/VE por CTPA é preditor independente de mortalidade intra-hospitalar, em 30 dias e deterioração clínica
Parâmetros de Disfunção de VD na Ecocardiografia (Tabela 4)
| Parâmetro | Técnica | Valor anormal |
|---|
| Dimensão VD (EDD) | Apical 4C focado em VD / Apical 4C padrão | EDD >30 mm (focado); EDD basal >42 mm |
| Relação VD/VE | Razão diastólica final (apical ou subcostal) | >0,9 |
| TAPSE | Modo M, excursão sistólica longitudinal do anel tricúspide | <1,6 cm = anormal |
| Evidência Doppler de HP | Doppler tecidual | Tempo de aceleração pulmonar <90 ms, ou gradiente VD/AD >30 mmHg |
| Velocidade sistólica tricúspide | Apical ou subcostal 4C | >2,6 m/s |
| McConnell's sign | Hipocinesia de parede livre do VD com preservação do ápice | Presente/ausente |
| Septo paradoxal | Movimento septal paradoxal | Presente/ausente |
| Colapso respirofásico da VCI | Colapso inspiratório | Avaliar |
4.3. Biomarcadores para Estratificação de Risco
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | B-NR | Em EP Categoria C: pelo menos 1 biomarcador cardíaco (troponina ou BNP) é recomendado |
| 1 | B-NR | Em EP Categorias C-E em unidade de cuidado agudo: medida de lactato (venoso ou arterial) é recomendada |
Valores prognósticos dos biomarcadores
- Troponina elevada: OR 4,33 para mortalidade por todas as causas; OR 4,80 para mortalidade em 90 dias
- BNP elevado: OR 6,57 para mortalidade de curto prazo; OR 7,47 para eventos adversos graves
- Lactato elevado: OR 5,13 para mortalidade em EP não selecionada; OR 4,54 em normotensos; OR 9,05 para mortalidade relacionada à EP
4.4. Imagem de VD para Estratificação de Risco
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | A | Em EP Categorias C-D sem choque: imagem de VD é recomendada para estratificação de risco de curto prazo |
| 2a | B-NR | Ecocardiografia é preferida sobre TC para estratificação de risco |
- Disfunção de VD no eco → OR 2,0 para mortalidade por todas as causas; OR 4,01 para mortalidade por EP; OR 6,16 para mortalidade por EP em risco intermediário
- VD disfunção por eco, TC ou BNP/NT-proBNP → OR 4,81 para morte de curto prazo; OR 22,9 para morte por EP
- Point-of-care ultrasound pode ser alternativa aceitável ao ecocardiograma formal se este não estiver disponível
4.5. Quantificação de Carga Trombótica
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 3: Sem benefício | B-NR | Em EP Categorias A-C, quantificação de carga trombótica NÃO é recomendada para estratificação de risco de curto prazo |
- Metanálise: NÃO há correlação entre índice de obstrução alto e prognóstico; paradoxalmente, menor índice de obstrução associou-se a maior mortalidade (OR 2,24)
4.6. Avaliação Hemodinâmica
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | B-NR | Em EP Categoria D2: avaliar choque normotensivo (lactato >2, DU <720 mL/24h, Cr ↑≥0,3, IC ≤2,2, PAM <60) |
| 2a | B-NR | Em EP Categoria C3: PAM <80 mmHg pode ser útil para identificar pacientes que necessitam escalada terapêutica |
- PAM ótima como preditor: 81,5 mmHg (AUC 0,77); sensibilidade 77,5%, especificidade 95%, VPN 97,7%
- Janela crítica: primeiras 24-72 horas (baseado no PEITHO: tempo médio até desfecho = 1,5-1,79 dias ± 1,5 dias)
5. TRATAMENTO
5.1. Decisão de Internação vs. Tratamento Ambulatorial
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | B-R | Usar ferramenta de decisão (Hestia, PESI, sPESI) para identificar elegibilidade ao tratamento ambulatorial |
| 2a | B-R | Em EP Categorias A-B diagnosticada em clínica/PS: tratamento ambulatorial é opção razoável se taxa de eventos adversos em 90 dias é baixa e alinhada com metas do paciente |
Requisitos para alta ambulatorial: acesso imediato a anticoagulante e seguimento rápido, confiável e especializado.
Dados de segurança ambulatorial (metanálise individual): mortalidade 30 dias = 0,30% (IC 0,09-0,51%), TEV recorrente = 0,57% (IC 0,28-0,86%), sangramento maior = 0,45% (IC 0,19-1,71%).
5.2. Local de Internação
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-EO | Pacientes recebendo trombolíticos (sistêmicos ou CDL): UTI ou unidade de cuidados intermediários |
| 2a | B-R | Após trombectomia mecânica em pacientes estáveis: unidade com telemetria contínua e enfermagem familiarizada com complicações do dispositivo |
No estudo PEERLESS: >60% dos pacientes tratados com trombectomia mecânica receberam cuidados pós-procedimento em ambientes não-UTI com taxas muito baixas de eventos adversos.
5.3. Transferência Inter-hospitalar
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2b | C-LD | EP Categorias C3-D com características de alto risco (disfunção VD, biomarcadores elevados): considerar transferência para centro com terapias avançadas |
| 3: Dano | C-EO | Pacientes instáveis (Categoria E): NÃO devem ser transferidos antes da estabilização |
Crítico: Intervenções potencialmente salva-vidas amplamente disponíveis (como trombólise IV) não devem ser adiadas em pacientes instáveis.
5.4. PERT (Pulmonary Embolism Response Team)
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | B-NR | Em EP Categorias C-E: avaliação multidisciplinar PERT é recomendada para melhorar a entrega de cuidados clínicos intra-hospitalares |
Benefícios demonstrados do PERT:
- ↓ Tempo para anticoagulação terapêutica
- ↓ Uso de filtros de VCI
- ↓ Tempo de internação hospitalar e em UTI (na maioria dos estudos)
- Impacto misto na mortalidade (alguns estudos mostram redução)
5.5. Anticoagulação
Recomendações Gerais
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | B-R | Anticoagulação deve ser iniciada em pacientes sem contraindicação absoluta |
| 1 | B-R | Quando terapia parenteral inicial é necessária (Categorias C1-E1): HBPM é recomendada sobre HNF |
| 1 | B-R | Para anticoagulação oral: DOACs são recomendados sobre AVK (exceto se contraindicado) |
| 2a | C-EO | Em EP suspeita ≥Categoria C2 com baixo risco de sangramento e imagem atrasada: iniciar anticoagulação terapêutica empiricamente |
Dados-chave:
- HBPM vs HNF: ↓ TEV recorrente, ↓ sangramento maior, ↓ incidência de HIT, farmacocinética previsível
- DOACs vs AVK: eficácia comparável, ↓ sangramento maior (especialmente HIC), ↓ sangramento fatal, ↓ mortalidade cardiovascular, ↓ mortalidade por todas as causas
- DOACs incluem: apixabana, rivaroxabana, edoxabana (inibidores fator Xa) e dabigatrana (inibidor direto de trombina)
Situações Especiais de Anticoagulação
Obesidade
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | B-NR | IMC >30: DOAC (sobre AVK) é razoável |
| 2b | B-NR | Obesidade classe III (IMC >40): redução de dose de HBPM pode ser razoável para reduzir sangramento |
- Estudos de apixabana e rivaroxabana em obesos (incluindo IMC ≥50 ou peso ≥150 kg): segurança e eficácia comparáveis a AVK
- ECR pequeno de enoxaparina em IMC ≥40: 0,8 mg/kg vs 1,0 mg/kg 2x/dia → grupo de dose reduzida atingiu mais frequentemente níveis terapêuticos; grupo de dose padrão teve mais níveis supraterapêuticos
- Evitar DOACs por pelo menos 4 semanas após cirurgia bariátrica (preocupação com absorção)
Síndrome Antifosfolípide (SAF) Trombótica
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | A | SAF trombótica estabelecida: AVK é recomendado sobre DOAC |
| 2b | B-R | SAF com anticorpo único (anticardiolipina ou β2-glicoproteína isolado): DOAC pode ser alternativa razoável |
- DOACs em SAF: aumento consistente do risco de trombose arterial subsequente
- Risco maior em triplo-positivos e com história de trombose arterial
- Em SAF, evento futuro é geralmente venoso (84%)
Tumores Cerebrais
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2b | C-LD | Tumor cerebral primário ou metastático + EP elegível para anticoagulação oral: DOAC pode ser considerado sobre HBPM para reduzir risco de HIC |
Doença Renal Crônica
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | A | DRC leve-moderada (estágio 2-3): DOAC recomendado sobre AVK |
| 2b | B-NR | DRC grave (estágio 4-5) ou em hemodiálise: incerto se apixabana é melhor que AVK |
- Excreção renal dos DOACs: dabigatrana 80%, edoxabana 50%, rivaroxabana 33%, apixabana 27%
Gravidez e Amamentação
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-LD | Gestante com EP: HBPM ou HNF são recomendados |
| 3: Dano | C-LD | Gestante: DOACs e varfarina são potencialmente danosos (abortos, anomalias fetais) |
| 1 | C-LD | Amamentação: HBPM, HNF ou varfarina são recomendados sobre DOAC |
Doença Hepática Crônica
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | C-LD | Child-Pugh A: DOAC é razoável sobre AVK |
| 2b | C-LD | Child-Pugh B: DOAC pode ser razoável sobre AVK |
| 3: Dano | C-LD | Child-Pugh C: DOAC NÃO é recomendado (risco de sangramento aumentado) |
Clearance hepático dos DOACs: apixabana 75%, rivaroxabana 65%, edoxabana 50%, dabigatrana 20%.
Anticoagulação e Procedimentos Endovasculares
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-LD | Durante CDL: anticoagulação terapêutica (HBPM/HNF) ou subterapêutica (HNF) concomitante é recomendada |
| 1 | B-NR | Após procedimento endovascular ou trombólise: HBPM é preferida sobre HNF como anticoagulação parenteral inicial |
Monitorização de Anti-Xa para HBPM
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-LD | Quando monitorização é indicada: medir anti-Xa pico 3-5h após dose, em estado estacionário (≥3 doses) |
| 2a | C-LD | DRC grave (ClCr <30 mL/min) em uso de HBPM: monitorizar anti-Xa é razoável |
| 2b | C-LD | Gestantes em HBPM: monitorizar anti-Xa pico pelo menos 1x/trimestre — utilidade não bem estabelecida |
| 2b | C-LD | Peso >150 kg ou IMC >40 em HBPM: monitorizar anti-Xa — benefício não estabelecido |
| 2b | C-LD | Pacientes em UTI com HBPM: benefício da monitorização de anti-Xa não estabelecido |
| 3: Sem benefício | A | Na maioria dos pacientes com HBPM baseada em peso: monitorização de anti-Xa e ajuste de dose NÃO é indicada |
5.6. Farmacoterapia Hemodinâmica
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-LD | Choque cardiogênico por EP (Categorias D2-E2): vasopressores e/ou inotrópicos são recomendados |
| 2b | C-LD | Categorias D1-2 com preocupação de pré-carga reduzida: volume com SF ou expansores pode ser considerado |
| 2b | B-R | Categorias C2-E: vasodilatadores pulmonares inalatórios podem ser considerados |
Escolha de vasopressores
- Norepinefrina (NE): vasopressor de escolha — aumenta RVS, efeito inotrópico modesto; em doses ≤15 μg/min tem pouco efeito na RVP
- NE >15 μg/min: pode aumentar RVP → adicionar segundo vasopressor (vasopressina, fenilefrina) em vez de aumentar dose
- Dobutamina (até 10 μg/kg/min): considerar como adjunto à NE em baixo DC + hipotensão (E1-2) ou como agente inicial no choque normotensivo (D2)
- Volume: cautela — bolus ≤500 mL em normotensos com sinais de baixo DC; volumes excessivos podem piorar função VD
Vasodilatadores pulmonares
- Óxido nítrico inalado: ECR multicêntrico não melhorou desfecho primário composto (normalização de troponina + eco em 24h), mas análise post-hoc mostrou melhora significativa de tamanho e função do VD em 24h
- Sildenafil oral e epoprostenol IV: benefício mínimo ou nulo em ECRs pequenos
5.7. Sedação e Estratégias Ventilatórias
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-LD | EP Categorias C-E que requerem sedação para intubação: vasopressores, inotrópicos e/ou VA-ECMO devem estar disponíveis |
| 2a | C-LD | Hipóxia moderada-grave: cânula nasal de alto fluxo aquecida (CNAF) é benéfica sobre CN padrão |
| 3: Dano | C-LD | EP Categorias C-E: sedação profunda e ventilação mecânica NÃO devem ser realizadas a menos que clinicamente indicadas, para evitar colapso hemodinâmico |
Dados críticos sobre sedação:
- Em série de embolectomia cirúrgica: RCP necessária em 19% dos pacientes após indução anestésica, todos hemodinamicamente estáveis antes da indução
- Outra série: necessidade de RCP relacionada à indução em 28% (9/32) dos pacientes
- Propofol durante CDL para EP submassiva: associado a aumento da mortalidade
5.8. Suporte Circulatório Mecânico (VA-ECMO)
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | B-NR | EP em VA-ECMO: manter anticoagulação parenteral na ausência de sangramento |
| 2a | B-NR | Choque cardiogênico refratário por EP (Categoria E2): VA-ECMO é razoável se recursos disponíveis |
| 2b | C-LD | EP Categoria E2 em VA-ECMO: utilidade de terapias avançadas adicionais não bem estabelecida |
5.9. Filtro de Veia Cava Inferior (VCI)
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | B-R | Pacientes que não toleram anticoagulação e necessitam de filtro: filtros recuperáveis são recomendados sobre permanentes |
| 1 | C-LD | Filtros recuperáveis: remoção deve ser tentada assim que risco de EP diminuir e anticoagulação for tolerada |
| 2a | B-R | Pacientes que não toleram anticoagulação: filtros de VCI podem ser úteis para reduzir EP recorrente a curto prazo |
| 2a | C-LD | Filtros instalados: programa de seguimento estruturado é razoável para aumentar taxas de retirada |
| 2b | C-LD | EP Categorias D-E em terapia avançada: benefício do filtro é incerto |
| 2b | C-LD | EP recorrente apesar de anticoagulação ótima: filtro pode ser considerado |
| 3: Dano | A | Em pacientes terapeuticamente anticoagulados: NÃO colocar filtro de VCI rotineiramente |
Dados-chave:
- PREPIC: filtros ↓ EP recorrente, mas ↑ TVP e trombose de VCI a longo prazo, sem benefício de sobrevida
- PREPIC2: sem benefício adicional em pacientes anticoagulados
- Metanálise: filtros ↓ EP ~50%, mas ↑ TVP ~70%, sem efeito na mortalidade
- FDA recomenda remoção entre 29-54 dias após colocação
- Recuperação difícil após 50 dias, falha mais frequente após 90 dias
- Filtros permanentes reservados para casos raros (ex: mega-cava VCI >30 mm)
5.10. Terapias Avançadas
Resumo de Indicações por Categoria (Tabela 7)
| Categoria | Trombólise Sistêmica | CDL | Trombectomia Mecânica | Embolectomia Cirúrgica |
|---|
| A-C1 | 3: Dano (A) | 3: Sem Benefício | 3: Sem Benefício | 3: Sem Benefício |
| C2 | 3: Dano (B-R) | 2b (incerto) | 2b (incerto) | 3: Sem Benefício |
| C3 | 2b (incerto) | 2b (incerto) | 2b (incerto) | 3: Sem Benefício |
| D1-2 | 2b (pode ser considerada) | 2b (B-NR, pode ser considerada) | 2b (B-NR, pode ser considerada) | 2b (pode ser considerada) |
| E1 | 2a | 2a | 2a (B-NR) | 2a (B-NR) |
| E2 | 2a | N/A | N/A | 3: Sem Benefício (B-NR) |
5.10.1. Trombólise Sistêmica
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | C-LD | EP Categorias E1-2 com risco de sangramento aceitável: trombólise sistêmica + anticoagulação é razoável |
| 2b | C-LD | EP Categorias D1-2: pode ser considerada |
| 2b | C-LD | EP Categoria C3: incerto |
| 2b | C-LD | Trombólise em dose reduzida pode ser considerada para reduzir risco de sangramento |
| 3: Dano | B-R | EP Categorias A1-C2: trombólise NÃO deve ser usada (↑ sangramento maior e HIC) |
Agentes aprovados pelo FDA para EP: estreptoquinase, uroquinase, rt-PA (alteplase). Tenecteplase não é aprovado para EP.
Dose padrão de rt-PA: 100 mg em 2 horas.
Dose reduzida: 25-50 mg de rt-PA (evidências emergentes de eficácia similar com menor sangramento).
PEITHO trial (1006 pacientes, Categorias C3-D2):
- Tenecteplase + heparina vs placebo + heparina
- ↓ Colapso cardiovascular
- ↑ Sangramento maior: 6,3% vs 1,2% (P<0,001)
- ↑ AVC hemorrágico: 2,4% vs 0,2% (P=0,003)
- Trombólise de resgate foi benéfica em pacientes que descompensaram
Metanálise de 16 estudos (2115 pacientes, incluindo C3-D2):
- Trombólise ↓ mortalidade por todas as causas (OR 0,53; NNT=59)
- ↑ HIC (OR 4,6; NNH=78)
5.10.2. Trombólise Dirigida por Cateter (CDL)
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | C-LD | EP Categoria E1: CDL + anticoagulação é razoável |
| 2b | B-NR | EP Categorias D1-2: CDL + anticoagulação pode ser considerada |
| 2b | C-LD | EP Categorias C2-3: benefício vs anticoagulação isolada é incerto |
| 2b | C-LD | EP Categorias D1-E1: eficácia de CDL vs trombólise sistêmica é incerta, mas CDL pode ser considerada para reduzir risco de sangramento maior |
| 3: Sem benefício | B-NR | Dose reduzida de alteplase <5 mg/AP NÃO é recomendada sobre dose padrão (5-10 mg/AP) para reduzir sangramento ou deterioração |
| 3: Sem benefício | C-EO | EP Categorias A-C1: CDL NÃO é recomendada |
- Doses de rt-PA em CDL: 4-24 mg total em 2-24 horas
- Dose reduzida: <5 mg/AP; Dose padrão: 5-10 mg/AP
- Dose total de 24 mg associada a alta taxa de sangramento maior
- Doses padrão mostraram mais remoção de trombo que doses reduzidas
5.10.3. Trombectomia Mecânica (MT)
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | B-NR | EP Categoria E1: MT + anticoagulação é razoável |
| 2b | B-NR | EP Categorias D1-2: MT pode ser considerada |
| 2b | C-LD | EP Categorias C2-3: benefício é incerto |
| 2b | B-NR | EP Categorias D1-E1: MT vs trombólise sistêmica — eficácia incerta, mas MT pode ser considerada para ↓ sangramento maior |
| 3: Sem benefício | C-EO | EP Categorias A-C1: MT NÃO é recomendada |
PEERLESS (550 pacientes, Categorias C2-D2): MT vs CDL → sem diferenças significativas em mortalidade 30 dias ou sangramento maior. Desfecho combinado de deterioração clínica + bailout foi mais frequente no grupo CDL.
FLAME (115 pacientes de alto risco, Categoria E1): MT vs outras terapias contemporâneas → incidência do desfecho primário composto: MT 17% vs controle 63,9%; mortalidade intra-hospitalar MT 1,9% vs controle 29,5%.
5.10.4. Embolectomia Cirúrgica
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | B-NR | EP Categoria E1: razoável comparada à anticoagulação isolada |
| 2b | C-LD | EP Categorias D1-2: pode ser considerada |
| 2b | B-NR | EP Categorias D1-E1 como candidatos cirúrgicos: benefício sobre trombólise é incerto, mas pode ser considerada para ↓ risco de HIC |
| 3: Sem benefício | C-EO | EP Categorias A-C3: NÃO recomendada |
| 3: Sem benefício | B-NR | EP Categoria E2 sem suporte circulatório: NÃO recomendada sobre outras terapias avançadas |
- Mortalidade cirúrgica: 1%-15% dependendo de confundidores pré-operatórios
- Sobrevida >97% em pacientes que não necessitaram de RCP
- Não há relatos de HIC após embolectomia cirúrgica
- Excelente recuperação VD com normalização de pressões e função ao ecocardiograma
5.11. Clot-in-Transit (Trombo Flutuante Intracardíaco)
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | C-LD | EP Categorias C3-E2 com trombo flutuante em AD/VD: terapias avançadas são razoáveis sobre anticoagulação isolada |
- Presente em 2%-4% dos diagnósticos de EP
- Associação independente com mortalidade (OR 2,26)
6. POPULAÇÕES ESPECIAIS
6.1. Gestantes
- Diagnóstico: critérios YEARS adaptados para gravidez; D-dímero com limiar de 1000 μg/L em baixo risco
- Imagem: CTPA de baixa dose ou cintilografia de perfusão de baixa dose; se sintomas de MMII + US compressão positiva → tratar sem necessidade de CTPA
- Tratamento: HBPM ou HNF (não cruzam placenta); DOACs e warfarina são contraindicados (anomalias fetais)
- Monitorização: utilidade de anti-Xa pico pelo menos 1x/trimestre não bem estabelecida
- Farmacocinética: no 2º trimestre, ↑ volume plasmático e TFG → ↓ concentração sérica; no 3º trimestre, ↓ clearance
- Seguimento: manejo por equipe especializada em complicações trombóticas de alto risco obstétrico
6.2. Amamentação
- HBPM, HNF ou warfarina são recomendados sobre DOAC
- DOACs: excreção no leite materno demonstrada em estudos animais com todos os 4 agentes
- Segurança não bem estabelecida em humanos
6.3. Obesidade
- DOACs (apixabana, rivaroxabana): seguros e eficazes mesmo em IMC ≥50 ou peso ≥150 kg
- HBPM: considerar dose reduzida em IMC ≥40 (0,8 mg/kg vs 1,0 mg/kg de enoxaparina)
- Pós-bariátrica: evitar DOACs por ≥4 semanas após cirurgia
6.4. Doença Renal Crônica
- DRC estágio 2-3 (TFGe 30-89): DOAC recomendado sobre AVK
- DRC estágio 4-5 / hemodiálise: dados sugerem apixabana comparável a AVK (registro US Renal Data System)
- HBPM em DRC grave: monitorizar anti-Xa; ajustar dose; considerar administração 1x/dia
6.5. Doença Hepática
- Child-Pugh A: DOAC é razoável
- Child-Pugh B: DOAC pode ser razoável
- Child-Pugh C: DOAC é contraindicado — usar alternativas
6.6. SAF Trombótica
- AVK é o padrão para prevenção de trombose venosa E arterial
- DOACs: risco aumentado de eventos arteriais (especialmente AVC)
- Anticorpo único (baixo risco): DOAC pode ser alternativa razoável
6.7. Tumores Cerebrais
- DOAC pode ser considerado sobre HBPM para reduzir risco de HIC
- Risco basal de HIC é maior em metástases cerebrais que em tumores primários
6.8. Pacientes Críticos em UTI
- Absorção e distribuição de HBPM subcutânea significativamente alteradas na doença crítica
- Pacientes com sepse: menores níveis de anti-Xa pico
- Fatores contribuintes: nível reduzido de antitrombina, perfusão comprometida, vasopressores, idade avançada
6.9. Câncer
- Alto risco de TEV recorrente
- HBPM vs warfarina: ↓ TEV recorrente, sangramento similar
- DOACs (apixabana, rivaroxabana, edoxabana) vs HBPM: não-inferiores para TEV recorrente, sangramento similar
- EP recorrente em câncer apesar de HBPM terapêutica: escalonamento de dose de HBPM em 20-25%
7. MONITORAMENTO E SEGUIMENTO
7.1. Cuidados Pós-EP Aguda
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-LD | Follow-up dentro da 1ª semana após alta: educação, adesão, detecção de complicações hemorrágicas |
| 1 | C-EO | Visita clínica em ≤3 meses: discutir duração de anticoagulação, necessidade de testes adicionais, avaliar sintomas persistentes |
| 1 | C-LD | Perguntar sobre sintomas de EP e limitações funcionais a cada visita por pelo menos 1 ano → rastrear CTEPD |
| 1 | B-NR | Em fase estendida (>3-6 meses): reavaliação periódica de riscos e benefícios de continuar anticoagulação |
| 2a | B-NR | Questionários para rastrear ansiedade e depressão em visitas de seguimento |
| 2a | B-NR | Pacientes complexos: seguimento em clínica especializada em EP |
| 2b | B-NR | Sintomas persistentes 3-6 meses após EP: teste de desempenho (TC6M, teste de shuttle) |
7.2. Rastreamento de Câncer e Trombofilia
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | A | EP sem fatores de risco identificáveis: história completa, exame físico e rastreamento de câncer apropriado para idade |
| 2b | C-LD | Sem fator reversível maior + história familiar de trombose ou <55 anos: teste de trombofilia pode ser razoável se resultado for mudar conduta ou informar risco familiar |
| 3: Sem benefício | A | TC ou PET-CT de rotina para rastrear câncer oculto NÃO é recomendado |
- Câncer diagnosticado em 4%-10% no 1º ano em EP sem fatores reversíveis
- Teste de trombofilia NÃO recomendado se fator reversível maior (cirurgia, trauma, imobilização)
- Deficiências de antitrombina, proteína C, proteína S: maior risco de recorrência → podem justificar anticoagulação estendida
- Testes baseados em coagulação NÃO devem ser realizados na fase aguda da EP ou durante anticoagulação
7.3. Contracepção e Hormônios
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-EO | Pacientes em idade fértil: aconselhamento sobre contracepção e opções de anticoagulação caso engravidem |
| 2a | C-EO | Pacientes com EP que engravidam: manejo por equipe especializada |
| 2a | C-LD | SUA (sangramento uterino anormal) com anticoagulação: discutir manejo hormonal, estratégias alternativas de anticoagulação e intervenções ginecológicas em vez de cessar anticoagulação |
| 2b | C-LD | Pacientes com EP que necessitam de terapia hormonal com estrogênio: continuação pode ser considerada se balanço risco-benefício favorável e paciente anticoagulada |
SUA e DOACs:
- Rivaroxabana e edoxabana: ↑ risco de sangramento vs warfarina
- Dabigatrana: ↓ risco de sangramento vs warfarina
- Apixabana: sem diferença significativa vs warfarina
7.4. Atividade e Viagem
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 2a | A | Deambulação precoce é razoável (sobre repouso no leito) |
| 2a | B-R | Meias de compressão durante viagens longas (≥5h) são úteis para reduzir TVP |
| 2b | C-EO | EP relacionada a viagem/imobilidade, não mais anticoagulado: dose profilática única de DOAC ou HBPM no dia de viagem longa pode ser razoável |
| 2b | C-LD | EP Categorias C2-E: restringir viagens longas por 4 semanas após início do tratamento ou resolução de sintomas |
7.5. Anticoagulação por Risco de Recorrência
Classificação de Fatores de Risco para TEV (Tabela 9)
| Fator Reversível Maior | Fator Reversível Menor | Fator Persistente |
|---|
| Cirurgia com AG ≥30 min | Cirurgia com AG <30 min | Câncer ativo ± tratamento |
| Hospitalização por doença aguda ≥72h em leito | Hospitalização por doença aguda <72h | Doença autoimune (AR, LES) |
| Cesariana | Doença aguda extra-hospitalar ≥72h em leito | Doença inflamatória intestinal |
| Fratura de MI | Estrogênioterapia (reposição ou contraceptivo) | Imobilidade crônica |
| Periparto | |
| Trauma com mobilidade reduzida ≥72h | |
Recomendações de Anticoagulação Estendida
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | A | EP sem fator reversível maior: continuar anticoagulação além de 3-6 meses na fase estendida |
| 1 | B-NR | EP com fator reversível maior: parar anticoagulação ao final da fase inicial (3-6 meses) |
| 1 | C-LD | EP com fator de risco persistente: continuar na fase estendida |
| 1 | A | Fase estendida: DOAC é recomendado sobre AVK (exceto se contraindicado) |
| 1 | A | Câncer na fase estendida: DOAC ou HBPM sobre AVK |
| 1 | B-R | Sem câncer, com contraindicação a DOAC: AVK sobre AAS ou nenhuma terapia |
| 1 | A | Fase estendida: dose reduzida de apixabana (2,5 mg 2x/dia) ou rivaroxabana (10 mg/dia) é recomendada para reduzir sangramento |
| 2a | B-NR | Fator reversível menor: decisão compartilhada sobre parar vs continuar |
| 2a | B-R | Contraindicação ou recusa de anticoagulação: AAS em baixa dose é razoável sobre nenhuma terapia |
Risco de recorrência após parar anticoagulação:
- Fator reversível maior (cirúrgico): <1%/ano
- Fator reversível menor: 4,2-7,1%/ano
- Sem fator identificável: ~30-40% em 10 anos
- Anticoagulação estendida: ↓ 80% do risco relativo de recorrência
Dados do RENOVE (2768 pacientes):
- Dose reduzida vs dose plena de DOAC: TEV recorrente similar (2,2% vs 1,8%; HR ajustado 1,32)
- Sangramento maior/CRNM: menor com dose reduzida (9,9% vs 15,2%; HR 0,61)
API-CAT (1766 pacientes com câncer):
- Apixabana 2,5 mg vs 5 mg 2x/dia: TEV recorrente similar (2,1% vs 2,8%)
- Sangramento clinicamente relevante: 12,1% vs 15,6% (HR 0,75)
Esquemas de Iniciação de Anticoagulação
| Agente | Fase de Iniciação |
|---|
| Apixabana | 10 mg 2x/dia por 7 dias → 5 mg 2x/dia |
| Rivaroxabana | 15 mg 2x/dia por 21 dias → 20 mg 1x/dia |
| Dabigatrana | ≥5 dias de anticoagulação parenteral → 150 mg 2x/dia |
| Edoxabana | ≥5 dias de anticoagulação parenteral → 60 mg 1x/dia |
| AVK | Anticoagulação parenteral (HBPM) + AVK até INR ≥2 |
Doses de Fase Estendida
| Agente | Dose estendida |
|---|
| Apixabana | 2,5 mg 2x/dia |
| Rivaroxabana | 10 mg 1x/dia |
7.6. EP Recorrente
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | C-EO | Sintomas sugestivos de EP recorrente: CTPA ou V/Q para confirmar objetivamente |
| 1 | C-LD | EP recorrente durante anticoagulação: investigar fatores clínicos e farmacológicos contribuintes |
| 2a | C-EO | EP recorrente apesar de anticoagulação terapêutica: trocar para classe diferente |
| 2a | C-EO | EP recorrente durante DOAC em dose reduzida: retomar dose plena dentro da mesma classe |
| 2a | B-NR | Câncer + EP recorrente apesar de HBPM terapêutica: escalonamento de dose HBPM em 20-25% |
- Taxa de recorrência durante anticoagulação: ~2% (DOAC 2,4%, AVK 2,6%)
- D-dímero negativo pode apoiar exclusão de EP recorrente em pacientes anticoagulados
- D-dímero elevado NÃO deve ser usado como critério diagnóstico isolado para EP recorrente
8. COMPLICAÇÕES E SEQUELAS — CTEPD
8.1. Avaliação de Pacientes Persistentemente Sintomáticos
| COR | LOE | Recomendação |
|---|
| 1 | B-NR | Dispneia e/ou limitação funcional persistentes ≥3 meses após EP: avaliação diagnóstica para CTEPD |
| 2a | B-NR | Avaliação de CTEPD: ecocardiograma + cintilografia de perfusão (V/Q planar, SPECT, SPECT/CT) são razoáveis sobre eco isolado |
| 2a | B-NR | CPET é razoável para excluir CTEPD |
| 3: Sem benefício | B-NR | Pacientes assintomáticos com baixa suspeita: CTPA ou cintilografia de seguimento NÃO é benéfica |
| 1 | B-NR | Pacientes em avaliação para CTEPD: manter anticoagulação até conclusão da avaliação |
| 1 | B-R | CTEPD excluída mas dispneia persistente: reabilitação pulmonar é razoável |
| 1 | C-LD | CTEPD com HP: referência a centro especializado é recomendada |
| 2a | C-LD | CTEPD sem HP: referência a centro especializado pode ser benéfica para pacientes selecionados |
Prevalência
- CTEPH após EP aguda: ~2,3-4%
- CTEPD sem HP: prevalência desconhecida, mas pelo menos tão prevalente quanto CTEPH
- Até 50% dos pacientes terão dispneia ou limitação funcional persistente meses/anos após EP
- ~50% terão defeitos de perfusão persistentes (RPVO), muitos assintomáticos
Diagnóstico
- V/Q scan normal: VPN ~100% para excluir CTEPD
- Eco isolado é insuficiente para incluir ou excluir CTEPD (1/3 dos pacientes com CTEPH confirmada tinham eco normal)
- CPET: sensível para detectar comprometimento cardiopulmonar, mas especificidade limitada; correlação de VE/VCO₂ com hemodinâmica anormal
- RPVO na CTPA 6-12 meses não correlaciona com desfechos clínicos ou limitação funcional → CTPA de seguimento não indicada em assintomáticos
Sinais Ecocardiográficos Sugestivos de HP (Tabela 10)
| Categoria A (Ventrículos) | Categoria B (Artéria Pulmonar) | Categoria C (VCI e AD) |
|---|
| VD/VE basal >1,0 | RVOT AT <105 ms e/ou notch mesossistólico | VCI >21 mm com colapso inspiratório reduzido (<50% sniff, <20% quiet) |
| Achatamento septal (LVEI >1,1) | Velocidade de regurgitação pulmonar diastólica precoce >2,2 m/s | Área AD (sístole final) >18 cm² |
| TAPSE/sPAP <0,55 mm/mmHg | AP >aorta; AP >25 mm | |
Eco de baixa probabilidade: TRV ≤2,8 m/s e ausência de sinais de HP
Eco de probabilidade maior: TRV ≥2,8 m/s e presença de sinais de HP
Sinais de ≥2 categorias (A/B/C) devem estar presentes para alterar probabilidade ecocardiográfica