Cardiologia2026

AHA/ACC 2026 — Avaliação e Manejo da Embolia Pulmonar Aguda em Adultos 2026: o que mudou na diretriz

Cai na prova 2026
  • É a primeira diretriz formal AHA/ACC dedicada exclusivamente à EP aguda em adultos. Documentos anteriores eram scientific statements (2011, 2019, 2023) e não diretrizes com recomendações formais com Classe de Recomendação (COR) e Nível de Evidência (LOE).

  • A necessidade surgiu da heterogeneidade de desfechos dentro das categorias de risco anteriores, da importância de reconhecer estados pré-colapso cardiopulmonar e do avanço de terapias avançadas (trombectomia mecânica, trombólise dirigida por cateter).

  • AHA 2011: 3 categorias (low risk, submassive, massive).

  • ESC 2019: 4 categorias (low risk, intermediate-low, intermediate-high, high risk).

  • AHA/ACC 2026: 5 categorias (A–E) com subcategorias numéricas (1–3) e modificador respiratório (R), permitindo classificação mais granular.

  • Período desde o início dos sintomas até o seguimento clínico ambulatorial.

  • Não inclui: profilaxia primária de TEV, manejo de TVP isolada (exceto quando associada a EP), tratamento estabelecido de CTEPD/CTEPH.

O que mudou

16 mudanças que você precisa saber

  • Antes

    3 categorias (massive/submassive/low risk – AHA 2011) ou 4 categorias (ESC 2019)

    Agora

    5 categorias (A-E) com subcategorias numéricas e modificador respiratório (R)

  • Antes

    EP incidental/assintomática não tinha categoria formal

    Agora

    Categoria A (EP subclínica) — pode ter alta do PS sem hospitalização

  • Antes

    Submassiva" incluía população heterogênea

    Agora

    Categorias C e D discriminam graus de comprometimento (sem disfunção VD/biomarcadores [C1] até choque normotensivo [D2])

  • Antes

    Choque normotensivo não era reconhecido formalmente

    Agora

    Definido explicitamente na Categoria D2 com critérios específicos

  • Antes

    LMWH e HNF eram opções equivalentes para terapia parenteral inicial

    Agora

    HBPM é recomendada SOBRE HNF (COR 1, LOE B-R)

  • Antes

    DOACs e AVK eram opções equivalentes

    Agora

    DOACs são recomendados SOBRE AVK (COR 1, LOE B-R), exceto se contraindicados

  • Antes

    PERT era conceito emergente sem recomendação formal

    Agora

    PERT é recomendado (COR 1, LOE B-NR) para categorias C-E

  • Antes

    Trombólise sistêmica era recomendada para "massive PE

    Agora

    COR 2a apenas para E1-2; terapias avançadas (CDL, MT) incluídas no mesmo nível (2a para E1)

  • Antes

    Quantificação de carga trombótica usada para estratificação

    Agora

    Quantificação NÃO é recomendada para estratificação de risco de curto prazo (COR 3: Sem Benefício)

  • Antes

    Filtro de VCI era considerado em "massive PE

    Agora

    Benefício incerto em categorias D-E em terapia avançada; NÃO colocar em pacientes anticoagulados (COR 3: Dano)

  • Antes

    Dose reduzida de DOAC na fase estendida era opção

    Agora

    Dose reduzida é recomendada (COR 1, LOE A) para reduzir sangramento (apixabana 2,5 mg 2x/dia, rivaroxabana 10 mg/dia)

  • Antes

    Monitorização de anti-Xa era praticada variadamente

    Agora

    Na maioria dos pacientes com HBPM baseada em peso, monitorização NÃO é indicada (COR 3: Sem Benefício, LOE A)

  • Antes

    US venosa complementar era amplamente usada

    Agora

    US venosa com CTPA negativa NÃO é útil (COR 3: Sem Benefício)

  • Antes

    Eco para diagnóstico de EP era praticado

    Agora

    Eco NÃO é recomendado para confirmar/excluir diagnóstico de EP (COR 3: Sem Benefício)

  • Antes

    Seguimento de EP não era padronizado

    Agora

    Follow-up na 1ª semana, visita em ≤3 meses, perguntar sobre sintomas a cada visita por pelo menos 1 ano

  • Antes

    Eco de VD era avaliado subjetivamente

    Agora

    Relação VD/VE numérica é recomendada (COR 1) na CTPA, com parâmetros abrangentes no eco

Resumo técnico

A diretriz na íntegra

2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA

Por que esta diretriz foi publicada

  • É a primeira diretriz formal AHA/ACC dedicada exclusivamente à EP aguda em adultos. Documentos anteriores eram scientific statements (2011, 2019, 2023) e não diretrizes com recomendações formais com Classe de Recomendação (COR) e Nível de Evidência (LOE).
  • A necessidade surgiu da heterogeneidade de desfechos dentro das categorias de risco anteriores, da importância de reconhecer estados pré-colapso cardiopulmonar e do avanço de terapias avançadas (trombectomia mecânica, trombólise dirigida por cateter).

O que mudou em relação a classificações anteriores

  • AHA 2011: 3 categorias (low risk, submassive, massive).
  • ESC 2019: 4 categorias (low risk, intermediate-low, intermediate-high, high risk).
  • AHA/ACC 2026: 5 categorias (A–E) com subcategorias numéricas (1–3) e modificador respiratório (R), permitindo classificação mais granular.

Escopo

  • Período desde o início dos sintomas até o seguimento clínico ambulatorial.
  • Não inclui: profilaxia primária de TEV, manejo de TVP isolada (exceto quando associada a EP), tratamento estabelecido de CTEPD/CTEPH.

3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES

3.1. Definições Fundamentais

TermoDefinição
Terapia médica guiada por diretriz (GDMT)Abrange avaliação clínica, testes diagnósticos e tratamentos farmacológicos e procedimentais
Fase de tratamento inicialPrimeiros 3 a 6 meses de anticoagulação após EP aguda
Fase de tratamento estendidaAnticoagulação >6 meses após EP aguda, sem data de término prevista
Choque normotensivoHipoperfusão isolada sem hipotensão: lactato >2 mmol/L, débito urinário <0,5 mL/kg/h (ou <720 mL/24h), elevação de creatinina ≥0,3 mg/dL em 24h, índice cardíaco ≤2,2 L/min/m²
CTEPDDoença tromboembólica pulmonar crônica — sintomas persistentes, obstrução vascular pulmonar residual (RPVO) e limitação ao exercício por doença vascular pulmonar, com ou sem HP em repouso
CTEPHCTEPD com hipertensão pulmonar em repouso

3.2. Sistema de Categorias Clínicas AHA/ACC para EP Aguda (Figura 2)

Conceito central: A categoria é definida pelo indicador clínico, laboratorial ou de imagem MAIS GRAVE presente. Pacientes podem transitar entre categorias ao longo do tempo.

Categoria A — EP subclínica / incidental / assintomática

SubcategoriaDescrição
A1EP assintomática encontrada incidentalmente em TC realizada por outra indicação (ex.: estadiamento oncológico)

Categoria B — EP sintomática com escore de gravidade clínica BAIXO

  • Escore baixo = PESI ≤85 (classes I-II), sPESI = 0, Hestia = 0
SubcategoriaDescrição
B1EP subsegmentar (única ou múltipla)
B2EP segmentar ou mais proximal

Categoria C — EP sintomática com escore de gravidade clínica ELEVADO

  • Escore elevado = PESI >85 (classes III-V), sPESI ≥1, Hestia ≥1, Bova >4
SubcategoriaDescrição
C1Sem disfunção de VD e sem biomarcadores elevados
C1RC1 + modificador respiratório
C2Biomarcadores elevados (troponina e/ou BNP) OU disfunção de VD
C3Biomarcadores elevados (troponina e/ou BNP) E disfunção de VD
C3RC3 + modificador respiratório

Categoria D — Insuficiência cardiopulmonar incipiente (pré-colapso / choque normotensivo)

SubcategoriaDescrição
D1Hipotensão transitória ou recorrente (PAS <90 ou queda >40 mmHg, durando <15 min ou respondendo a fluidos IV), sem sinais de hipoperfusão ou disfunção de órgão-alvo
D2Hipotensão transitória com marcador de hipoperfusão ou disfunção orgânica (lactato >2, IRA, débito urinário reduzido, alteração do estado mental, IC <2,2, PAM <60, aumento de escore de choque SCAI B-C)
DRD + necessidade de >6 L CN ou máscara não-reinalante

Categoria E — Insuficiência cardiopulmonar estabelecida

SubcategoriaDescrição
E1Hipotensão recorrente/persistente com choque cardiogênico (compatível com SCAI stage C)
E2Choque cardiogênico refratário (SCAI D-E) ou parada cardíaca sem retorno de circulação espontânea após 30 min de RCP
ERE + necessidade de ventilação com pressão positiva (VNI ou invasiva)

Modificador Respiratório (R)

Adicionado quando há:

  • Hipoxemia ou taquipneia
  • Necessidade de oxigênio suplementar
  • Na categoria D/E: >6 L por cânula nasal, máscara não-reinalante, VNI ou ventilação mecânica invasiva

3.3. Comparação de Classificações ao Longo do Tempo (Tabela 5)

AnoOrganizaçãoCategorias
2011AHALow risk / Submassive (PAS ≥90 + disfunção VD ou troponina) / Massive (PAS <90 >15 min ou suporte inotrópico)
2019ESCLow / Intermediate-low / Intermediate-high / High risk
2026AHA/ACCA / B / C / D / E (com subcategorias e modificador R)

3.4. Escores de Risco Clínico (Tabela 6)

Escore de Wells para EP

ComponentePontos
Sinais clínicos de TVP3
EP mais provável que outros diagnósticos3
FC >100 bpm1,5
Imobilização ≥3 dias ou cirurgia nas últimas 4 semanas1,5
TVP ou EP prévias1,5
Hemoptise1
Câncer1

Classificação padrão: Baixo <2 / Moderado 2-6 / Alto >6 Classificação modificada: EP improvável ≤4 / EP provável >4

Escore de Geneva Revisado

ComponentePontos (Original)Pontos (Simplificado)
Idade >65 anos11
TVP ou EP prévia31
Cirurgia com anestesia geral ou fratura de MMII no último mês21
Câncer ativo21
Dor unilateral em MI31
Hemoptise21
FC 75-94 bpm31
FC ≥95 bpm51
Dor à palpação profunda + edema unilateral de MI41

Classificação (Revisado): Baixo 0-3 / Intermediário 4-10 / Alto ≥11 Classificação (Simplificado): Baixo 0-1 / Intermediário 2-4 / Alto 5-7; Improvável 0-2 / Provável 3-7

PERC (Pulmonary Embolism Rule-Out Criteria)

Aplicar se probabilidade clínica pré-teste (gestalt) <15% (ex: Wells <2). Se TODOS os critérios estiverem presentes, EP é improvável:

  • Idade <50 anos
  • FC <100 bpm
  • SpO₂ ≥95%
  • Sem hemoptise
  • Sem uso de estrogênio
  • Sem TVP ou EP prévias
  • Sem edema unilateral de MI
  • Sem cirurgia/trauma com hospitalização nas últimas 4 semanas

PESI (Pulmonary Embolism Severity Index)

ComponentePontos
Idade= idade em anos
Sexo masculino+10
Câncer+30
Insuficiência cardíaca+10
Doença pulmonar crônica+10
FC ≥110 bpm+20
PAS <100 mmHg+30
FR ≥30 irpm+20
Temperatura <36°C+20
Alteração do estado mental+60
SpO₂ <90%+20

Classes: I (≤65) / II (66-85) / III (86-105) / IV (106-125) / V (≥126)

sPESI (simplified PESI)

1 ponto para cada: Idade >80, câncer, doença cardiopulmonar crônica, PAS <100, FC ≥110, SpO₂ <90%

  • 0 pontos: baixo risco de mortalidade em 30 dias
  • ≥1 ponto: alto risco

Escore de Bova

ComponentePontos
PAS 90-100 mmHg2
Troponina elevada2
Disfunção de VD2
FC ≥110 bpm1

Estágios: I (0-2) / II (3-4) / III (>4)

Critérios de Hestia

Se todas as respostas forem "Não", considerar manejo ambulatorial:

  1. Paciente hemodinamicamente instável?
  2. Necessário trombólise ou embolectomia?
  3. Sangramento ativo ou alto risco de sangramento?
  4. Necessidade de O₂ >24h para manter SpO₂ >90%?
  5. EP diagnosticada durante tratamento anticoagulante?
  6. Dor intensa requerendo analgesia IV >24h?
  7. Razões médicas ou sociais para hospitalização >24h?
  8. Clearance de creatinina <30 mL/min?
  9. Insuficiência hepática grave?
  10. Paciente grávida?
  11. Histórico de trombocitopenia induzida por heparina?

Escore CPES (Composite Pulmonary Embolism Shock)

1 ponto para cada (0-6): troponina elevada, BNP elevado, função VD moderada/gravemente reduzida, trombo central (saddle PE), TVP concomitante, FC ≥100 bpm

  • 0-5: risco menor para choque normotensivo
  • 6: risco maior para choque normotensivo (IC ≤2,2 L/min/m²)

NEWS e NEWS2

Parâmetros: FR, SpO₂, temperatura, PAS, FC, nível de consciência, necessidade de O₂ suplementar

  • NEWS2 ≥9: alto risco

4. DIAGNÓSTICO

4.1. Avaliação Clínica

Recomendações

CORLOERecomendação
1AEm pacientes com sintomas sugestivos de EP aguda, história direcionada e exame físico completo são recomendados para auxiliar na probabilidade pré-teste clínica
2aB-RD-dímero ajustado por idade (idade × 10 μg/L para ensaios FEU) efetivamente exclui EP em pacientes com probabilidade clínica baixa/intermediária (<50%)
2aB-RAlgoritmo YEARS pode ser útil para identificar pacientes que não necessitam de imagem
2bB-NREm gestantes, pode ser razoável usar os critérios YEARS adaptados para gravidez

Algoritmo YEARS

  • ≥1 critério YEARS presente (sinais de TVP, hemoptise, EP como diagnóstico mais provável): limiar de D-dímero = 500 μg/L
  • Nenhum critério YEARS: limiar de D-dímero = 1000 μg/L

D-dímero

  • Limiar padrão: <500 μg/L (FEU)
  • Limiar ajustado por idade: idade × 10 μg/L (para pacientes >50 anos)
  • Taxa de falha aceitável: <2% de TEV em 3 meses
  • Validação: Estudo prospectivo com 3.346 pacientes: taxa de falha em 3 meses de 0,3% (IC 95%: 0,1%-1,7%) para >50 anos com D-dímero entre padrão e ajustado por idade
  • Não utilizar em pacientes anticoagulados

Sintomas mais comuns de EP

  • Dor torácica pleurítica, dispneia (mais comuns)
  • Hemoptise, síncope, choque (menos comuns)
  • <10% dos pacientes avaliados para EP são efetivamente diagnosticados

Gestantes

  • EP responsável por até 11% das mortes relacionadas à gravidez nos EUA
  • Taxa de positividade de CTPA em gestantes: apenas 4,1%
  • YEARS adaptado para gravidez com D-dímero 1000 μg/L → evita 65% dos CTPAs no primeiro trimestre
  • Se sintomas de MMII + US de compressão positivo → tratar com anticoagulação sem necessidade obrigatória de CTPA

4.2. Testes Diagnósticos de Imagem

CORLOERecomendação
1AImagem é recomendada para pacientes com probabilidade alta (>50%) ou D-dímero elevado
1ACTPA positiva ou cintilografia V/Q de alta probabilidade são suficientes para diagnosticar EP
1B-RCTPA é preferida sobre V/Q para confirmar diagnóstico
2aB-NREm gestantes com YEARS sugestivo de EP e RX de tórax normal: CTPA de baixa dose de radiação é razoável sobre cintilografia de perfusão de baixa dose
2aB-RV/Q SPECT é razoável em preferência a V/Q planar
2aB-RQuando CTPA não é possível, V/Q é preferível à angiografia por RM
2bB-NRDuplex venoso de MMII pode ser razoável se achados clínicos de TVP ou se a presença de TVP mudar conduta/prognóstico
3: Sem benefícioB-NRCom CTPA negativa ou V/Q SPECT normal, US venosa NÃO é útil para avaliação adicional de EP
3: Sem benefícioB-NREcocardiograma NÃO é recomendado para confirmar ou excluir EP
3: Sem benefícioB-RVenografia por TC (CTV) NÃO é recomendada como adjunto rotineiro à CTPA

Achados de Imagem a Relatar

CORLOERecomendação
1B-RNa CTPA: relatar relação VD/VE numérica (diâmetro interno em corte axial ou 4 câmaras) — preferível à quantificação subjetiva
1B-NRNa ecocardiografia: avaliar e relatar todos os parâmetros de disfunção de VD
2bB-NRRelatar achados crônicos na CTPA (webs intravasculares, retração/dilatação de AP, dilatação de artérias brônquicas, hipertrofia de VD, achatamento do septo IV)

Relação VD/VE na CTPA

  • Ponto de corte ≥1,0: sensibilidade 85% (IC 81-89%), especificidade 72% (IC 67-77%)
  • Ponto de corte ≥0,9: sensibilidade 92% (IC 89-95%), especificidade 56% (IC 46-66%)
  • VD/VE por CTPA é preditor independente de mortalidade intra-hospitalar, em 30 dias e deterioração clínica

Parâmetros de Disfunção de VD na Ecocardiografia (Tabela 4)

ParâmetroTécnicaValor anormal
Dimensão VD (EDD)Apical 4C focado em VD / Apical 4C padrãoEDD >30 mm (focado); EDD basal >42 mm
Relação VD/VERazão diastólica final (apical ou subcostal)>0,9
TAPSEModo M, excursão sistólica longitudinal do anel tricúspide<1,6 cm = anormal
Evidência Doppler de HPDoppler tecidualTempo de aceleração pulmonar <90 ms, ou gradiente VD/AD >30 mmHg
Velocidade sistólica tricúspideApical ou subcostal 4C>2,6 m/s
McConnell's signHipocinesia de parede livre do VD com preservação do ápicePresente/ausente
Septo paradoxalMovimento septal paradoxalPresente/ausente
Colapso respirofásico da VCIColapso inspiratórioAvaliar

4.3. Biomarcadores para Estratificação de Risco

CORLOERecomendação
1B-NREm EP Categoria C: pelo menos 1 biomarcador cardíaco (troponina ou BNP) é recomendado
1B-NREm EP Categorias C-E em unidade de cuidado agudo: medida de lactato (venoso ou arterial) é recomendada

Valores prognósticos dos biomarcadores

  • Troponina elevada: OR 4,33 para mortalidade por todas as causas; OR 4,80 para mortalidade em 90 dias
  • BNP elevado: OR 6,57 para mortalidade de curto prazo; OR 7,47 para eventos adversos graves
  • Lactato elevado: OR 5,13 para mortalidade em EP não selecionada; OR 4,54 em normotensos; OR 9,05 para mortalidade relacionada à EP

4.4. Imagem de VD para Estratificação de Risco

CORLOERecomendação
1AEm EP Categorias C-D sem choque: imagem de VD é recomendada para estratificação de risco de curto prazo
2aB-NREcocardiografia é preferida sobre TC para estratificação de risco
  • Disfunção de VD no eco → OR 2,0 para mortalidade por todas as causas; OR 4,01 para mortalidade por EP; OR 6,16 para mortalidade por EP em risco intermediário
  • VD disfunção por eco, TC ou BNP/NT-proBNP → OR 4,81 para morte de curto prazo; OR 22,9 para morte por EP
  • Point-of-care ultrasound pode ser alternativa aceitável ao ecocardiograma formal se este não estiver disponível

4.5. Quantificação de Carga Trombótica

CORLOERecomendação
3: Sem benefícioB-NREm EP Categorias A-C, quantificação de carga trombótica NÃO é recomendada para estratificação de risco de curto prazo
  • Metanálise: NÃO há correlação entre índice de obstrução alto e prognóstico; paradoxalmente, menor índice de obstrução associou-se a maior mortalidade (OR 2,24)

4.6. Avaliação Hemodinâmica

CORLOERecomendação
2aB-NREm EP Categoria D2: avaliar choque normotensivo (lactato >2, DU <720 mL/24h, Cr ↑≥0,3, IC ≤2,2, PAM <60)
2aB-NREm EP Categoria C3: PAM <80 mmHg pode ser útil para identificar pacientes que necessitam escalada terapêutica
  • PAM ótima como preditor: 81,5 mmHg (AUC 0,77); sensibilidade 77,5%, especificidade 95%, VPN 97,7%
  • Janela crítica: primeiras 24-72 horas (baseado no PEITHO: tempo médio até desfecho = 1,5-1,79 dias ± 1,5 dias)

5. TRATAMENTO

5.1. Decisão de Internação vs. Tratamento Ambulatorial

CORLOERecomendação
2aB-RUsar ferramenta de decisão (Hestia, PESI, sPESI) para identificar elegibilidade ao tratamento ambulatorial
2aB-REm EP Categorias A-B diagnosticada em clínica/PS: tratamento ambulatorial é opção razoável se taxa de eventos adversos em 90 dias é baixa e alinhada com metas do paciente

Requisitos para alta ambulatorial: acesso imediato a anticoagulante e seguimento rápido, confiável e especializado.

Dados de segurança ambulatorial (metanálise individual): mortalidade 30 dias = 0,30% (IC 0,09-0,51%), TEV recorrente = 0,57% (IC 0,28-0,86%), sangramento maior = 0,45% (IC 0,19-1,71%).

5.2. Local de Internação

CORLOERecomendação
1C-EOPacientes recebendo trombolíticos (sistêmicos ou CDL): UTI ou unidade de cuidados intermediários
2aB-RApós trombectomia mecânica em pacientes estáveis: unidade com telemetria contínua e enfermagem familiarizada com complicações do dispositivo

No estudo PEERLESS: >60% dos pacientes tratados com trombectomia mecânica receberam cuidados pós-procedimento em ambientes não-UTI com taxas muito baixas de eventos adversos.

5.3. Transferência Inter-hospitalar

CORLOERecomendação
2bC-LDEP Categorias C3-D com características de alto risco (disfunção VD, biomarcadores elevados): considerar transferência para centro com terapias avançadas
3: DanoC-EOPacientes instáveis (Categoria E): NÃO devem ser transferidos antes da estabilização

Crítico: Intervenções potencialmente salva-vidas amplamente disponíveis (como trombólise IV) não devem ser adiadas em pacientes instáveis.

5.4. PERT (Pulmonary Embolism Response Team)

CORLOERecomendação
1B-NREm EP Categorias C-E: avaliação multidisciplinar PERT é recomendada para melhorar a entrega de cuidados clínicos intra-hospitalares

Benefícios demonstrados do PERT:

  • ↓ Tempo para anticoagulação terapêutica
  • ↓ Uso de filtros de VCI
  • ↓ Tempo de internação hospitalar e em UTI (na maioria dos estudos)
  • Impacto misto na mortalidade (alguns estudos mostram redução)

5.5. Anticoagulação

Recomendações Gerais

CORLOERecomendação
1B-RAnticoagulação deve ser iniciada em pacientes sem contraindicação absoluta
1B-RQuando terapia parenteral inicial é necessária (Categorias C1-E1): HBPM é recomendada sobre HNF
1B-RPara anticoagulação oral: DOACs são recomendados sobre AVK (exceto se contraindicado)
2aC-EOEm EP suspeita ≥Categoria C2 com baixo risco de sangramento e imagem atrasada: iniciar anticoagulação terapêutica empiricamente

Dados-chave:

  • HBPM vs HNF: ↓ TEV recorrente, ↓ sangramento maior, ↓ incidência de HIT, farmacocinética previsível
  • DOACs vs AVK: eficácia comparável, ↓ sangramento maior (especialmente HIC), ↓ sangramento fatal, ↓ mortalidade cardiovascular, ↓ mortalidade por todas as causas
  • DOACs incluem: apixabana, rivaroxabana, edoxabana (inibidores fator Xa) e dabigatrana (inibidor direto de trombina)

Situações Especiais de Anticoagulação

Obesidade
CORLOERecomendação
2aB-NRIMC >30: DOAC (sobre AVK) é razoável
2bB-NRObesidade classe III (IMC >40): redução de dose de HBPM pode ser razoável para reduzir sangramento
  • Estudos de apixabana e rivaroxabana em obesos (incluindo IMC ≥50 ou peso ≥150 kg): segurança e eficácia comparáveis a AVK
  • ECR pequeno de enoxaparina em IMC ≥40: 0,8 mg/kg vs 1,0 mg/kg 2x/dia → grupo de dose reduzida atingiu mais frequentemente níveis terapêuticos; grupo de dose padrão teve mais níveis supraterapêuticos
  • Evitar DOACs por pelo menos 4 semanas após cirurgia bariátrica (preocupação com absorção)
Síndrome Antifosfolípide (SAF) Trombótica
CORLOERecomendação
1ASAF trombótica estabelecida: AVK é recomendado sobre DOAC
2bB-RSAF com anticorpo único (anticardiolipina ou β2-glicoproteína isolado): DOAC pode ser alternativa razoável
  • DOACs em SAF: aumento consistente do risco de trombose arterial subsequente
  • Risco maior em triplo-positivos e com história de trombose arterial
  • Em SAF, evento futuro é geralmente venoso (84%)
Tumores Cerebrais
CORLOERecomendação
2bC-LDTumor cerebral primário ou metastático + EP elegível para anticoagulação oral: DOAC pode ser considerado sobre HBPM para reduzir risco de HIC
Doença Renal Crônica
CORLOERecomendação
1ADRC leve-moderada (estágio 2-3): DOAC recomendado sobre AVK
2bB-NRDRC grave (estágio 4-5) ou em hemodiálise: incerto se apixabana é melhor que AVK
  • Excreção renal dos DOACs: dabigatrana 80%, edoxabana 50%, rivaroxabana 33%, apixabana 27%
Gravidez e Amamentação
CORLOERecomendação
1C-LDGestante com EP: HBPM ou HNF são recomendados
3: DanoC-LDGestante: DOACs e varfarina são potencialmente danosos (abortos, anomalias fetais)
1C-LDAmamentação: HBPM, HNF ou varfarina são recomendados sobre DOAC
Doença Hepática Crônica
CORLOERecomendação
2aC-LDChild-Pugh A: DOAC é razoável sobre AVK
2bC-LDChild-Pugh B: DOAC pode ser razoável sobre AVK
3: DanoC-LDChild-Pugh C: DOAC NÃO é recomendado (risco de sangramento aumentado)

Clearance hepático dos DOACs: apixabana 75%, rivaroxabana 65%, edoxabana 50%, dabigatrana 20%.

Anticoagulação e Procedimentos Endovasculares
CORLOERecomendação
1C-LDDurante CDL: anticoagulação terapêutica (HBPM/HNF) ou subterapêutica (HNF) concomitante é recomendada
1B-NRApós procedimento endovascular ou trombólise: HBPM é preferida sobre HNF como anticoagulação parenteral inicial
Monitorização de Anti-Xa para HBPM
CORLOERecomendação
1C-LDQuando monitorização é indicada: medir anti-Xa pico 3-5h após dose, em estado estacionário (≥3 doses)
2aC-LDDRC grave (ClCr <30 mL/min) em uso de HBPM: monitorizar anti-Xa é razoável
2bC-LDGestantes em HBPM: monitorizar anti-Xa pico pelo menos 1x/trimestre — utilidade não bem estabelecida
2bC-LDPeso >150 kg ou IMC >40 em HBPM: monitorizar anti-Xa — benefício não estabelecido
2bC-LDPacientes em UTI com HBPM: benefício da monitorização de anti-Xa não estabelecido
3: Sem benefícioANa maioria dos pacientes com HBPM baseada em peso: monitorização de anti-Xa e ajuste de dose NÃO é indicada

5.6. Farmacoterapia Hemodinâmica

CORLOERecomendação
1C-LDChoque cardiogênico por EP (Categorias D2-E2): vasopressores e/ou inotrópicos são recomendados
2bC-LDCategorias D1-2 com preocupação de pré-carga reduzida: volume com SF ou expansores pode ser considerado
2bB-RCategorias C2-E: vasodilatadores pulmonares inalatórios podem ser considerados

Escolha de vasopressores

  • Norepinefrina (NE): vasopressor de escolha — aumenta RVS, efeito inotrópico modesto; em doses ≤15 μg/min tem pouco efeito na RVP
  • NE >15 μg/min: pode aumentar RVP → adicionar segundo vasopressor (vasopressina, fenilefrina) em vez de aumentar dose
  • Dobutamina (até 10 μg/kg/min): considerar como adjunto à NE em baixo DC + hipotensão (E1-2) ou como agente inicial no choque normotensivo (D2)
  • Volume: cautela — bolus ≤500 mL em normotensos com sinais de baixo DC; volumes excessivos podem piorar função VD

Vasodilatadores pulmonares

  • Óxido nítrico inalado: ECR multicêntrico não melhorou desfecho primário composto (normalização de troponina + eco em 24h), mas análise post-hoc mostrou melhora significativa de tamanho e função do VD em 24h
  • Sildenafil oral e epoprostenol IV: benefício mínimo ou nulo em ECRs pequenos

5.7. Sedação e Estratégias Ventilatórias

CORLOERecomendação
1C-LDEP Categorias C-E que requerem sedação para intubação: vasopressores, inotrópicos e/ou VA-ECMO devem estar disponíveis
2aC-LDHipóxia moderada-grave: cânula nasal de alto fluxo aquecida (CNAF) é benéfica sobre CN padrão
3: DanoC-LDEP Categorias C-E: sedação profunda e ventilação mecânica NÃO devem ser realizadas a menos que clinicamente indicadas, para evitar colapso hemodinâmico

Dados críticos sobre sedação:

  • Em série de embolectomia cirúrgica: RCP necessária em 19% dos pacientes após indução anestésica, todos hemodinamicamente estáveis antes da indução
  • Outra série: necessidade de RCP relacionada à indução em 28% (9/32) dos pacientes
  • Propofol durante CDL para EP submassiva: associado a aumento da mortalidade

5.8. Suporte Circulatório Mecânico (VA-ECMO)

CORLOERecomendação
1B-NREP em VA-ECMO: manter anticoagulação parenteral na ausência de sangramento
2aB-NRChoque cardiogênico refratário por EP (Categoria E2): VA-ECMO é razoável se recursos disponíveis
2bC-LDEP Categoria E2 em VA-ECMO: utilidade de terapias avançadas adicionais não bem estabelecida

5.9. Filtro de Veia Cava Inferior (VCI)

CORLOERecomendação
1B-RPacientes que não toleram anticoagulação e necessitam de filtro: filtros recuperáveis são recomendados sobre permanentes
1C-LDFiltros recuperáveis: remoção deve ser tentada assim que risco de EP diminuir e anticoagulação for tolerada
2aB-RPacientes que não toleram anticoagulação: filtros de VCI podem ser úteis para reduzir EP recorrente a curto prazo
2aC-LDFiltros instalados: programa de seguimento estruturado é razoável para aumentar taxas de retirada
2bC-LDEP Categorias D-E em terapia avançada: benefício do filtro é incerto
2bC-LDEP recorrente apesar de anticoagulação ótima: filtro pode ser considerado
3: DanoAEm pacientes terapeuticamente anticoagulados: NÃO colocar filtro de VCI rotineiramente

Dados-chave:

  • PREPIC: filtros ↓ EP recorrente, mas ↑ TVP e trombose de VCI a longo prazo, sem benefício de sobrevida
  • PREPIC2: sem benefício adicional em pacientes anticoagulados
  • Metanálise: filtros ↓ EP ~50%, mas ↑ TVP ~70%, sem efeito na mortalidade
  • FDA recomenda remoção entre 29-54 dias após colocação
  • Recuperação difícil após 50 dias, falha mais frequente após 90 dias
  • Filtros permanentes reservados para casos raros (ex: mega-cava VCI >30 mm)

5.10. Terapias Avançadas

Resumo de Indicações por Categoria (Tabela 7)

CategoriaTrombólise SistêmicaCDLTrombectomia MecânicaEmbolectomia Cirúrgica
A-C13: Dano (A)3: Sem Benefício3: Sem Benefício3: Sem Benefício
C23: Dano (B-R)2b (incerto)2b (incerto)3: Sem Benefício
C32b (incerto)2b (incerto)2b (incerto)3: Sem Benefício
D1-22b (pode ser considerada)2b (B-NR, pode ser considerada)2b (B-NR, pode ser considerada)2b (pode ser considerada)
E12a2a2a (B-NR)2a (B-NR)
E22aN/AN/A3: Sem Benefício (B-NR)

5.10.1. Trombólise Sistêmica

CORLOERecomendação
2aC-LDEP Categorias E1-2 com risco de sangramento aceitável: trombólise sistêmica + anticoagulação é razoável
2bC-LDEP Categorias D1-2: pode ser considerada
2bC-LDEP Categoria C3: incerto
2bC-LDTrombólise em dose reduzida pode ser considerada para reduzir risco de sangramento
3: DanoB-REP Categorias A1-C2: trombólise NÃO deve ser usada (↑ sangramento maior e HIC)

Agentes aprovados pelo FDA para EP: estreptoquinase, uroquinase, rt-PA (alteplase). Tenecteplase não é aprovado para EP.

Dose padrão de rt-PA: 100 mg em 2 horas. Dose reduzida: 25-50 mg de rt-PA (evidências emergentes de eficácia similar com menor sangramento).

PEITHO trial (1006 pacientes, Categorias C3-D2):

  • Tenecteplase + heparina vs placebo + heparina
  • ↓ Colapso cardiovascular
  • ↑ Sangramento maior: 6,3% vs 1,2% (P<0,001)
  • ↑ AVC hemorrágico: 2,4% vs 0,2% (P=0,003)
  • Trombólise de resgate foi benéfica em pacientes que descompensaram

Metanálise de 16 estudos (2115 pacientes, incluindo C3-D2):

  • Trombólise ↓ mortalidade por todas as causas (OR 0,53; NNT=59)
  • ↑ HIC (OR 4,6; NNH=78)

5.10.2. Trombólise Dirigida por Cateter (CDL)

CORLOERecomendação
2aC-LDEP Categoria E1: CDL + anticoagulação é razoável
2bB-NREP Categorias D1-2: CDL + anticoagulação pode ser considerada
2bC-LDEP Categorias C2-3: benefício vs anticoagulação isolada é incerto
2bC-LDEP Categorias D1-E1: eficácia de CDL vs trombólise sistêmica é incerta, mas CDL pode ser considerada para reduzir risco de sangramento maior
3: Sem benefícioB-NRDose reduzida de alteplase <5 mg/AP NÃO é recomendada sobre dose padrão (5-10 mg/AP) para reduzir sangramento ou deterioração
3: Sem benefícioC-EOEP Categorias A-C1: CDL NÃO é recomendada
  • Doses de rt-PA em CDL: 4-24 mg total em 2-24 horas
  • Dose reduzida: <5 mg/AP; Dose padrão: 5-10 mg/AP
  • Dose total de 24 mg associada a alta taxa de sangramento maior
  • Doses padrão mostraram mais remoção de trombo que doses reduzidas

5.10.3. Trombectomia Mecânica (MT)

CORLOERecomendação
2aB-NREP Categoria E1: MT + anticoagulação é razoável
2bB-NREP Categorias D1-2: MT pode ser considerada
2bC-LDEP Categorias C2-3: benefício é incerto
2bB-NREP Categorias D1-E1: MT vs trombólise sistêmica — eficácia incerta, mas MT pode ser considerada para ↓ sangramento maior
3: Sem benefícioC-EOEP Categorias A-C1: MT NÃO é recomendada

PEERLESS (550 pacientes, Categorias C2-D2): MT vs CDL → sem diferenças significativas em mortalidade 30 dias ou sangramento maior. Desfecho combinado de deterioração clínica + bailout foi mais frequente no grupo CDL.

FLAME (115 pacientes de alto risco, Categoria E1): MT vs outras terapias contemporâneas → incidência do desfecho primário composto: MT 17% vs controle 63,9%; mortalidade intra-hospitalar MT 1,9% vs controle 29,5%.

5.10.4. Embolectomia Cirúrgica

CORLOERecomendação
2aB-NREP Categoria E1: razoável comparada à anticoagulação isolada
2bC-LDEP Categorias D1-2: pode ser considerada
2bB-NREP Categorias D1-E1 como candidatos cirúrgicos: benefício sobre trombólise é incerto, mas pode ser considerada para ↓ risco de HIC
3: Sem benefícioC-EOEP Categorias A-C3: NÃO recomendada
3: Sem benefícioB-NREP Categoria E2 sem suporte circulatório: NÃO recomendada sobre outras terapias avançadas
  • Mortalidade cirúrgica: 1%-15% dependendo de confundidores pré-operatórios
  • Sobrevida >97% em pacientes que não necessitaram de RCP
  • Não há relatos de HIC após embolectomia cirúrgica
  • Excelente recuperação VD com normalização de pressões e função ao ecocardiograma

5.11. Clot-in-Transit (Trombo Flutuante Intracardíaco)

CORLOERecomendação
2aC-LDEP Categorias C3-E2 com trombo flutuante em AD/VD: terapias avançadas são razoáveis sobre anticoagulação isolada
  • Presente em 2%-4% dos diagnósticos de EP
  • Associação independente com mortalidade (OR 2,26)

6. POPULAÇÕES ESPECIAIS

6.1. Gestantes

  • Diagnóstico: critérios YEARS adaptados para gravidez; D-dímero com limiar de 1000 μg/L em baixo risco
  • Imagem: CTPA de baixa dose ou cintilografia de perfusão de baixa dose; se sintomas de MMII + US compressão positiva → tratar sem necessidade de CTPA
  • Tratamento: HBPM ou HNF (não cruzam placenta); DOACs e warfarina são contraindicados (anomalias fetais)
  • Monitorização: utilidade de anti-Xa pico pelo menos 1x/trimestre não bem estabelecida
  • Farmacocinética: no 2º trimestre, ↑ volume plasmático e TFG → ↓ concentração sérica; no 3º trimestre, ↓ clearance
  • Seguimento: manejo por equipe especializada em complicações trombóticas de alto risco obstétrico

6.2. Amamentação

  • HBPM, HNF ou warfarina são recomendados sobre DOAC
  • DOACs: excreção no leite materno demonstrada em estudos animais com todos os 4 agentes
  • Segurança não bem estabelecida em humanos

6.3. Obesidade

  • DOACs (apixabana, rivaroxabana): seguros e eficazes mesmo em IMC ≥50 ou peso ≥150 kg
  • HBPM: considerar dose reduzida em IMC ≥40 (0,8 mg/kg vs 1,0 mg/kg de enoxaparina)
  • Pós-bariátrica: evitar DOACs por ≥4 semanas após cirurgia

6.4. Doença Renal Crônica

  • DRC estágio 2-3 (TFGe 30-89): DOAC recomendado sobre AVK
  • DRC estágio 4-5 / hemodiálise: dados sugerem apixabana comparável a AVK (registro US Renal Data System)
  • HBPM em DRC grave: monitorizar anti-Xa; ajustar dose; considerar administração 1x/dia

6.5. Doença Hepática

  • Child-Pugh A: DOAC é razoável
  • Child-Pugh B: DOAC pode ser razoável
  • Child-Pugh C: DOAC é contraindicado — usar alternativas

6.6. SAF Trombótica

  • AVK é o padrão para prevenção de trombose venosa E arterial
  • DOACs: risco aumentado de eventos arteriais (especialmente AVC)
  • Anticorpo único (baixo risco): DOAC pode ser alternativa razoável

6.7. Tumores Cerebrais

  • DOAC pode ser considerado sobre HBPM para reduzir risco de HIC
  • Risco basal de HIC é maior em metástases cerebrais que em tumores primários

6.8. Pacientes Críticos em UTI

  • Absorção e distribuição de HBPM subcutânea significativamente alteradas na doença crítica
  • Pacientes com sepse: menores níveis de anti-Xa pico
  • Fatores contribuintes: nível reduzido de antitrombina, perfusão comprometida, vasopressores, idade avançada

6.9. Câncer

  • Alto risco de TEV recorrente
  • HBPM vs warfarina: ↓ TEV recorrente, sangramento similar
  • DOACs (apixabana, rivaroxabana, edoxabana) vs HBPM: não-inferiores para TEV recorrente, sangramento similar
  • EP recorrente em câncer apesar de HBPM terapêutica: escalonamento de dose de HBPM em 20-25%

7. MONITORAMENTO E SEGUIMENTO

7.1. Cuidados Pós-EP Aguda

CORLOERecomendação
1C-LDFollow-up dentro da 1ª semana após alta: educação, adesão, detecção de complicações hemorrágicas
1C-EOVisita clínica em ≤3 meses: discutir duração de anticoagulação, necessidade de testes adicionais, avaliar sintomas persistentes
1C-LDPerguntar sobre sintomas de EP e limitações funcionais a cada visita por pelo menos 1 ano → rastrear CTEPD
1B-NREm fase estendida (>3-6 meses): reavaliação periódica de riscos e benefícios de continuar anticoagulação
2aB-NRQuestionários para rastrear ansiedade e depressão em visitas de seguimento
2aB-NRPacientes complexos: seguimento em clínica especializada em EP
2bB-NRSintomas persistentes 3-6 meses após EP: teste de desempenho (TC6M, teste de shuttle)

7.2. Rastreamento de Câncer e Trombofilia

CORLOERecomendação
1AEP sem fatores de risco identificáveis: história completa, exame físico e rastreamento de câncer apropriado para idade
2bC-LDSem fator reversível maior + história familiar de trombose ou <55 anos: teste de trombofilia pode ser razoável se resultado for mudar conduta ou informar risco familiar
3: Sem benefícioATC ou PET-CT de rotina para rastrear câncer oculto NÃO é recomendado
  • Câncer diagnosticado em 4%-10% no 1º ano em EP sem fatores reversíveis
  • Teste de trombofilia NÃO recomendado se fator reversível maior (cirurgia, trauma, imobilização)
  • Deficiências de antitrombina, proteína C, proteína S: maior risco de recorrência → podem justificar anticoagulação estendida
  • Testes baseados em coagulação NÃO devem ser realizados na fase aguda da EP ou durante anticoagulação

7.3. Contracepção e Hormônios

CORLOERecomendação
1C-EOPacientes em idade fértil: aconselhamento sobre contracepção e opções de anticoagulação caso engravidem
2aC-EOPacientes com EP que engravidam: manejo por equipe especializada
2aC-LDSUA (sangramento uterino anormal) com anticoagulação: discutir manejo hormonal, estratégias alternativas de anticoagulação e intervenções ginecológicas em vez de cessar anticoagulação
2bC-LDPacientes com EP que necessitam de terapia hormonal com estrogênio: continuação pode ser considerada se balanço risco-benefício favorável e paciente anticoagulada

SUA e DOACs:

  • Rivaroxabana e edoxabana: ↑ risco de sangramento vs warfarina
  • Dabigatrana: ↓ risco de sangramento vs warfarina
  • Apixabana: sem diferença significativa vs warfarina

7.4. Atividade e Viagem

CORLOERecomendação
2aADeambulação precoce é razoável (sobre repouso no leito)
2aB-RMeias de compressão durante viagens longas (≥5h) são úteis para reduzir TVP
2bC-EOEP relacionada a viagem/imobilidade, não mais anticoagulado: dose profilática única de DOAC ou HBPM no dia de viagem longa pode ser razoável
2bC-LDEP Categorias C2-E: restringir viagens longas por 4 semanas após início do tratamento ou resolução de sintomas

7.5. Anticoagulação por Risco de Recorrência

Classificação de Fatores de Risco para TEV (Tabela 9)

Fator Reversível MaiorFator Reversível MenorFator Persistente
Cirurgia com AG ≥30 minCirurgia com AG <30 minCâncer ativo ± tratamento
Hospitalização por doença aguda ≥72h em leitoHospitalização por doença aguda <72hDoença autoimune (AR, LES)
CesarianaDoença aguda extra-hospitalar ≥72h em leitoDoença inflamatória intestinal
Fratura de MIEstrogênioterapia (reposição ou contraceptivo)Imobilidade crônica
Periparto
Trauma com mobilidade reduzida ≥72h

Recomendações de Anticoagulação Estendida

CORLOERecomendação
1AEP sem fator reversível maior: continuar anticoagulação além de 3-6 meses na fase estendida
1B-NREP com fator reversível maior: parar anticoagulação ao final da fase inicial (3-6 meses)
1C-LDEP com fator de risco persistente: continuar na fase estendida
1AFase estendida: DOAC é recomendado sobre AVK (exceto se contraindicado)
1ACâncer na fase estendida: DOAC ou HBPM sobre AVK
1B-RSem câncer, com contraindicação a DOAC: AVK sobre AAS ou nenhuma terapia
1AFase estendida: dose reduzida de apixabana (2,5 mg 2x/dia) ou rivaroxabana (10 mg/dia) é recomendada para reduzir sangramento
2aB-NRFator reversível menor: decisão compartilhada sobre parar vs continuar
2aB-RContraindicação ou recusa de anticoagulação: AAS em baixa dose é razoável sobre nenhuma terapia

Risco de recorrência após parar anticoagulação:

  • Fator reversível maior (cirúrgico): <1%/ano
  • Fator reversível menor: 4,2-7,1%/ano
  • Sem fator identificável: ~30-40% em 10 anos
  • Anticoagulação estendida: ↓ 80% do risco relativo de recorrência

Dados do RENOVE (2768 pacientes):

  • Dose reduzida vs dose plena de DOAC: TEV recorrente similar (2,2% vs 1,8%; HR ajustado 1,32)
  • Sangramento maior/CRNM: menor com dose reduzida (9,9% vs 15,2%; HR 0,61)

API-CAT (1766 pacientes com câncer):

  • Apixabana 2,5 mg vs 5 mg 2x/dia: TEV recorrente similar (2,1% vs 2,8%)
  • Sangramento clinicamente relevante: 12,1% vs 15,6% (HR 0,75)

Esquemas de Iniciação de Anticoagulação

AgenteFase de Iniciação
Apixabana10 mg 2x/dia por 7 dias → 5 mg 2x/dia
Rivaroxabana15 mg 2x/dia por 21 dias → 20 mg 1x/dia
Dabigatrana≥5 dias de anticoagulação parenteral → 150 mg 2x/dia
Edoxabana≥5 dias de anticoagulação parenteral → 60 mg 1x/dia
AVKAnticoagulação parenteral (HBPM) + AVK até INR ≥2

Doses de Fase Estendida

AgenteDose estendida
Apixabana2,5 mg 2x/dia
Rivaroxabana10 mg 1x/dia

7.6. EP Recorrente

CORLOERecomendação
1C-EOSintomas sugestivos de EP recorrente: CTPA ou V/Q para confirmar objetivamente
1C-LDEP recorrente durante anticoagulação: investigar fatores clínicos e farmacológicos contribuintes
2aC-EOEP recorrente apesar de anticoagulação terapêutica: trocar para classe diferente
2aC-EOEP recorrente durante DOAC em dose reduzida: retomar dose plena dentro da mesma classe
2aB-NRCâncer + EP recorrente apesar de HBPM terapêutica: escalonamento de dose HBPM em 20-25%
  • Taxa de recorrência durante anticoagulação: ~2% (DOAC 2,4%, AVK 2,6%)
  • D-dímero negativo pode apoiar exclusão de EP recorrente em pacientes anticoagulados
  • D-dímero elevado NÃO deve ser usado como critério diagnóstico isolado para EP recorrente

8. COMPLICAÇÕES E SEQUELAS — CTEPD

8.1. Avaliação de Pacientes Persistentemente Sintomáticos

CORLOERecomendação
1B-NRDispneia e/ou limitação funcional persistentes ≥3 meses após EP: avaliação diagnóstica para CTEPD
2aB-NRAvaliação de CTEPD: ecocardiograma + cintilografia de perfusão (V/Q planar, SPECT, SPECT/CT) são razoáveis sobre eco isolado
2aB-NRCPET é razoável para excluir CTEPD
3: Sem benefícioB-NRPacientes assintomáticos com baixa suspeita: CTPA ou cintilografia de seguimento NÃO é benéfica
1B-NRPacientes em avaliação para CTEPD: manter anticoagulação até conclusão da avaliação
1B-RCTEPD excluída mas dispneia persistente: reabilitação pulmonar é razoável
1C-LDCTEPD com HP: referência a centro especializado é recomendada
2aC-LDCTEPD sem HP: referência a centro especializado pode ser benéfica para pacientes selecionados

Prevalência

  • CTEPH após EP aguda: ~2,3-4%
  • CTEPD sem HP: prevalência desconhecida, mas pelo menos tão prevalente quanto CTEPH
  • Até 50% dos pacientes terão dispneia ou limitação funcional persistente meses/anos após EP
  • ~50% terão defeitos de perfusão persistentes (RPVO), muitos assintomáticos

Diagnóstico

  • V/Q scan normal: VPN ~100% para excluir CTEPD
  • Eco isolado é insuficiente para incluir ou excluir CTEPD (1/3 dos pacientes com CTEPH confirmada tinham eco normal)
  • CPET: sensível para detectar comprometimento cardiopulmonar, mas especificidade limitada; correlação de VE/VCO₂ com hemodinâmica anormal
  • RPVO na CTPA 6-12 meses não correlaciona com desfechos clínicos ou limitação funcional → CTPA de seguimento não indicada em assintomáticos

Sinais Ecocardiográficos Sugestivos de HP (Tabela 10)

Categoria A (Ventrículos)Categoria B (Artéria Pulmonar)Categoria C (VCI e AD)
VD/VE basal >1,0RVOT AT <105 ms e/ou notch mesossistólicoVCI >21 mm com colapso inspiratório reduzido (<50% sniff, <20% quiet)
Achatamento septal (LVEI >1,1)Velocidade de regurgitação pulmonar diastólica precoce >2,2 m/sÁrea AD (sístole final) >18 cm²
TAPSE/sPAP <0,55 mm/mmHgAP >aorta; AP >25 mm

Eco de baixa probabilidade: TRV ≤2,8 m/s e ausência de sinais de HP Eco de probabilidade maior: TRV ≥2,8 m/s e presença de sinais de HP Sinais de ≥2 categorias (A/B/C) devem estar presentes para alterar probabilidade ecocardiográfica


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