Cardiologia2024

ESC 2024 — Manejo da Fibrilação Atrial 2024: o que mudou na diretriz

Cai na prova 2026
  • FA é uma das condições cardíacas mais encontradas, com impacto amplo em todos os serviços de saúde (atenção primária e secundária)

  • Prevalência esperada para dobrar nas próximas décadas (envelhecimento populacional, aumento de comorbidades, melhora na detecção)

  • Morbidade associada à FA permanece altamente preocupante: AVC, IC, tromboembolismo, demência vascular, morte

  • Implementação das diretrizes na prática é frequentemente pobre (demonstrado pelo estudo STEEER-AF)

  • Novo framework AF-CARE substitui o ABC pathway da diretriz de 2020:

    • [C] Comorbidity and risk factor management (Manejo de comorbidades e fatores de risco)
    • [A] Avoid stroke and thromboembolism (Evitar AVC e tromboembolismo)
    • [R] Reduce symptoms by rate and rhythm control (Reduzir sintomas por controle de frequência e ritmo)
    • [E] Evaluation and dynamic reassessment (Avaliação e reavaliação dinâmica)
  • CHA₂DS₂-VA substitui o CHA₂DS₂-VASc (remoção do critério sexo/gênero)

  • Ablação por cateter como primeira linha (Classe I) na FA paroxística

  • Ablação cirúrgica concomitante na cirurgia de válvula mitral elevada para Classe I

  • Oclusão cirúrgica do apêndice atrial esquerdo elevada para Classe I em cirurgia cardíaca

  • SGLT2 inhibidores recomendados (Classe I) para IC + FA independente da FEVE

  • Limiar de 24 horas (não mais 48h) para cardioversão sem anticoagulação prévia

  • Ênfase em controle de ritmo precoce (dentro de 12 meses do diagnóstico)

  • Perda de peso ≥10% com Classe I para obesos/sobrepeso com FA

  • Álcool ≤3 drinks/semana (≤30g) como Classe I

O que mudou

12 mudanças que você precisa saber

  • Antes

    CHA₂DS₂-VASc (com pontos para sexo feminino)

    Agora

    CHA₂DS₂-VA (sem critério de gênero/sexo)

  • Antes

    ABC pathway

    Agora

    AF-CARE pathway

  • Antes

    Ablação por cateter como 1ª linha na FA paroxística (IIa/B)

    Agora

    Classe I/A

  • Antes

    Ablação cirúrgica em cirurgia mitral + FA (IIa/A)

    Agora

    Classe I/A

  • Antes

    Oclusão cirúrgica do AAE em cirurgia cardíaca (IIb/C)

    Agora

    Classe I/B

  • Antes

    Perda de peso em obesos com FA (IIa/B)

    Agora

    Classe I/B com alvo ≥10%

  • Antes

    Exercício para prevenção/recorrência (IIa/C)

    Agora

    Programa de exercício individualizado Classe I/B

  • Antes

    Reduzir álcool (IIa/B)

    Agora

    ≤3 drinks/semana (≤30g álcool) Classe I/B

  • Antes

    HAS-BLED para avaliação de sangramento (IIa/B)

    Agora

    Avaliar e manejar fatores MODIFICÁVEIS (I/B), NÃO usar escores para decidir iniciar/retirar ACO (III/B)

  • Antes

    Limiar de 48h para cardioversão sem ACO prévia

    Agora

    Limiar de 24h

  • Antes

    ACO em FA pós-operatória (IIb/B)

    Agora

    IIa/B

  • Antes

    Ablação endoscópica/híbrida para FA persistente refratária (IIb/C)

    Agora

    IIa/A

Resumo técnico

A diretriz na íntegra

2. CONTEXTO E IMPORTÂNCIA

Por que esta diretriz foi publicada

  • FA é uma das condições cardíacas mais encontradas, com impacto amplo em todos os serviços de saúde (atenção primária e secundária)
  • Prevalência esperada para dobrar nas próximas décadas (envelhecimento populacional, aumento de comorbidades, melhora na detecção)
  • Morbidade associada à FA permanece altamente preocupante: AVC, IC, tromboembolismo, demência vascular, morte
  • Implementação das diretrizes na prática é frequentemente pobre (demonstrado pelo estudo STEEER-AF)

O que mudou em relação à versão anterior (2020)

  • Novo framework AF-CARE substitui o ABC pathway da diretriz de 2020:

    • [C] Comorbidity and risk factor management (Manejo de comorbidades e fatores de risco)
    • [A] Avoid stroke and thromboembolism (Evitar AVC e tromboembolismo)
    • [R] Reduce symptoms by rate and rhythm control (Reduzir sintomas por controle de frequência e ritmo)
    • [E] Evaluation and dynamic reassessment (Avaliação e reavaliação dinâmica)
  • CHA₂DS₂-VA substitui o CHA₂DS₂-VASc (remoção do critério sexo/gênero)

  • Ablação por cateter como primeira linha (Classe I) na FA paroxística

  • Ablação cirúrgica concomitante na cirurgia de válvula mitral elevada para Classe I

  • Oclusão cirúrgica do apêndice atrial esquerdo elevada para Classe I em cirurgia cardíaca

  • SGLT2 inhibidores recomendados (Classe I) para IC + FA independente da FEVE

  • Limiar de 24 horas (não mais 48h) para cardioversão sem anticoagulação prévia

  • Ênfase em controle de ritmo precoce (dentro de 12 meses do diagnóstico)

  • Perda de peso ≥10% com Classe I para obesos/sobrepeso com FA

  • Álcool ≤3 drinks/semana (≤30g) como Classe I


3. DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES

3.1 Classificação Temporal da FA

ClassificaçãoDefinição
FA de primeiro diagnósticoFA não diagnosticada anteriormente, independente de sintomas, padrão temporal ou duração
FA paroxísticaFA que termina espontaneamente em 7 dias ou com intervenção. Maioria dos episódios autolimitados dura <48h
FA persistenteEpisódios não autolimitados. Muitos trials usam 7 dias como corte. Persistente de longa duração: ≥12 meses contínuos, mas controle de ritmo ainda é opção
FA permanenteFA para qual nenhuma tentativa de restauração de ritmo sinusal é planejada (decisão compartilhada médico-paciente)

3.2 Outros Conceitos Clínicos Relevantes

ConceitoDefinição
FA clínicaFA sintomática ou assintomática documentada por ECG (12 derivações ou outro dispositivo ECG). Períodos ≥30 segundos podem indicar preocupação clínica
FA subclínica detectada por dispositivoEpisódios assintomáticos detectados por monitoramento contínuo (dispositivos cardíacos implantáveis, wearables). Confirmação por profissional competente é necessária
Carga de FA (AF burden)Tempo total em FA durante período de monitoramento claramente especificado, expresso em percentual
FA de início recenteConceito em desenvolvimento; ponto de corte temporal ainda não estabelecido
FA induzida por gatilhoNovo episódio de FA em proximidade temporal com fator precipitante potencialmente reversível
FA precoce (Early AF)Tempo desde diagnóstico: 3-24 meses (definição não bem estabelecida)
FA autolimitadaFA paroxística que termina espontaneamente
Cardiomiopatia atrialCombinação de alterações estruturais, elétricas ou funcionais nos átrios com impacto clínico
Episódios de alta frequência atrial (AHRE)Episódios ≥5 min com frequência atrial ≥170 bpm, detectados por dispositivos implantados

3.3 Critério Diagnóstico para FA

  • Confirmação por ECG é obrigatória para iniciar estratificação de risco e tratamento (Classe I, Nível A)
  • Opções: ECG de 12 derivações, dispositivos de derivação única ou múltiplas derivações
  • Período mínimo em dispositivos de monitoramento: ≥30 segundos (consenso, evidência limitada)
  • NÃO inclui wearables não-ECG (fotopletismografia)
  • Muitos ensaios pivotais exigiram ≥2 ECGs documentando FA

3.4 Classificação de Sintomas — mEHRA (modified EHRA)

ScoreSintomasDescrição
1NenhumFA não causa sintomas
2aLevesAtividade diária normal não afetada por sintomas
2bModeradosAtividade diária normal não afetada, mas paciente incomodado pelos sintomas
3GravesAtividade diária normal afetada
4IncapacitantesAtividade diária normal descontinuada

3.5 Eventos Adversos Associados à FA

DesfechoRisco Relativo
Insuficiência cardíacaRR 4,62 (IC 3,13–6,83) a RR 4,99 (IC 3,0–8,22)
AVC isquêmicoRR 2,3 (IC 1,84–2,94)
Doença isquêmica do coraçãoRR 1,61 (IC 1,38–1,87)
Comprometimento cognitivoHR ajustado 1,39 (IC 1,25–1,53)
DemênciaOR 1,6 (IC 1,3–2,0)
Demência vascularHR 1,68 (IC 1,33–2,12; p<0,001)
Mortalidade por todas as causasRR 1,95 (IC 1,50–2,54)
Mortalidade cardiovascularRR 2,03 (IC 1,79–2,30)

4. DIAGNÓSTICO

4.1 Avaliação Diagnóstica Inicial

Recomendações para TODOS os pacientes:

AvaliaçãoDetalhes
História médicaPadrão de FA, história familiar relevante, comorbidades, fatores de risco para TE e sangramento
ECG 12 derivaçõesConfirmar ritmo, frequência ventricular, sinais de doença estrutural, defeitos de condução, isquemia
Avaliação de sintomasImpacto funcional (mEHRA), PROMs
Exames de sangueHemograma completo, função renal, eletrólitos séricos, função hepática, glicose/HbA1c, função tireoidiana
Ecocardiograma transtorácicoQuando guiar decisões terapêuticas (Classe I, Nível C)

Avaliações selecionadas:

  • Monitoramento ECG ambulatorial (carga de FA, controle de frequência)
  • ECG de esforço (controle de FC ou efeitos de drogas IC)
  • Exames adicionais: NT-proBNP, troponina
  • ETE para trombo em AE e avaliação valvar
  • TC/angiografia coronariana para DAC suspeita
  • RMC para cardiomiopatias atriais/ventriculares
  • Imagem cerebral e avaliação cognitiva

4.2 Algoritmo Diagnóstico

  1. Qualquer suspeita → Verificar ritmo cardíaco
  2. Se irregular ou sugestivo de FA → Confirmar com ECG (12 derivações, derivação única ou múltiplas ≥30s)
  3. Diagnóstico de FA clínica confirmado → Iniciar estratificação de risco e pathway AF-CARE
  4. Se FA detectada por dispositivo/wearable não-ECG → Requer confirmação por ECG antes de iniciar manejo

5. TRATAMENTO

5.1 [C] MANEJO DE COMORBIDADES E FATORES DE RISCO

Recomendações Principais (Classe I)

FatorAlvo/RecomendaçãoClasse/Nível
HipertensãoPA alvo 120-129/70-79 mmHg na maioria; <140 mmHg se fragilidade/≥85 anosI/B
IC com congestãoDiuréticos para aliviar sintomasI/C
IC com FEVE reduzidaTerapia médica otimizada para ICI/B
iSGLT2 na ICIndependente da FEVE, para reduzir hospitalização por IC e morte CVI/A
Controle glicêmicoEfetivo, como parte de manejo abrangente de fatores de riscoI/C
Perda de peso≥10% do peso corporal em sobrepeso/obesosI/B
Exercício físicoPrograma individualizado para FA paroxística ou persistenteI/B
ÁlcoolReduzir para ≤3 drinks padrão (≤30g de álcool) por semanaI/B

Recomendações Adicionais

IntervençãoClasse/Nível
Cirurgia bariátrica (IMC ≥40 ou ≥35 com complicações) + estratégia de controle de ritmoIIb/C
Manejo da AOS como parte de manejo abrangenteIIb/B
NÃO usar apenas questionários baseados em sintomas para rastreamento de AOS na FAIII/B

Alvos Específicos por Comorbidade

  • Hipertensão: PAS 120-129 mmHg / PAD 70-79 mmHg. Redução de 5 mmHg na PAS → 9% redução de eventos CV maiores. IECA ou BRA são preferidos.
  • IC: Diuréticos + terapia para ICFEr (beta-bloqueadores, IECA/BRA, sacubitril-valsartana, antagonistas mineralocorticoides, iSGLT2). iSGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina, sotagliflozina) efetivos em todos os espectros de FEVE.
  • Diabetes: Controle glicêmico efetivo. Metformina e iSGLT2 podem prevenir FA incidente.
  • Obesidade: Perda ≥10% (alvo IMC <27 kg/m²). Perda ≤3% não impacta recorrência.
  • AOS: Polisonografia ou teste domiciliar preferidos sobre questionários. CPAP pode mitigar propensidade à FA.
  • Atividade física: Exercício aeróbico regular melhora condicionamento e reduz recorrência.
  • Álcool: Dose-dependente no risco de recorrência. Abstinência reduziu recorrência de 16,8 para 2,1 drinks/semana.

5.2 [A] EVITAR AVC E TROMBOEMBOLISMO

5.2.1 Escore CHA₂DS₂-VA (NOVA VERSÃO — sem sexo/gênero)

ComponenteDefiniçãoPontos
C — IC crônicaSintomas/sinais de IC (qualquer FEVE) ou FEVE assintomática ≤40%1
H — HipertensãoPA >140/90 em ≥2 ocasiões ou tratamento anti-hipertensivo atual1
A₂ — Idade ≥75 anosRisco contínuo relacionado à idade2
D — Diabetes mellitusDM tipo 1 ou 2, ou uso de hipoglicemiantes1
S₂ — AVC/AIT/TE arterial prévioTromboembolismo prévio = risco altamente elevado2
V — Doença vascularDAC (incluindo IAM prévio, angina, revascularização, DAC significativa em imagem) OU DVP (claudicação, revascularização, intervenção na aorta, placa aórtica complexa ≥4mm)1
A — Idade 65-74 anos1
Máximo8 pontos

NOTA IMPORTANTE: Sexo feminino foi REMOVIDO como critério. Fatores adicionais a considerar incluem: câncer, DRC, etnia, biomarcadores (troponina, BNP), dilatação atrial, dislipidemia, tabagismo, obesidade.

5.2.2 Decisão sobre Anticoagulação

RecomendaçãoClasse/Nível
ACO em FA clínica com risco TE elevadoI/A
CHA₂DS₂-VA ≥2 → indicador de risco TE elevado para iniciar ACOI/C
CHA₂DS₂-VA = 1 → considerar ACOIIa/C
ACO em TODOS com FA + CMH ou amiloidose cardíaca, independente do CHA₂DS₂-VAI/B
Reavaliação periódica individualizada do risco TEI/B
DOAC em FA subclínica + risco TE elevado (sem alto risco de sangramento)IIb/B
Antiplaquetários como alternativa à ACO — NÃO RECOMENDADOIII/A
Padrão temporal da FA (paroxística/persistente/permanente) para determinar necessidade de ACO — NÃO RECOMENDADOIII/B

5.2.3 Escolha do Anticoagulante

DOACs preferidos sobre AVK (Classe I, Nível A), exceto:

  • Válvulas mecânicas
  • Estenose mitral moderada a grave
RecomendaçãoClasse/Nível
DOACs preferidos sobre AVKI/A
INR alvo 2,0-3,0 para AVKI/B
Trocar para DOAC se TTR <70% no AVKI/B
Manter TTR >70% no AVKIIa/A
Manter AVK em ≥75 anos estáveis com polifarmácia (em vez de trocar para DOAC)IIb/B
Dose reduzida de DOAC sem critérios específicos — NÃO RECOMENDADAIII/B

5.2.4 Doses de DOACs

DOACDose PadrãoCritérios para ReduçãoDose Reduzida
Apixabana5 mg 2x/dia2 de 3: idade ≥80, peso ≤60 kg, creatinina sérica ≥133 μmol/L2,5 mg 2x/dia
Dabigatrana150 mg 2x/diaQualquer: idade ≥80; verapamil concomitante. Considerar: 75-80 anos, ClCr 30-50, gastrite/esofagite/DRGE, outros riscos de sangramento110 mg 2x/dia
Edoxabana60 mg 1x/diaQualquer: ClCr 15-50, peso ≤60 kg, ciclosporina/dronedarona/eritromicina/cetoconazol concomitantes30 mg 1x/dia
Rivaroxabana20 mg 1x/diaClCr 15-49 mL/min15 mg 1x/dia

5.2.5 FA Subclínica Detectada por Dispositivo

  • Trial ARTESiA: Apixabana vs. AAS → redução de AVC/embolia sistêmica (HR 0,63; p=0,007), mas aumento de sangramento maior (HR 1,36; p=0,04)
  • Trial NOAH: Edoxabana vs. placebo → interrompido precocemente por segurança e futilidade
  • Carga de FA subclínica baixa em ambos os trials (mediana 1,5h e 2,8h)
  • Conclusão: DOAC pode ser considerado (IIb/B) em subgrupos com alto risco de AVC e ausência de fatores de sangramento maior

5.2.6 Antiplaquetários

  • Antiplaquetários (AAS, clopidogrel) NÃO são alternativa para ACO na FA (Classe III)
  • Adicionar antiplaquetários à ACO para prevenção de AVC na FA — NÃO RECOMENDADO (Classe III)
  • Combinação apenas em doença vascular aguda (SCA, ICP)

5.2.7 AVC Isquêmico Apesar de ACO

  • Investigação diagnóstica completa: causas não-cardioembólicas, fatores de risco vascular, dosagem, aderência (IIa/B)
  • Adicionar antiplaquetário à ACO para AVC recorrente — NÃO RECOMENDADO (III/B)
  • Trocar de um DOAC para outro, ou de DOAC para AVK sem indicação clara — NÃO RECOMENDADO (III/B)

5.2.8 Oclusão do Apêndice Atrial Esquerdo (AAE)

Percutânea:

  • Pode ser considerada em pacientes com contraindicação para ACO de longo prazo (IIb/C)

Cirúrgica:

  • Recomendada como adjunto à ACO em pacientes com FA submetidos a cirurgia cardíaca (I/B) — baseado no LAAOS III
  • Deve ser considerada como adjunto à ACO na ablação endoscópica/híbrida (IIa/C)
  • Pode ser considerada como procedimento isolado em contraindicação à ACO (IIb/C)

5.2.9 Risco de Sangramento

RecomendaçãoClasse/Nível
Avaliar e manejar fatores de sangramento MODIFICÁVEIS em todos elegíveis para ACOI/B
Usar escores de sangramento para DECIDIR iniciar ou retirar ACO — NÃO RECOMENDADOIII/B

Fatores de sangramento modificáveis a manejar:

  • Hipertensão descontrolada
  • Álcool excessivo
  • Anti-inflamatórios/antiplaquetários desnecessários
  • Aderência e TTR (se AVK)
  • Medicações com interações

Contraindicações absolutas raras para ACO:

  • Tumores intracranianos primários
  • Sangramento intracerebral por angiopatia amiloide cerebral

5.2.10 Manejo de Sangramento

Sangramento menor: Suspender temporariamente ACO enquanto causa é manejada

Sangramento maior — AVK:

  • PCC (concentrado de complexo protrombínico) preferido sobre PFC (IIa/C)
  • Vitamina K para reversão sustentada

Sangramento maior — DOAC:

  • Se dose tomada há 2-4h: carvão ativado / lavagem gástrica
  • Dabigatrana: Idarucizumabe (IIa/B)
  • Inibidores do FXa (apixabana, rivaroxabana, edoxabana): Andexanet alfa (IIa/B)
  • Se antídotos não disponíveis: PCC
  • Hemodiálise efetiva para dabigatrana

Após episódio de sangramento:

  • Reiniciar ACO na ausência de contraindicações
  • Não reiniciar → aumento significativo de IAM, AVC e morte

5.3 [R] REDUZIR SINTOMAS POR CONTROLE DE FREQUÊNCIA E RITMO

5.3.1 Controle de Frequência Cardíaca

Alvos:

  • Controle leniente: FC de repouso <110 bpm (alvo inicial) (IIa/B)
  • Controle estrito: Se sintomas persistentes apesar de controle leniente

Drogas para controle de FC:

DrogaDose IVDose Oral de ManutençãoContraindicações
Metoprolol tartarato2,5-5 mg bolus (máx 15 mg)25-100 mg 2x/diaAsma (para não-seletivos), IC aguda, broncoespasmo grave
Metoprolol XL (succinato)N/A50-200 mg 1x/dia
BisoprololN/A1,25-20 mg 1x/dia
Esmolol500 μg/kg bolus + 50-300 μg/kg/minN/A
Landiolol100 μg/kg bolus opcional + 10-40 μg/kg/min (1-10 em críticos)N/A
NebivololN/A2,5-10 mg 1x/dia
CarvedilolN/A3,125-50 mg 2x/dia
Verapamil2,5-10 mg bolus em 5 min40 mg 2x/dia a 480 mg 1x/diaFEVE ≤40%
Diltiazem0,25 mg/kg bolus + 5-15 mg/h60 mg 3x/dia a 360 mg 1x/diaFEVE ≤40%
Digoxina0,5 mg bolus (0,75-1,5 mg em 24h)0,0625-0,25 mg 1x/diaMonitorar níveis, ajustar na DRC
Digitoxina0,4-0,6 mg0,05-0,1 mg 1x/dia
Amiodarona (último recurso)300 mg IV em 30-60 min + 900-1200 mg em 24h200 mg 1x/dia após cargaSensibilidade ao iodo; toxicidade pulmonar, oftálmica, hepática, tireoidiana

Recomendações por FEVE:

FEVEPrimeira linhaCombinação
>40%Beta-bloqueador, digoxina, diltiazem OU verapamil (I/B)Associar para atingir alvo (IIa/C)
≤40%Beta-bloqueador E/OU digoxina (I/B)Beta-bloqueador + digoxina (IIa/C)

ATENÇÃO: Combinar beta-bloqueador com verapamil/diltiazem apenas sob orientação de especialista com monitoramento de Holter para bradicardia.

Ablação de nó AV + marca-passo:

  • Considerar se refratário a controle farmacológico (IIa/B)
  • AVN ablação + TRC em pacientes muito sintomáticos com FA permanente + ≥1 hospitalização por IC (IIa/B) — baseado no trial APAF-CRT

5.3.2 Controle de Ritmo — Princípios Gerais

Indicações para controle de ritmo:

  1. Primária: Redução de sintomas e melhora da qualidade de vida
  2. Selecionados: Redução de morbidade e mortalidade (EAST-AFNET 4)

Anticoagulação periprocedimento para cardioversão:

SituaçãoRecomendação
ACO terapêutica ≥3 semanas antes de cardioversão eletivaClasse I/B
Se <3 semanas de ACO → ETE para excluir trombo antes de cardioversãoClasse I/B
ACO ≥4 semanas APÓS cardioversão para TODOSClasse I/B
ACO longo prazo se fatores de risco TE, independente do ritmoClasse I/B

MUDANÇA CRUCIAL — Limiar de 24 horas:

  • Cardioversão precoce NÃO recomendada sem ACO adequada ou ETE se FA >24 horas (Classe III/C)
  • Se FA definitivamente <24h E sem fatores de risco TE → ACO pós-cardioversão é opcional
  • Abordagem "wait-and-see" para conversão espontânea em 48h (IIa/B) — baseado no RACE 7 ACWAS

Controle de ritmo precoce:

  • Implementação dentro de 12 meses do diagnóstico em pacientes selecionados com fatores de risco TE → reduz risco de morte CV ou hospitalização (IIa/B) — baseado no EAST-AFNET 4

5.3.3 Cardioversão Elétrica (CVE)

  • Recomendada em instabilidade hemodinâmica aguda (Classe I/C)
  • DOACs preferidos sobre AVK para cardioversão (Classe I/A)
  • Como ferramenta diagnóstica para avaliar benefício do ritmo sinusal sobre sintomas ou função de VE (IIa/C)
  • Desfibriladores bifásicos são padrão
  • Choques de energia máxima fixa são mais efetivos que energia escalonada baixa
  • Compressão ativa nos pads melhora taxas de sucesso
  • Posição anterior-posterior vs anterolateral: sem diferença significativa

5.3.4 Cardioversão Farmacológica

DrogaViaDoseTaxa de SucessoContraindicações
FlecainidaIV1-2 mg/kg em 10 min52-95% (até 6h)Cardiopatia estrutural grave, DAC, Brugada, ClCr <35
Oral200-300 mg50-60% em 3h, 75-85% em 6-8h
PropafenonaIV1,5-2 mg/kg em 10 min43-89% (até 6h)Mesmas que flecainida
Oral450-600 mg45-55% em 3h, 69-78% em 8h
AmiodaronaIV300 mg em 30-60 min + 900-1200 mg em 24h44% (8-12h a dias)Sensibilidade ao iodo, hipotireoidismo não tratado
IbutilidaIV1 mg em 10 min (pode repetir)31-51% em FA; 60-75% em flutter (30-90 min)QT longo, HVE grave, FEVE baixa
VernakalantIV3 mg/kg em 10 min (pode repetir 2 mg/kg)50% em 10 minSCA recente, ICFEr, estenose aórtica grave, PAS <100

"Pill-in-the-pocket" (flecainida ou propafenona oral autoadministrado):

  • Considerar em FA paroxística infrequente, após validação hospitalar prévia de eficácia e segurança (IIa/B)
  • Associar agente bloqueador do nó AV para evitar condução 1:1 se transformar em flutter

5.3.5 Drogas Antiarrítmicas para Manutenção de Ritmo Sinusal

DrogaIndicação PreferencialDose OralContraindicaçõesClasse/Nível
AmiodaronaICFEr200 mg/dia (após carga: 200 mg 3x/dia por 4 semanas)Monitorar toxicidade extracardíacaI/A
DronedaronaICFEmr, ICFEp, doença isquêmica, doença valvar400 mg 2x/diaFA PERMANENTE (↑IC, AVC, morte CV)I/A
FlecainidaSem disfunção sistólica VE, sem HVE grave, sem DAC50-150 mg 2x/diaDisfunção VE, HVE grave, DAC, BrugadaI/A
PropafenonaSem disfunção sistólica VE, sem HVE grave, sem DAC150-300 mg 3x/diaMesmas que flecainidaI/A
SotalolFEVE normal ou DAC (com cautela)80-160 mg 2x/diaMonitorar QT, potássio, função renalIIb/A

NÃO RECOMENDADO: DAA em distúrbios de condução avançados sem marca-passo antibradycardíaco (III/C)

5.3.6 Ablação por Cateter

Recomendações:

IndicaçãoClasse/Nível
Decisão compartilhada ao considerar ablaçãoI/C
FA paroxística ou persistente refratária/intolerante a DAAI/A
FA paroxística como primeira linha (estratégia de controle de ritmo com decisão compartilhada)I/A ← NOVA
FA persistente como primeira linha (selecionados)IIb/C
FA + ICFEr com alta probabilidade de taquicardiomiopatia → reverter disfunção VEI/B
FA + ICFEr selecionados → melhorar prognósticoIIa/B
Bradicardia relacionada à FA / pausas sinusais na terminação → evitar MPIIa/C
Reablação após recorrência pós-ablação (se melhora sintomática após primeira PVI)IIa/B

Isolamento das veias pulmonares (PVI) permanece o pilar da ablação.

Ablação por campo pulsado (PFA): não inferior a radiofrequência/crioablação em RCT de 607 pacientes.

Complicações: 2,9-7,2% eventos adversos graves; mortalidade 30 dias <0,1%

Anticoagulação na ablação:

  • ACO ≥3 semanas antes da ablação (I/C)
  • ACO ininterrupta durante ablação (I/A)
  • Continuar ACO ≥2 meses após ablação em TODOS, independente de ritmo ou CHA₂DS₂-VA (I/C)
  • Continuar ACO longo prazo conforme CHA₂DS₂-VA, NÃO pelo sucesso percebido da ablação (I/C)

5.3.7 Ablação Endoscópica e Híbrida

  • FA persistente refratária a DAA: considerar ablação endoscópica/híbrida (IIa/A)
  • FA paroxística com falha de ablação por cateter: pode ser considerada (IIb/B)
  • Continuar ACO independente de ritmo ou exclusão do AAE (I/C)

5.3.8 Ablação Cirúrgica Durante Cirurgia Cardíaca

  • Cirurgia de válvula mitral + FA: ablação cirúrgica concomitante RECOMENDADA (I/A) ← ELEVADA de IIa
  • Cirurgia cardíaca não-mitral + FA: ablação concomitante deve ser considerada (IIa/B)
  • Imagem intraprocedimento para trombo em AE recomendada (I/C)

5.4 [E] AVALIAÇÃO E REAVALIAÇÃO DINÂMICA

  • Reavaliação: 6 meses após apresentação inicial, e pelo menos anualmente ou conforme necessidade clínica
  • Ecocardiografia dinâmica para todos os 4 domínios do AF-CARE
  • PROMs (Patient-Reported Outcome Measures) recomendados: AFEQT ou AFSS

Recomendação: Avaliar qualidade do cuidado e identificar oportunidades de melhora (IIa/B)


6. POPULAÇÕES ESPECIAIS

6.1 FA + Síndromes Coronarianas Agudas (SCA) / ICP

Terapia antitrombótica combinada:

CenárioAté 1 semana1 semana–1 mês1-6 meses6-12 meses>12 meses
SCA + ICP sem complicaçõesACO + clopidogrel + AASACO + clopidogrelACO + clopidogrelACO + clopidogrel (até 12m)ACO apenas
SCA + ICP alto risco isquêmicoACO + clopidogrel + AASACO + clopidogrel + AAS (até 1 mês)ACO + clopidogrelACO + clopidogrelACO apenas
ICP eletivo sem complicaçõesACO + clopidogrel + AASACO + clopidogrelACO + clopidogrel (até 6m)ACO apenasACO apenas
SCA sem ICPACO + clopidogrelACO + clopidogrelACO + clopidogrelACO + clopidogrel (até 12m)ACO apenas
DCC estável >12 mesesACO apenas

Princípios-chave:

  • DOAC preferido sobre AVK quando combinado com antiplaquetários (I/A)
  • Clopidogrel é o inibidor P2Y12 preferido
  • Cessação precoce de AAS (≤1 semana) na maioria
  • Se rivaroxabana: considerar 15 mg ao invés de 20 mg quando combinada (IIa/B)
  • Se dabigatrana: considerar 110 mg ao invés de 150 mg quando combinada (IIa/B)
  • INR 2,0-2,5 se AVK combinado com antiplaquetários (IIa/C)
  • Antiplaquetário além de 12 meses em DCC/DV estável em ACO — NÃO RECOMENDADO (III/B)

6.2 FA + AVC Isquêmico Agudo

  • Manejo coordenado por equipe neurológica especializada
  • AAS em baixa dose nas primeiras 48h do AVC
  • DOAC precoce (<48h para AVC menor/moderado; dia 6-7 para AVC maior) mostrou-se não inferior ao início tardio (ELAN trial)
  • Reintrodução: baseada em gravidade do AVC, risco trombótico vs hemorrágico

6.3 FA + Hemorragia Intracraniana

  • Evidência insuficiente para recomendar definitivamente reiniciar/iniciar ACO após HIC
  • Abordagem multidisciplinar individualizada liderada por equipe neurológica

6.4 FA Induzida por Gatilho ("Trigger-induced AF")

  • Condições mais comuns: sepse (prevalência 9-20%), álcool, drogas ilícitas, cirurgia
  • Recorrência após sepse: 33-50%
  • ACO de longo prazo deve ser considerada em pacientes adequados com risco TE elevado (IIa/C)
  • Tratar como FA de primeiro diagnóstico, seguir AF-CARE

6.5 FA Pós-operatória

  • Incidência: 30-50% em cirurgia cardíaca; 5-30% em cirurgia não-cardíaca
  • Prevenção:
    • Amiodarona perioperatória recomendada (I/A) para cirurgia cardíaca
    • Pericardiotomia posterior concomitante (IIa/B)
    • Beta-bloqueadores de rotina NÃO recomendados em cirurgia não-cardíaca (III/B)
  • ACO de longo prazo deve ser considerada conforme risco TE (IIa/B)

6.6 ESUS (AVC Embólico de Fonte Indeterminada)

  • Monitoramento prolongado para FA recomendado (I/B)
  • ACO em ESUS sem FA documentada — NÃO RECOMENDADA (III/A)

6.7 FA na Gestação

RecomendaçãoClasse/Nível
CVE imediata se instabilidade hemodinâmica ou FA pré-excitadaI/C
ACO com HBPM ou AVK (exceto 1º trimestre e após sem 36)I/C
Beta-1 seletivos para controle de FC (excluir atenolol)I/C
CVE para FA persistente com CMHIIa/C
Digoxina se BB ineficazes/não toleradosIIa/C
Ibutilida ou flecainida IV para cardioversão em estáveis sem cardiopatia estruturalIIb/C
Flecainida ou propafenona para controle de ritmo a longo prazoIIb/C

DOACs são contraindicados na gestação.

6.8 FA em Cardiopatia Congênita

  • ACO deve ser considerada em TODOS com FA/flutter + reparo intracardíaco, cianose, paliação de Fontan, ou VD sistêmico, independente de CHA₂DS₂-VA (IIa/C)
  • DOACs contraindicados com válvulas mecânicas
  • DOACs parecem seguros em cardiopatia congênita e biopróteses

6.9 FA + Flutter Atrial

  • ACO recomendada se risco TE elevado (I/B)
  • Manejo espelha FA
  • Ablação do istmo cavotricuspídeo (CTI) superior a DAA para flutter típico
  • 50-70% desenvolvem FA no seguimento após ablação de flutter

6.10 FA em Idosos, Multimórbidos ou Frágeis

  • Fragilidade = fator de risco independente para FA
  • ACO subutilizada em idosos, dementes e frágeis
  • Frágeis ≥75 anos com polifarmácia estáveis em AVK → podem permanecer em AVK (IIb/B)
  • Trocar AVK para DOAC em idosos → pode aumentar sangramento (estudo FRAIL-AF)

6.11 FA em Distúrbios Endócrinos

  • Testar TSH em FA de início recente ou recorrente
  • Hipertireoidismo (inclusive subclínico) e hipotireoidismo subclínico associados a risco aumentado de FA
  • Amiodarona causa disfunção tireoidiana em 15-20%
  • Aldosteronismo primário: risco 3x maior de FA

6.12 FA + Câncer

  • Escores de risco podem SUBESTIMAR risco TE em pacientes oncológicos
  • DOACs: eficácia similar e melhor segurança vs AVK
  • HBPM opção de curto prazo durante tratamentos específicos
  • Decisões dentro de equipe multidisciplinar de cardio-oncologia

9. RASTREAMENTO E PREVENÇÃO DE FA

Rastreamento

RecomendaçãoClasse/Nível
Revisão de ECG por médico para diagnóstico definitivoI/B
Avaliação de ritmo em todo contato de saúde para ≥65 anosI/C
Rastreamento populacional prolongado com ECG não-invasivo: ≥75 anos ou ≥65 + fatores CHA₂DS₂-VAIIa/B

Prevenção Primária de FA

IntervençãoClasse/Nível
PA ótima com IECA/BRA como 1ª linhaI/B
Terapia adequada para ICFErI/B
Peso normal (IMC 20-25)I/B
Exercício: 150-300 min/sem moderado ou 75-150 min/sem vigorosoI/B
Evitar binge drinking e excesso de álcoolI/B
Metformina ou iSGLT2 para DMIIa/B
Redução de peso em obesosIIa/B

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    Escore CHA₂DS₂-VA (sem sexo!) — componentes, pontuações, limiares de decisão (≥2 recomendado; =1 considerar)

  • 02

    Doses e critérios de redução de DOACs — especialmente apixabana (2 de 3 critérios), dabigatrana (≥80 anos, verapamil), rivaroxabana (ClCr 15-49)

  • 03

    Contraindicações para cada DAA por perfil de doença cardíaca:

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